sábado, 27 de maio de 2017

O Dêutero-Isaías (Is 40-55)


A atividade profética do Dêutero-Isaías, começa com o “Livro da consolação de Israel” cap. 40, e é o título dado a segunda parte do livro de Isaías e inspirado nos primeiros versículos. A “consolação” é, com efeito, o principal tema desses capítulos, contrastando com os oráculos geralmente ameaçadores dos caps. 1-39 (do primeiro Isaías).

A pessoa

O Dêutero-Isaías, profeta anônimo do exílio, considerado por muitos como o maior profeta e o melhor poeta de Israel, não nos deixou um único dado sobre a sua vida. Apesar disso, alguns autores se empenharam em escrever a sua “biografia”. Muito se tem dito dele, e nada é totalmente seguro. Segundo alguns, nasceu em Babilônia e terminou ali a sua atividade profética; segundo outros, regressou a Jerusalém depois de 538 e lá continuou a sua pregação, recolhida atualmente nos cap. 56-66. Outros pensam que ele sempre viveu em Jerusalém ou em Judá; alguns até situaram a atividade dele na Fenícia ou no Egito. Afirmou-se que esteve na corte ou no acampamento de Ciro, que foi o primeiro missionário, que morreu martirizado, que sofreu uma doença grave e repugnante.
Tudo isso, que não passa de mera conjectura, demonstra que a “biografia” não deve ser o principal ponto de apoio para entender a obra do profeta. Nem sequer temos certeza do nome dele, embora alguns pensem que também ele se chamava Isaías.
Ainda que não exista unanimidade entre os comentaristas, a maioria aceita que este profeta atuou entre os desterrados da Babilônia na fase final do exílio. Baseando-nos na menção de Ciro, podemos datar o conteúdo destes capítulos entre o ano de 533, quando este começa suas campanhas triunfais, e o ano de 539, data da rendição da Babilônia. Antes de adentrar-nos na mensagem deste profeta, convém conhecer algo do momento histórico.

A época
Os anos centrais do século VI a.C. caracterizam-se pela rápida decadência do império neobabilônico e pelo aparecimento de uma nova potência, a Pérsia. Esta mudança de circunstâncias atinge o seu ponto culminante no ano de 539, quando Ciro entra triunfalmente na Babilônia.
A atividade do Dêutero-Isaías desenvolve-se nos anos anteriores a esta vitória. E é fácil imaginar a atitude dos desterrados durante os acontecimentos. A deportação de 597 nunca foi assimilada pelos judeus. Desde o primeiro momento esperaram a volta rápida à Palestina. Mas as ilusões caíram por terra em 586, quando um novo grupo de compatriotas foi transferido para “junto dos canais da Babilônia”. Algumas palavras do livro de Jeremias expressam perfeitamente os sentimentos de ódio que se foram aninhando neles (Jr 51,34-35). E, junto com o ódio, os desejos de vingança, a saudade da terra prometida, as ânsias de libertação. Estes sentimentos vão acompanhados também de uma crise de fé e de esperança. As palavras do povo: “minha sorte está oculta ao Senhor, meu Deus ignora a minha causa” (Is 40,27), e as de Sião: “abandonou-me o Senhor, meu dono me esqueceu” (Is 49,14), refletem a decepção de muitos contemporâneos do profeta.
E isto é particularmente grave porque os anos que seguem vão levantar um sério problema teológico. As notícias que chegam sobre as vitórias de Ciro fazem esperar uma pronta libertação. O profeta confirma isto. Mas, quando ela se realizar, a quem deveremos atribuí-la: a Javé, deus de um pequeno grupo de exilados, ou a Marduc, deus do novo império? Nesta densa problemática humana e religiosa encaixa-se a mensagem do Dêutero-Isaías.

A mensagem
Os cap. 40-55 de Isaías são conhecidos como “livro da consolação”, devido às suas palavras iniciais: “consolai, consolai o meu povo, diz o
Senhor”. Este título não é inadequado, pois o tema do consolo volta a ressoar ao longo da obra (40,27-31; 41,8-16; 43,1-7; 44,1-2, etc.), mostrando o amor e a preocupação de Deus pelo seu povo.
Em que consiste a consolação? O livro responde em duas etapas. Na primeira (cap. 40-48) nos diz que consiste na libertação do jugo babilônico e no regresso à terra prometida, uma espécie de segundo êxodo, semelhante ao primeiro, quando o povo saiu do Egito. A segunda parte (cap. 49-55) fala-nos da reconstrução e restauração de Jerusalém.
Na primeira etapa, a libertação está confiada a Ciro (41,1-5; 45,1-8;
48,12-15). O novo êxodo apresenta-se com milagres semelhantes ao antigo, embora seja mais grandioso, já que implica uma mudança total da natureza. Este tema do êxodo é denunciado já desde o princípio (40,3-5) e o milagre está centrado especialmente no aparecimento de água e de árvores no deserto (41,17-20; 43,19-21; 48,21).
Esta mensagem chocou-se com a falta de confiança do povo. É realmente Javé quem maneja os fios da história, ou os deuses pagãos?
Deve-se atribuir a ele o aparecimento prodigioso e irresistível de Ciro? Nesta primeira parte, o Dêutero-Isaías trata detalhadamente deste problema e polemiza contra os deuses e ídolos pagãs, impotentes e ineficazes (40,12-26; 41,21-29; 44,5-20; 46,1-7).
Na segunda parte (cap. 49-55), ao falar da reconstrução e restauração de Sião, Jerusalém aparece como mulher e como cidade. Como mulher, queixa-se da falta de filhos; como cidade, das suas ruías (cap. 54). Ambas as coisas serão superadas, graças ao sofrimento do Servo de Javé.
Tem-se dito com frequência que os cantos do Servo (42,l-4[5-9); 49,1-6; 50,4-9(10-11]; 52,13-53,12) não têm relação com o contexto. Isto me parece um grande erro. Este personagem desempenha na segunda parte um papel semelhante ao de Ciro na primeira. Ciro deve trazer a salvação temporal, a libertação do jugo da Babilônia. O Servo traz a salvação eterna, a consolação perpétua de Sião. Ciro baseia a sua atividade no poder das armas; o Servo - modelo de fraqueza e de não-violência – só conta com o poder do sofrimento. Ciro conquista a admiração e a glória. O Servo arrasta o desprezo de todos. Mas a dor e a morte dão-lhe a vitória definitiva, mais duradoura que a de Ciro.
Nestes cânticos atingimos um dos auges teológicos do Antigo Testamento. Nunca até então se havia falado tão claramente do valor redentor do sofrimento. Admitiam-se as dificuldades e contrariedades da vida encontrando nelas um sentido educativo, pedagógico, tencionado por Deus. Mas não se podia imaginar que o sofrimento tivesse um valor redentor em si mesmo. O Dêutero-Isaías proclama pela primeira vez que “se o grão de trigo cair na terra e morrer, produz muito fruto”. Não há nada de estranho em a Igreja primitiva conceder tão grande valor a estes poemas e ver antecipados neles a existência e o destino de Jesus.

No próximo post falaremos sobre a parte final do livro de Isaías, conhecido com Trito-Isaías (cap. 56-66).

Bibliografia
SICRE, José Luís. Profetismo em Israel: o profeta, os profetas, a mensagem. Tradução de João Luís Baraúna. Petrópolis: Vozes 1996. P.310,313

Bíblia de Jerusalém. Paulus.

sábado, 6 de maio de 2017

Daniel, autor, texto e contexto.

E levantou-se, e foi; e eis que um homem etíope, eunuco, mordomo-mor de Candace, rainha dos etíopes, o qual era superintendente de todos os seus tesouros, e tinha ido a Jerusalém para adoração. Regressava e, assentado no seu carro, lia o profeta Isaías.E disse o Espírito a Filipe: Chega-te, e ajunta-te a esse carro. E, correndo Filipe, ouviu que lia o profeta Isaías, e disse: Entente tu o que lês? E ele disse: Como poderei entender, se alguém não me ensinar? E rogou a Filipe que subisse e com ele se assentasse. Atos 8: 27-31

Daniel, autor, texto e contexto.

O livro de Daniel é uma literatura apocalíptica no Antigo Testamento, carregado de uma densidade imagética e metafórica que fascinam seus leitores e que se mal compreendidas ou tomadas literalmente, podem levar às mais fantásticas fabulações, sem nenhum fundamento na realidade. Durante a sua história ele teve várias interpretações, não apenas os movimentos exotéricos, milenaristas e apocalípticos usaram-no, como também, movimentos de resistência de governos autoritários encontraram no livro a base de suas convicções. Hoje em dia, ele ainda é muito pregado em cultos neo pentecostais, principalmente textos sensacionalistas como o “sonho do rei”, “a cova dos leões”, “a fornalha ardente” e a “estátua de Nabucodonosor”. Todavia, a linguagem metafórica, a visão do mundo dualista e mítica, a concepção de um Deus violento com seus anjos guerreiros, faz com que a maioria das pessoas tenham grandes dificuldades com a sua leitura.

Mas exatamente a sua leitura polissêmica a densidade imagética com seus elementos misteriosos é que atrai um grupo de leitor, este artigo não tem a presunção de interpretar o livro, mas que o leitor entenda o contexto em que o texto foi escrito.

Para entender Daniel, precisamos primeiro, entender o que é apocaliptismo. Os apocalipses são escritos típicos de tempos difíceis. Aparecem quando o povo é dominado por uma potência estrangeira que ameaça a sua sobrevivência. Normalmente esse tipo de dominação era: política, econômica e ideológica, procurando a todo custo restringir a consciência critica do povo dominado, a fim de que este não se rebele. Essa vigilância ideológica costumava influir na cultura e na religião. Apocalipse é uma literatura de resistência, dirigida para despertar o senso critico, estimular a resistência e incentivar a luta contra o opressor.  Este gênero vinha se formando entre os judeus, à medida que os sucessivos impérios do Oriente Médio sufocavam Israel com as suas dominações. As primeiras raízes do gênero apocalíptico são encontradas nos livros dos profetas Joel 3-4, Zacarias 12-14, Isaías 24-27; 34-35; 65-66 e outros. Contudo é no profeta Ezequiel, em pleno império babilônico, que começa a recorrer extensivamente às imagens e alegorias, falando de modo a ser entendido pelos exilados, mas não pelos opressores. Dessa forma não correndo perigo na sua integridade.

O gênero literário apocalipse é, antes de tudo, um livro de ficção. Que não se entenda mal: a ficção é usada pelo autor para falar de modo cifrado de situações perigosas e de projetos ousados, que poderiam facilmente acarretar ameaças para ele próprio e para seus leitores. Usa então o recurso de escrever um livro que pode simplesmente ser entendido como ficção, mas que os destinatários saberão decifrar e aplicar à realidade. Embora diferente o livro de Daniel, é parente próximo de outros livros de ficção, como Tobias, Judite e Ester – que se referem, de outro modo, ao mesmo contexto histórico ou a contextos históricos semelhantes.[1]

É uma característica do gênero literário apocalipse, tanto do Antigo como no Novo Testamento, se utilizar vários recursos como: pseudonimia, antedatação, sonhos, visões, imagens, alegorias, simbologia, e números. O autor costuma não assinar o livro, usando o recurso de um pseudônimo, que em geral costuma ser de uma pessoa famosa do passado, como Moisés, Henoc, os patriarcas, etc. Este recurso propiciava além da proteção ao autor de ser descoberto e punido, ao mesmo tempo, dava a impressão de antiguidade e peso ao escrito.

Por isso não há como dizer quem é o autor do livro de Daniel. O livro é muito complexo, e aponta para um complicado processo de formação, basta dizer que foi escrito em três línguas diferentes: hebraico (1,1-2, 4 a; 8-12), aramaico (2,4b-7,28) e grego (3,24-90; 13-14). Há muitas contradições, p.ex: em 1,18-19 o rei Nabucodonosor conhece Daniel e seus três companheiros; já em 2,25 eles são desconhecidos para o rei.  Todos estes fatos, as diversidades de línguas e as contradições, fazem pensar que o livro surgiu graças a uma coleta e costura de várias histórias orais ou já escritas, que foram reunidas por um editor final. Entende-se que o nome Daniel é sem duvida um pseudônimo inspirado no lendário Danel citado por Ezequiel 14, 14.20, ao lado de Noé e Jó. O nome hebraico também é muito parecido Danel significa (Deus julga) e Daniel (Deus é meu juiz). Neste caso o nome vem a calhar para um apocalipse que pretende apresentar o julgamento de Deus contra o opressor.

A pista para descobrir o editor(es)  final da obra, encontra-se no mesmo livro nos capítulos 8 a 12. Seus autores mostram a preocupação em reanimar a fé e a esperança em tempos de aflição, perseguição, ameaça de morte e perda de identidade. Para isso os seus autores recorrem a profecias do passado e reelaboram narrativas de cunho sapiencial para servirem aos seus propósitos no presente.

Comparado esses capítulos com os livros dos Macabeus, escritos depois, podemos ver que se referem aos mesmos acontecimentos que vão de 175 a 163 a.C., durante a dominação do rei selêucida Antíoco IV Epifânes sobre a Judéia. Esse é o tempo real do autor-redator-editor final. É provável, porém, que as partes em grego foram acrescidas (3,24-90; 13-14) elas se encontram na LXX[2] e na Bíblia católica. O acréscimo estão no capítulo 3 os versículos 24-90 conhecido como o cântico de Azarias na fornalha, a história de Suzana (Dn 13); de Bel e o dragão (Dn 14). O conteúdo da Bíblia Hebraica (Tanakn) é o equivalente ao nosso Antigo Testamento, porém com três divisões, a saber: Torah (O Pentateuco); Os Profetas (Neviim) e os Escritos (Ketuvim). O livro de Daniel na Bíblia Hebraica não é considerado profeta e sim histórico, por esse motivo fica na sua última sessão nos Escritos.

O contexto histórico é muito importante para entendermos o momento. Jerusalém caiu sob o domínio do rei babilônico Nabucodonosor em 586 a.C., com isso o reino de Judá deixa de existir. Israel já não existia há mais de 200 anos.  A Judéia passará pela dominação de vários impérios. Primeiro o babilônio, que se estende de 586 a 539 a.C., quando Ciro vence os babilônios e transforma a Judéia em colônia Persa. Até que no ano de 333 a.C. Alexandre Magno venceu os persas e consolidou o império grego. A dominação grega se estenderá com os selêucidas e os ptolomeus  (generais de Alexandre que tomam o poder após a sua morte) até o ano de 63 a.C. quando os romanos dominam a região.  

Por vários motivos linguísticos, históricos e histórico literário, os fatos narrados no livro de Daniel não podem ter surgido no século VI a.C., por volta de 586 a.C. O livro surge somente no século II, na época helenista, mais especificamente, entre 167 e 164 a.C. durante a revolta dos Macabeus. Nessa época, o povo de Israel sofria as consequências da helenização patrocinada pelos selêucidas. A cidade santa de Jerusalém, paulatinamente estava sendo transformada numa polis grega devido a medidas drásticas do rei selêucida Antíoco IV  Epífanes (175-164 a.C.). Durante o seu reinado, no ano de 169 a.C., ele saqueia o tesouro do templo de Jerusalém para financiar suas campanhas militares e manda esmagar brutalmente uma rebelião em Jerusalém. Dois anos depois ele conquista a cidade de Jerusalém num sábado e ordena matar e escravizar boa parte da população, e substitui a elite governante.

Antíoco impõe medidas religiosas, que interferiam nas normas alimentares judaicas, na observância do sábado e na prática da circuncisão medidas que atinge todas as camadas da população. Forçava aos perseguidos o consumo de carne de porco a fim de testar a sua lealdade ao sistema. E, conforme os testemunhos bíblicos, sua maior iniquidade consistiu na colocação de um estrado sobreposto ao altar de sacrifício do templo a fim de permitir sacrifício a Zeus (Dn 11,31; 9,27 “abominação desoladora”). Com essa medida o templo foi profanado, tornando impossível ao judeu a realização de sacrifícios.

Nasce então o livro de Daniel, os grupos responsáveis pelo conteúdo (Dn 11,33) encontram-se entre os perseguidos, alguns de seus membros sofreram martírio. Eles se autodenominam Maskilin (“sábios, entendido, esclarecidos Dn 11,33) eram, portanto, círculos zelosos apoiados por grupos liberais dentro do judaísmo. Temiam perder as suas tradições e a sua identidade e, por isso, estavam dispostos a defender a sua fé mesmo sob o risco da própria vida (2 Mac 7).

Qual a proposta do(s) autor (es)?

Compilando, adaptando tradições antigas e acrescentando materiais novos, o autor procurou tomar posição diante dos acontecimentos. Cansados da longa dominação e ameaçados da perda de identidade e da extinção. Produziram um livro em linguagem cifrada, compreensível para o seu povo, a fim de estimular a resistência e incitar a luta.
O gênero apocalíptico do livro de Daniel, não permite ao leitor moderno uma leitura fundamentalista e linear dos fatos, como muitos o fazem. Os recursos literários citados acima: da pseudonimia, da antedatação, dos sonhos, das visões sempre acompanhadas de anjos, das imagens, das alegorias, entre outras, apontam para descortinar e revelar um panorama polissêmico característico dos apocalipses (veja o Ap. de João). Sua leitura é simbólica e enigmática, Jerônimo dizia que “o apocalipse tem tantos mistérios quanto palavras”. A sua estrutura é dualista, com oposições e soluções radicais, tensão continua entre bem e mal; entre tempo primordial (tempo primeiro) e tempo escatológico (tempo final); ocultamento e revelação; resistência e esperança.

Sole Deo Glori


[1] STORNIOLO, Ivo, 
[2] Septuaginta

terça-feira, 18 de abril de 2017

A Experimentação Multissensorial no Mundo do Profetismo Bíblico.

A Experimentação Multissensorial no Mundo do Profetismo Bíblico.

Por Waldemar Neves

Há poucos dias, comentei com um amigo sobre o êxtase profético manifestado pelos profetas do Antigo Testamento, e ouvi dele a frase “lá vem heresia”, falou me olhando com uma expressão de espanto.  Esse tipo de reação é normal, pois pensamos nos profetas do passado como super-homens e não como pessoas normais como eu e você. Quando lemos os textos bíblicos que narram os momentos proféticos, focamos a nossa atenção nas profecias e não nas manifestações sensoriais pela qual o profeta está vivendo naquele instante.
Este estudo irá narrar e focar essas manifestações sensoriais vivida pelo profeta no exato momento da revelação.
No centro de toda religião está a tomada do homem pela divindade. A busca pelo Sagrado caminha com a humanidade desde os seus primórdios. Esses encontros sempre foram encorajados em todas as religiões em alguma fase da sua história, com diferentes ênfases. Experiências místicas (de encontro do Sagrado com o profano), tipicamente concedidas com estado de possessão conferem aos místicos a reivindicação única e espiritual com o divino, explica Formicki.
O termo “êxtase” é polissêmico e também uma experiência comum a muitas religiões. Representa a máxima expressão do contato com a divindade.  Pela etimologia “êxtase” vem do grego ek-stasis, que sugere a ideia de “estar fora de si” ou “fora dos seus sentidos”. O dicionário Aurélio define “êxtase” como “arrebatamento do espírito, enlevo, contemplação do divino, sobrenatural, maravilhoso”. Outros o utilizam para designar violentas agitações do corpo, dança, canto, inspiração, arrebatamentos inefáveis, visões, alucinações. Embora prevaleça a indefinição do termo em suas obras, muitos parecem compreender o êxtase como o meio pelo qual a comunicação divino-humana opera. Encontramos esses fenômenos estáticos em várias fases do contexto da religiosidade judaica no período pré-exílico e pós-exilico, através de experiências proféticas. A profecia implica, de uma forma ou de outra, uma relação entre a eternidade e o tempo, um diálogo entre Deus e o homem.
Na leitura do Antigo Testamento verificamos algumas manifestações multissensoriais de fenômenos estáticos apresentado na vida de alguns profetas e/ou videntes veterotestamentários, que são usados como receptor humano por um ser sobrenatural, que irá desvendar uma realidade transcendente e também temporal, tais como: futuro, destino, reinos inimigos, resultados de guerras, consequência de guerra, aliança, etc.
         Essas fontes antigas do judaísmo e do cristianismo relatam viagens astrais, visões celestiais, visionários que sobreviveram a perigosas passagens por portais celestiais, anjos de diferentes ordens, criaturas celestes e a contemplação do mistério mais fascinante, o trono de Deus.
            No processo do êxtase profético, o profeta ao entrar em contato com o transcendente poderá entrar em transe, gerando estados alterados de consciência, segundo Wilson esse estado psico-fisiologico gera dissociação do comum, com alterações em processos de concentração, memória e julgamento; distorções de percepção de tempo, emoções; sensibilidade a sugestões. Tais manifestações multissensoriais podem ocorrer desde manifestações do sentido: visão, audição, tato, frio, medo, cheiro, paladar.
            Segundo as evidencias literárias bíblicas para o êxtase, são inúmeras as influências corporais, muitas delas perceptíveis ao público devido a análise de comportamentos estereotipados, que por sua vez resultam em reações de pânico e surdez, mudez (Is 21.3); paralisação e queda (Ez 3.22-27); dores profundas (Jr 4.19); debilitado (Dn 10.8-11); descontrole do corpo pela possessão espiritual (1Rs 22, Nm 11.6s).
Apresento uma análise sinóptica da tríade profética Jeremias, Ezequiel e Isaias, onde identificaremos quatro aspectos, a saber: a) Os órgãos do sentido ativados para recepção do oráculo; b) O local e suas nuances descritas; c) Seres que participam da cena; d) Forma de transmissão da(s) mensagem(s) solicitada(s) pela divindade.
Jr 1.4-19
Ez 1.28-3.12
Is 6.1-13
Visão, audição e tato.
Visão, audição, tato, paladar.
Visão, audição, tato, paladar, olfato.
Local desconhecido, medo, pequenez, fraqueza.
Céus, Merkavah, Babilônia, pânico, debilidade, angustia, visão celestial.
Céus, trono de Deus, Sanctus, Templo, medo, pequenez, impureza, perdão, tremor.
YHWH
YHWH, 4 seres viventes com 4 faces e 4 asas.
YHWH, serafins e querubins.
Oral, imperativa “te enviarei, irás”, “te mandar, falarás”; autoridade para “arrancares”, “destruíres”, “derrubares”.
Oral, imperativa “Eu vos envio”.
Oral, questionamento “A quem enviarei”, voluntariado “Eis me aqui”, imperativa “vai e dize”

Nos exemplos acima, notamos que todos têm consciência de terem sido chamados, apresentaram manifestações multissensoriais dos sentidos, bem como expressaram exemplos suficientes da excitação de consciência o que caracteriza um êxtase profético em face de manifestação do altíssimo. Todavia, apesar da experiência intensiva que envolveu cada um deles, notamos que as experiências não foram unio mystica. O que torna a profecia extática e o êxtase profético polissêmico, tornando assim impar e individual cada um dos chamados. André, explica que "uma experiência intensiva que envolve totalmente o indivíduo, um estado psíquico caracterizado pelo fato de que a pessoa está muito menos aberta a estímulos externos do que em um estado normal”. Formicki, explica que “experiências místicas (de encontro do Sagrado com o profano), tipicamente concedidas com estado de possessão conferem aos místicos a reivindicação única de espiritual com o divino”. E, Wilson que “no processo do êxtase profético, o profeta ao entrar em contato com o transcendente poderá entrar em transe, gerando estados alterados de consciência, esse estado psico-fisiológico gera dissociação do comum, com alterações em processos de concentração, memória e julgamento; distorções de percepção de tempo, emoções; sensibilidade a sugestões”. Tais manifestações multissensoriais podem ocorrer desde manifestações do sentido: visão, audição, tato, frio, medo, cheiro, paladar. Segundo esses especialistas as manifestações são experiências místicas únicas, individuais e que podem ou não entrar em transe.
Comparativamente notamos que há um aumento de intensidade entre as experiências proféticas de cada um deles, mas numa analise macro elas se completam. Seria presunçoso de minha parte citar que, Deus se revela gradativamente em Sua glória. O que torna cada comissionamento ímpar.
Nos textos bíblicos, os três são chamados e comissionados para a função profética, todos os textos apresentam alterações multissensoriais de sentidos. Todos apresentam psico-fisiologico, como: medo, pequenez, angustia, tremor; sendo que Ezequiel demonstra também amargura e debilidade e Isaias sente-se impuro e perdoado diante do Altíssimo. Há unidade no chamado, é YHWH quem os comissiona de forma imperativa “vai”.  Nas nuances descritas, temos variações entre os chamados, Jeremias tem uma mistura de visão e audição e sente YHWH tocar na sua boca. Ezequiel vê os céus abertos e visões de Deus e do trono (Merkavah), acompanhado na visão de 4 seres viventes com 4 faces e 4 asas, mas ele vê a YHWM de uma maneira vaga “vê uma nuvem flamejante saindo do norte, e é cercada por brilho e no meio do fogo há algo como bronze reluzente”, como se tivesse a forma humana. O que é suficiente para se debilitar e cair sobre seu rosto. Isaias tem uma visão celestial, ele vê YHWH “assentado sobre um alto e sublime trono, e a cauda do seu manto enchia o templo” sendo servido por Serafins que recitavam o “Santo” e dois querubins alados.
Notamos no estudo acima, que apesar de cada um dos profetas terem manifestações sensoriais e êxtase diferenciado, impar e individual. Os textos bíblicos não apresentam variações que justifique que o grau de revelação alterou ou diferenciou a vocação e a importância de cada um deles como profetas no Antigo Testamento. Podemos concluir que Deus opera do seu jeito na sua multi sabedoria, e este fato nos anima e nos vocaciona para a sua obra.

Bibliografias
ANDRÉ, G. “Ecstatic prophecy in the Old Testament”. In: Scripta Instituti Donneriani Aboensis, [S.l.], v. 11, p. 187-200, 2014 [1982].
FORMICKI, Leandro. A Profecia e a Glossolalia como fenômenos Extáticos, REFLEXUS – Ano IX, nr.14, 2015/2, p.368.
WILSON, R. R.. Prophecy and Society in Ancient Israel. Philadelphia: Fortress, 1984 [e-book]


sexta-feira, 26 de agosto de 2016

FOI, OU NÃO FOI, MOISÉS?

Passados quase dois milênios desde o cânon da Bíblia hebraica (Concílio de Jâmnia em 100 d.C.), conhecida como Tanakh para os judeus e como Antigo Testamento por nós, os cristãos, ainda persiste em nosso meio algumas dúvidas e tabús, e um deles é, quem realmente escreveu os primeiros livros do Antigo Testamento. Foi, ou não foi, Moisés?

Filkenstein e Silberman em seu livro a Bíblia desenterrada (p.14) diz que durante séculos, os leitores da Bíblia consideraram que as escrituras eram igualmente revelação divina e uma história exata transmitida por Deus para uma ampla variedade de sábios, profetas e sacerdotes israelitas. Autoridades religiosas constituídas, judaicas e cristãs, assumiram que os livros de Moisés haviam sido escritos pelo próprio Moisés antes de sua morte no monte Nebo, como narrado no livro do Deuteronômio. Os livros de Josué, dos Juízes e 1 e 2 Samuel eram, do mesmo modo, considerados registros sagrados pelo venerável profeta Samuel em Siló, e os livros de 1 e 2 Reis eram vistos como produto da pena o profeta Jeremias. Da mesma maneira, acreditava-se que o rei Davi era o autor de Salmos, e o rei Salomão, dos Provérbios e o livro de Cânticos dos Cânticos. Todavia, no despertar da era moderna, no século XVII, os eruditos que se dedicavam ao estudo literário e linguístico detalhado da Bíblia descobriram que não era assim tão simples; o poder da lógica e da razão, aplicado ao texto das sagradas escrituras, levantou questões muito problemáticas sobre a credibilidade histórica da Bíblia.

Com o passar do tempo e a quebra do paradigma do monopólio bíblico por parte da igreja, durante quinze séculos, vários estudiosos a partir do século XVII até o século XIX, intensificaram estudos críticos da Bíblia e começaram a se questionar sobre a autenticidade desses autógrafos e de várias incongruências dos textos bíblicos. A análise da evidência arqueológica atestou que não existe nenhum sinal de extensa alfabetização em Judá – e em particular em Jerusalém – até mais de dois séculos e meio mais tarde, no final do século VIII a.C. Como sabemos que a saga de Moisés dá-se no século XII a.C. e o reinado davídico e salomônico no século X a.C., ou seja, a escrita chega em Judá/Jerusalém quase 250 anos depois de Davi e 400 a 450 anos depois de Moisés.
Filkenstein comenta que “poderia Moisés realmente ter sido o autor dos cinco livros, já que o último deles, o Deuteronômio, descrevia em detalhes a hora precisa e as circunstancia de sua própria morte.” Logo, essa e outras incongruências começaram a ficar aparentes: o texto bíblico era repleto de apartes literários, explicando os antigos nomes de certos lugares e, frequentemente, observando que as evidências de célebres acontecimentos bíblicos ainda eram visíveis “até hoje”. Esses fatores convenceram alguns eruditos do século XVIII de que os primeiros cinco livros da Bíblia, pelo menos, haviam sido modelados, desenvolvidos e ornamentados por antigos editores anônimos e por revisores, através dos séculos.

No final do século XVIII, e mais ainda no século XIX, muitos estudiosos críticos da Bíblia passaram a duvidar de que Moisés tivesse escrito qualquer texto das escrituras; começaram a acreditar que a Bíblia era exclusivamente obra de escritores extemporâneos. Esses estudiosos observaram que o que pareciam ser as diferentes versões das mesmas histórias dentro dos livros do Pentateuco, sugerindo que o texto bíblico era produto de muitas mãos reconhecíveis. Uma leitura cuidadosa do Genesis, por exemplo, revelou duas versões conflitantes da criação (1, 1-2,3; 2,4-25), duas genealogias bem diferentes dos descendentes de Adão (4,17-26; 5, 1-28), e duas histórias emendadas e reagrupadas sobre o dilúvio (6,5; 9,17). Além disso, havia dúzias de duplicatas, ou mesmo triplicatas, dos mesmos eventos nas narrativas da peregrinação dos patriarcas, do êxodo do Egito e da entrega das tábuas da lei. (Filkenstein, p24)

Richard Elliod Friedman, observou no seu livro Who wrote the Bible (Quem escreveu a Bíblia) editado no século XIX, que as duplicações que ocorreram originalmente no Gênesis, Êxodo e nos Números não eram variações arbitrárias ou reprodução das mesmas histórias. Elas mantinham certas características identificáveis, de imediato, no que se refere à terminologia e ao foco geográfico.  

Desta maneira, um conjunto de histórias usou consistentemente o tetragrama – o nome de quatro letras YHVH (Yahweh) – no curso da sua narração, é o que aconteceu no território e na tribo do Judá.  O outro conjunto de histórias, dos territórios do norte do país – Efrain, Manasés e Benjamim principalmente – usou o nome de Elohim ou El para Deus.
Com o passar do tempo, os especialistas começaram a concluir que diversas fontes distintas, de características geográficas escreveram os primeiros cinco livros da Bíblia, tal como agora são conhecidos, eram o resultado de um complexo processo editorial, no qual os documentos das quatro fontes principais – J (javista), E (elohista), P (sacerdotal [priesty, em inglês]) e D (deuteronomista) -  foram compilados com habilidade e editados por escribas compiladores.

Todavia nas últimas décadas, com a leitura histórico-crítica e avanços notáveis na arqueologia das terras bíblicas, muitos insistem que os primeiros livros do Antigo Testamento (Gn, Ex, Nm, Lv, Dt, Js, Jz, 1 e 2 Sm e 1 e 2 Rs) são composições tardias, coletadas e editadas por sacerdotes e escribas durante o exílio na Babilônia e a restauração (nos séculos VI eV a.C.), ou mais tarde, durante o período helenístico (século IV e II a.C.). Ainda assim, todos concordam que o Pentateuco não é composição única e sem costuras, mas uma colcha de retalhos de fontes variadas, cada uma escrita sob diferente circunstância históricas, para expressar diferentes pontos de vista religioso e político.



Fonte:

FILKENSTEIN, Israel e SILBERMAN, Neil Ascher, The Bible Unearthed: Archaeology's New Vision of Ancient Israel and the Origin of Its Sacred Texts. Free Press, 2001.


FRIEDMAN, Richard Elliod, Who wrote the Bible. Summit Books, 1987.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

O POLITEÍSMO DE ISRAEL E JUDÁ

Judá pré exílico nunca abandonou a prática politeísta. Quanto ao Deus cultuado nesse período, é uma questão um tanto complexa. De modo geral, não havia culto a um único Deus. As escavações arqueológicas têm mostrado que, no cotidiano o povo de Israel, se prestava culto a vários deuses e deusas, com preferência aos deuses da fertilidade, como Baal e suas consortes Aserá e Astarte. Aliás, na raiz do nome Israel se encontra a forma El, o Deus supremo do panteão ugarítico (Sl 82) que tinha como maior atributo ser o Deus criador. 

O culto a El era muito forte em Canaã, tanto que Israel herdou o seu nome. Ou seja, no princípio o Deus de Israel era El e só mais tarde passou a ser Javé. Se Israel fosse javista desde o princípio, provalmente o seu nome teria como raiz o vocábulo JAH ou YAH, assim como muitos nomes em Israel: Isaias, Jeremias, Ezequias, etc. Mesmo quando Israel se tornou javista, o culto a El continuava vivo no interior do território israelita, assim como o culto a Baal, Aserá, Astarte, etc., tanto que aparece constantemente nos relatos bíblicos. Nossas Bíblias costumam traduzir El por “Deus”, por isso não nos damos conta do constante uso desse nome. No entanto, basta prestar atenção a todas as vezes que em nossas Bíblias aparece a palavra “Deus”; é quase certo que se trata de El; da mesma forma, quando aparece o nome “Senhor”, é seguro que se refira a Javé.

Enfim, o que se pode concluir é que Israel, por volta do século X a.C., Javé era um Deus entre outros. No entanto, é bem provável que por volta do início do século IX a.C., o culto a Javé já era predominante em Israel. Uma prova contundente, como se verá mais adiante, é o testemunho da estela de Mesa, também conhecida como estela moabita, que foi edificada pelo rei Mesa de Moab, por volta de 840 a.C. Nela Javé é mencionado como o Deus nacional de Israel, que impõe seu domínio sobre os moabitas. Porém, Javé não é cultuado como Deus único, teologia que será imposta somente mais tarde em Judá. Nesse período, Javé é cultuado junto com outros deuses, e isso não apenas em Israel, mas também em Judá. Temos alguns exemplos, como o templo de Javé no século VIII escavado em Arad, no sul de Judá, junto a Nahal Beersheba. Nesse templo, construído em continuidade com os lugares altos, com as eiras ou bamot, onde aconteciam os ritos de fertilidade, foram encontradas duas estelas (massebot). As estelas estavam fixadas no santo dos santos. A maior, que representava a divindade masculina (não se sabe se era Javé ou Baal), media 90 cm. A outra era um pouco menor e certamente representava uma divindade feminina (talvez Asherá). A maior era falida, tinha a parte superior arredondada e estava pintada de vermelho. À frente de cada estela havia um pequeno altar de insenso. O nicho de Arad com as estelas se encontra atualmente no museu de Jerusalém; portanto, uma prova contundente da forte presença, em tempos tardios, de cultos da fertilidade no interior de Judá e da influência que estes exerceram sobre o javismo.

Outro exemplo de culto primitivo a Javé foi encontrada no sítio arqueológico de Kuntillet ‘Ajrud, ao noroeste da península do Sinai, a 50 km de Cades Barnea, junto à rota que leva a Gaza. Ali foram escavados vários fragmentos de cerâmica com inscrições e desenhos que fazem referência a Samaria e que datam da primeira metade do século VIII – portanto, do reinado de Jeroboão II (788-747). Em um dos fragmentos encontrados está escrito em hebraico antigo uma benção que diz; “[..] a benção de Javé de Samaria e sua Aserá”. Javé está representado num desenho em forma de touro com a genitália em destaque. Ao lado está outro desenho representando Aserá. Portanto, além do culto a Javé ao lado de outros deuses, há nessa inscrição um testemunho da extensão do domínio de Israel, com sua capital Samaria, até o sul de Judá. Complementa essa informação um desenho, no muro da entrada da construção principal do sítio, que aparenta tratar-se de um rei sentado no trono real. Uma vez confirmado e reconfirmado que essas construções são da primeira metade do século VIII, pode-se concluir que se trata do reinado de Jeroboão II (788-747).

O mais impressionante dos achados de Kuntillet ‘Arjud, que ainda não foram totalmente decifrados, é que temos aqui uma forma primitiva do culto a Javé. Primeiramente, Javé é identificado com Samaria, ou seja, é possível que em Samaria houvesse uma forma própria de culto a Javé. Temos um caso semelhante em outra inscrição que identifica javé com Temã, assim como temos, em algumas passagens bíblicas, o Javé de Farã ou de Edon (Dt 33,2; Hb 3,3; Jz 5,4), numa provável referência ao Javé da região desértica, do sul de Judá e Edon. Os textos mencionados parecem se referir a Javé como um Deus em movimento, similar ao Sol, de leste a oeste.
Em segundo lugar, Javé é representado em forma de touro, forma que algumas vezes também é atribuída a Baal, caracterizando a força e a fertilidade, e que em algumas passagens “obscuras” aparece como uma forte condenação do culto praticado em Samaria.

Para maiores informações sobre o politeísmo em Israel leia neste blog: http://prwneves.blogspot.com.br/2015/05/do-politeismo-ao-monoteismo-saga-de-um.html, publicado em Maio/2015.

Pr Waldemar Neves – Pastor e Teólogo

Bibliografia:
KAEFER, José Ademar, A BÍBLIA, A ARQUEOLOGIA E A HISTORIA DE ISRAEL E JUDÁ, Paulus, 2015, p. 61-63.


quinta-feira, 18 de agosto de 2016

O CONFLITO ENTRE A IMORALIDADE X IGREJA, 1 Co 5, 1-5

O conflito entre a imoralidade x Igreja, repercute em nossas vidas e é palco de discussão na mídia televisiva. O apóstolo Paulo em sua carta aos Coríntios, sob a ação do Espírito Santo, nos orienta como proceder quando tal fato bater em nossas comunidades. Vejamos:

Em 1 Coríntios 5, Paulo afirma uma política de tolerância zero sobre a imoralidade na igreja. Para ele, não há razão para uma pessoa que está cometendo abertamente a imoralidade em continuar na comunhão com os crentes. Neste caso, a igreja se vangloriava sobre sua própria espiritualidade, embora esse homem imoral fizesse parte dela.

Este episódio é um muito sério: Paulo invoca a autoridade de Jesus Cristo (tanto o nome e com o poder), bem como sua própria autoridade (duas vezes), e ele descreve o pecado como semelhante ao fermento que cresce na massa do pão. O perigo é tão grande que Paulo recomenda a igreja o afastamento do homem pecador!

O pecado comemorado pela igreja de Corinto foi chocante (5: 1-2). Este comportamento sexual era uma ofensa punível até pela lei romana. Mas, as leis romanas não foram administradas com imparcialidade. Aqueles que eram ricos e poderosos foram capazes de evitar a pena. Este é um caso em curso, que é conhecido pela igreja e pela comunidade de Coríntios. 

Os romanos teriam ignorado se uma mulher mais velha tivesse um caso extraconjugal com um homem mais jovem. Apesar de ser contra a lei, em alguns círculos era esperado. Mas um relacionamento com sua madrasta era ilegal tanto na lei romana e como no judaísmo (Levítico 18: 7-8, 20:11; Dt 22:30). Na Mishná, há uma lista de várias categorias de crime sexual que é mérito de apedrejamento: Aquele que tem relações sexuais com (1) a sua mãe, (2) com a mulher de seu pai, (3) com sua filha-de-lei, (4) com um macho, e (5) com uma vaca; e a mulher que traz um boi em cima de si mesma.
Institutos de Gaius data de meados do século segundo, cerca de 100 anos depois que Paulo escreve. Em 1,63 Caio afirma: "Além disso, eu não posso casar com a minha ex-mãe-de-lei ou filha-de-lei, ou a minha enteada ou madrasta. Fazemos uso da palavra 'ex', porque se o casamento pelo qual a afinidade desse tipo foi estabelecida ainda existe, há uma outra razão pela qual eu não posso me casar com ela, uma mulher não pode casar-se com dois homens, nem pode um homem ter duas esposas. "à combinação particular de coisas nessa situação era um adultério e incesto, há provavelmente teria sido nenhuma clemência ao abrigo da lei, tanto o homem e a mulher teria enfrentado exilado e desistência de todos os bens.

Vejamos a perícope, 1 Co 5, 1-5.

Por toda parte se ouve que há imoralidade entre vocês, imoralidade que não ocorre nem entre os pagãos, a ponto de alguém de vocês possuir a mulher de seu pai.
E vocês estão orgulhosos! Não deviam, porém, estar cheios de tristeza e expulsar da comunhão aquele que fez isso? Apesar de eu não estar presente fisicamente, estou com vocês em espírito. E já condenei aquele que fez isso, como se estivesse presente.
Quando vocês estiverem reunidos em nome de nosso Senhor Jesus, estando eu com vocês em espírito, estando presente também o poder de nosso Senhor Jesus Cristo, entreguem esse homem a Satanás, para que o corpo seja destruído, e seu espírito seja salvo no dia do Senhor
”.  Versão NVI.

Nesta perícope o apóstolo Paulo, usa a palavra “πορνεία” (gr) porneia, imoralidade sexual, termo que se refere a todos os tipos de atividade sexual extraconjugal, incluindo fornicação, prostituição, aberrações, homossexualidade, especialmente as relações sexuais com um parceiro proibido.

Neste capítulo, Paulo lidou com um pecado em Corinto que realmente o chocou. A imoralidade sexual tinha ocorrido na igreja e eles não estavam arrependidos e se mostravam orgulhosos no fato de que o incesto estava ocorrendo entre eles.

Vs. 1 “Por toda parte se ouve que há imoralidade entre vocês, imoralidade que não ocorre nem entre os pagãos, a ponto de alguém de vocês possuir a mulher de seu pai”.

Paulo demonstra seu espanto pela situação que ele estava prestes a abordar. O escândalo havia extrapolado as paredes da igreja de Coríntios, era motivo de comentários entre os crentes e de escárnios entre os descrentes. O idioma original desta passagem transmite a ideia de que a notícia o havia chocado e horrorizado. Ele ficou chocado ao ouvir que a igreja tolerara a imoralidade sexual, fato que até para os padrões dos pagãos eram moralmente repulsivos, ou seja, um homem ter a mulher de seu pai. No contexto de imoralidade sexual, o verbo “possuir” no sentido de "ter" (ἔχειν (gr) eichem) que é um eufemismo, que não se referia a relações sexuais ocasionais, mas para um relacionamento sexual continuo, duradouro. O homem pode realmente ter vivido com a mulher de seu pai como se fosse sua própria esposa.  Paulo descreveu a mulher não como “mãe” desse homem, mas como mulher de seu pai. Esta terminologia “mulher de seu pai” provavelmente identifica como madrasta do homem ao invés de sua mãe biológica. Paulo não indica se o pai desse homem ainda vivia, mas se o pai estivesse vivo a imoralidade se tornaria mais grave. Por isso, o uso da palavra “porneia” em vez de “moicheia” (adultério), portanto, não se tratava de adultério. (ver Lev. 18: 8; 20:11; Dt.22:30; 27:20).

Vs. 2 “E vocês estão orgulhosos! Não deviam, porém, estar cheios de tristeza e expulsar da comunhão aquele que fez isso?”

O espanto de Paulo se traduz nas suas palavras “E vocês estão orgulhosos” demostra que a atitude dos membros da Igreja de Coríntios sobre essa situação foi ainda pior do que o próprio pecado, ao invés de disciplinar o infrator eles se orgulhavam dele. Talvez a liderança, por omissão ou acomodação, achasse que essa imoralidade estava dentro dos limites da liberdade cristã, tornando deste modo a imoralidade sem importância. Mas Paulo os repreende dizendo “Não deviam, porém, estar cheios de tristeza”, pois o pecado e a transgressão aos preceitos divinos devem gerar no crente a indignação e a vergonha.

Todavia, a demonstração de tolerância dos corintos, que provavelmente diziam para sí mesmos, “olha como somos amorosos, aceitamos este irmão assim como ele é, vejam como temos nossa mente aberta” ou, ainda, “quem não tiver pecado que atire a primeira pedra” apresentava uma liderança frouxa e descompromissada com Deus e os seus mandamentos. Desta maneira, os corintos se orgulhavam da sua complacência e achavam que estavam praticando o bem para com este homem.

Mas o apóstolo Paulo os reprova e abomina essa tolerância e insiste em “expulsar da comunhão aquele que fez isso”, afastar da comunhão, pois tal abominação pode contaminar toda a comunidade e nivelar a igreja a níveis mundanos, e ele, Paulo diz no vers. 6 “O orgulho de vocês não é bom. Vocês não sabem que um pouco de fermento faz toda a massa ficar fermentada?”,ou seja, na analogia paulina, o fermento símbolo do pecado pode contaminar todo a emergente igreja de Coríntios. Lembre-se que Coríntios era uma cidade notória por imoralidade sexual, e as religiões pagãs não valorizam a pureza sexual. Tal ato poderia ser interpretado pelos pagãos como normal nos seus instintos religiosos e sociais e uma continuidade nas suas imoralidades.
Paulo desejava que seus leitores experimentassem a indignação sobre o pecado de seus companheiros, porque a imoralidade era destrutiva, tanto para o pecador como para a igreja. Paulo também exigiu que a ação corretiva adequada, a excomunhão foi a resposta única e adequada para tal pecado grave (no AT tal pecado era punível com a morte dos pecadores [Lev. 20:11] e o exílio de toda a nação da terra [Lev. 18:28]).

Ver.3 “Apesar de eu não estar presente fisicamente, estou com vocês em espírito. E já condenei aquele que fez isso, como se estivesse presente”.

Paulo tinha falado mais cedo sobre não julgar os outros (1 Co 4:5).  Esse tipo de julgamento tinha a ver com o grau de fidelidade ao Senhor. Aqui, a questão foi imoralidade flagrante. O caso era tão claro que ele não precisava estar presente para conhecer que o homem era culpado de um delito grave que necessitou de tratamento forte.

As palavras de Paulo podem soar duro aos nossos ouvidos modernos (todavia compare 2 Ts 3, 6, 14-15; 1 Tm 5,20), eles estão na mesma linha com os ensinamentos de Jesus (Mt 18, 15-17).  Além disso, Paulo demonstrou uma visão equilibrada em outras epístolas (2 Co 2: 6-8; Gl 6: 1; Ef 4:32; Cl 3:13; 2 Ts. 3:15). Em 2 Co 2: 6-8, por exemplo, ele corrige fortemente a recusa implacável da igreja para restaurar um irmão arrependido. Não sabemos qual distancia naquele momento o apóstolo estava de Coríntios, mas seja qual for a distância, o verdadeiro cristão, compromissado com Deus e com a sua palavra, deve sempre reagir contra o mal e o pecado, mesmo cortando em sua própria carne.

Vers. 4- Quando vocês estiverem reunidos em nome de nosso Senhor Jesus, estando eu com vocês em espírito, estando presente também o poder de nosso Senhor Jesus Cristo,

O apóstolo queria que os crentes vissem a sua decisão como a vontade do Senhor. Ele assegurou-lhes que Deus iria guardá-los com o Seu poder após eles impostor a disciplina. A frase "em nome do Senhor Jesus" provavelmente modifica "Eu decidi entregar esse homem a Satanás para destruição da carne" (1 Co 5: 5). [Nota: Ver Fee, The First, p206-8, para apoiar argumentos.] Na passagem seguinte julgamento Paulo estava agindo em nome de Jesus e com a sua autoridade.

Em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, por Sua autoridade e como representação de Sua pessoa e vontade (2Co 2:10). Junte-se a isso com "para entregar um a Satanás" (1Co 5: 5). A cláusula: "Quando vos foram reunidos e meu espírito (em que eu sou 'presente', embora 'ausente no corpo," 1 Coríntios 5: 3), com o poder de nosso Senhor Jesus ", está em um entre parêntese. Paulo fala de si mesmo usa a palavra "espírito"; de Cristo. O poder de Cristo foi prometido para estar presente com a Sua Igreja “reunidos em seu nome” (Mt 18: 18-20; e aqui Paulo por inspiração dá uma promessa especial de seu espirito apostólico, que em tais casos foi guiado pelo Espirito Santo, ratificando seu decreto aprovado de acordo com o seu julgamento (“Eu tenho julgado”, 1 Co 5,3), como se ele estivesse presente em pessoa (Jo 20:21-23; 2Co 13, 3-10). Este poder de julgamento infalível foi limitado aos apóstolos; pois só eles tinham o poder de fazer milagres como suas credenciais para atestar a sua infalibilidade. Seus sucessores, para estabelecer sua reivindicação a este último. Mesmo os apóstolos em casos comuns, e onde não especificamente e conscientemente inspirado, foram falíveis (TGl 2: 11-14).

Vers. 5 “entreguem esse homem a Satanás, para que o corpo seja destruído, e seu espírito seja salvo no dia do Senhor

Paulo havia determinado para entregar o homem a Satanás para (ὄλεθρον (gr) olethron) destruição da (σαρκός (gr) sarkos) carne/corpo. Provavelmente, Paulo recomendava que ele tinha que ser entregue para o mundo, controlado por Satanás, com a permissão de Deus, para seu castigo corporal que pode até resultar em sua morte prematura. [Nota: H. Conzelmann, 1 Coríntios: um comentário sobre Primeira Epístola aos Coríntios, p97; SM Gilmour,"Pastoral na Igreja do Novo Testamento," Novo Testamento estudos10 (1963-1964): 395; JC Hurd Jeremiah, a Origem de I Coríntios, P137, P286, n5; GWH Lampe, "Igreja Disciplina e a interpretação das Epístolas aos Coríntios," em História e Interpretação cristã: os estudos apresentados ao John Knox, pp349, 353; Morris, pp88-89; Johnson, p1237, e Bruce, pp54-55]. Este foi o resultado da relação de Pedro com Ananias e Safira, embora o texto não diz ele os entregou a Satanás para a destruição de sua carne. Deus estava trazendo a morte prematura. Não temos nenhum registro de que este homem morreu prematuramente

Uma variação deste ponto de vista é que a entrega a Satanás, resultaria em uma doença física, mas não a morte. [Nota: William Barclay, com que autoridade? p118; M. Dods, A Primeira Epístola aos Coríntios, p118; H. Olshausen, Comentário Bíblico em St. Paul "s Primeira e Segunda Epístolas aos Coríntios, p90; H. Ridderbos, Paul: Um esboço de sua teologia, P471; WGH Simon, A Primeira Epístola aos Coríntios: introdução e comentários, p78;. e ME Thrall, a Primeira e a Segunda Carta de Paulo aos Coríntios, p40] no entanto, o termo "a destruição da carne" parece implicar a morte ao invés de simplesmente doença.

A terceira interpretação entende o termo "carne" metaforicamente como referindo-se à destruição do homem da natureza pecaminosa. [Nota: FW Grosheide, Commentary no primeiro Epístolas aos Coríntios, P123; RCH Lenski, A Interpretação dos St. Paul" s Primeira e segunda Epístolas aos Coríntios, P217; JJ Lias, A Primeira Epístola aos Coríntios, p67; e G. Campbell Morgan, cartas aos Coríntios de Paulo, P83.] A destruição da carne, neste caso, refere-se à mortificação dos desejos da carne. No entanto, parece incomum que Paulo iria entregar o homem a Satanás para esta finalidade. É difícil ver como entregar uma pessoa a Satanás seria purificá-lo.

Em 1 Coríntios 5.1-13, o apóstolo Paulo pede que a congregação de Corinto expulse de seu meio um pecador manifesto e impenitente e recomenda que ele seja entregue a Satanás para a destruição da carne, a fim de que o espírito seja salvo no dia de Senhor. Não será esta uma disciplina diferente da que é prescrita em Mateus 18.15-17?

No texto em questão, o apóstolo Paulo está tratando do caso especifico de um homem que, na congregação de Corinto, se “atrevia a possuir a mulher do seu próprio pai”, ou seja, a sua madrasta. Tal imoralidade, também mencionada em Deuteronômio 22.30, não vinha sendo castigada pela congregação de Corinto. Isso é alvo da crítica por parte do apóstolo Paulo, ao mesmo tempo em que ele sentencia que “o autor de tal infâmia seja, em nome do Senhor Jesus” e “com o poder de Jesus”, “entregue a Satanás para a destruição da carne, a fim de que o espírito seja salvo no dia do Senhor” (versículos 3, 4 e 5). Veja-se bem: não obstante a infâmia cometida na congregação de Corinto e a drasticidade da medida sentenciada pelo apóstolo Paulo, não se perde de vista a salvação da alma do pecador, o que mostra ser esta moralidade igual à de Mateus 18. Mas, como entender as palavras “seja entregue a Satanás para destruição da carne”? 

A primeira idéia que se tem é que o corpo do pecador morra nas mãos de Satanás para que a sua alma seja salva. Mas não é isso, pois não pode haver salvação da alma, sem que o corpo também seja salvo. Ou, como seria na ressurreição? Sua alma estaria no céu, e o corpo no inferno? Não pode haver salvação para quem morre nas mãos do diabo. Por isso, não é a morte do corpo do pecador que está sendo desejado com essa expressão, mas de sua carne, da pecaminosidade que o domina. Paulo deseja que esse pecador seja retirado de sob o poder de Cristo para que exerça o seu poder sobre ele e o aflija no corpo, fazendo-o sentir, já nesta vida, um prelúdio do inferno, a fim de que isso o leve ao arrependimento e à vida. Vemos, assim, que esta não é uma disciplina diferente da de Mateus 18. A excepcionalidade do pecado referido no texto de 1 Coríntios levou o apóstolo Paulo à expressão de uma linguagem excepcional que não aparece novamente em nenhum outro texto bíblico. Mas o sentido da disciplina eclesiástica normalmente praticada é preservado por Paulo nesse texto: atingir a salvação do pecador.

Conclusão:

Como cristãos pensamos na responsabilidade de excluir uma pessoa da comunhão da igreja, e até nos perguntamos; como eles poderiam entregar esse homem a Satanás? Colocando-o fora da igreja, para o mundo, que é domínio do diabo. Todavia, a punição é a remoção da proteção e conforto espiritual social, e não uma imposição do mal. O comando de Paulo também serviu o propósito de remover a falsa sensação de segurança do pecador em permanecer na comunhão dos santos. Eles não podiam simplesmente ignorar seu pecado e permanecer na imoralidade. A resposta da Igreja é de enfrentamento do mal, neste caso o homem, foi neste momento entregue aos pecados da carne. Paulo diz que ele será entregue as consequências pecaminosas de sua carne, e a esperança é que ao mergulhar nos resultados de seu pecado, o impulso pecaminoso da carne seja especificamente destruído. Alguns chamam isso de "excomunhão" ou "desassociação" de uma pessoa. A instrução paulina é o afastamento da comunhão até o arrependimento e a conversão, ou no caso de um obreiro, o afastamento completo dos trabalhos até a total correção e conserto.

Apesar que, na cultura da igreja de hoje, isso raramente traz um pecador ao arrependimento, porque eles podem facilmente ir para outra igreja e fingir que nada aconteceu na antiga. Ou, é fácil para eles se julgar a si mesmo de vítima, e agir como se a sua antiga igreja foi cruel para com eles. Embora seja verdade que algumas igrejas têm sido cruéis para com os seus membros, isso não significa que a igreja nunca deve praticar os princípios bíblicos que Paulo ensina aqui. O que dever ser feito, tanto para o bem da Igreja e para o bem do pecador.

Precisamos ter em mente que a Igreja é a noiva de Cristo e não pode ser maculada, fica como ensino a parábola de Jesus que o fermento em pequena quantidade pode levedar toda a massa (Mt 13.33). George Whitefield escreve “Lembrem-se do pobre publicano, de como ele achou favor em Deus, ao passo que o fariseu orgulhoso e presunçoso, inchado com sua própria justiça, foi rejeitado. E se vocês forem a Jesus como o pobre publicano fez, com um sentimento da indignidade própria, vocês acharão favor como ele achou; há bastante virtude no sangue de Jesus para perdoar os maiores pecadores. Então não fiquem desa­nimados, mas busquem a Jesus, e vocês o acharão pronto a ajudar em toda a sua aflição, para conduzi-los em toda a verdade, para trazê-los da escuridão para a luz e do poder de Satanás a Deus.”

Mas não temamos, pois é frequente Deus receber o maior peca­dor à misericórdia pelos méritos de Cristo Jesus. Isto faz parte da sua graça generosa; e deveria ser um incentivo a nós, que somos grandes e notórios pecadores, para que nos arrependamos, pois Ele terá misericórdia de nós, se nos voltarmos para Ele por Cristo.

Que isto nos desperte para os nossos pecados, levando-nos a implorar o perdão de Deus, e deste modo encontrar a miseri­córdia do Senhor.


Waldemar Neves – Pastor e Teólogo.