E levantou-se, e foi; e eis que um homem etíope,
eunuco, mordomo-mor de Candace, rainha dos etíopes, o qual era superintendente
de todos os seus tesouros, e tinha ido a Jerusalém para adoração. Regressava e,
assentado no seu carro, lia o profeta Isaías.E disse o Espírito a Filipe: Chega-te, e ajunta-te a esse carro. E, correndo Filipe, ouviu que lia o profeta Isaías, e disse: Entente tu o que lês? E ele disse: Como poderei entender, se alguém não me ensinar? E rogou a Filipe que subisse e com ele se assentasse. Atos 8: 27-31
Daniel, autor,
texto e contexto.
O livro de
Daniel é uma literatura apocalíptica no Antigo Testamento, carregado de uma
densidade imagética e metafórica que fascinam seus leitores e que se mal compreendidas
ou tomadas literalmente, podem levar às mais fantásticas fabulações, sem nenhum
fundamento na realidade. Durante a sua
história ele teve várias interpretações, não apenas os movimentos exotéricos,
milenaristas e apocalípticos usaram-no, como também, movimentos de resistência
de governos autoritários encontraram no livro a base de suas convicções. Hoje
em dia, ele ainda é muito pregado em cultos neo pentecostais, principalmente
textos sensacionalistas como o “sonho do rei”, “a cova dos leões”, “a fornalha
ardente” e a “estátua de Nabucodonosor”. Todavia, a linguagem metafórica, a
visão do mundo dualista e mítica, a concepção de um Deus violento com seus
anjos guerreiros, faz com que a maioria das pessoas tenham grandes dificuldades
com a sua leitura.
Mas exatamente a sua leitura polissêmica a
densidade imagética com seus elementos misteriosos é que atrai um grupo de
leitor, este artigo não tem a presunção de interpretar o livro, mas que o
leitor entenda o contexto em que o texto foi escrito.
Para entender
Daniel, precisamos primeiro, entender o que é apocaliptismo. Os apocalipses são
escritos típicos de tempos difíceis. Aparecem quando o povo é dominado por uma
potência estrangeira que ameaça a sua sobrevivência. Normalmente esse tipo de
dominação era: política, econômica e ideológica, procurando a todo custo
restringir a consciência critica do povo dominado, a fim de que este não se
rebele. Essa vigilância ideológica costumava influir na cultura e na religião. Apocalipse
é uma literatura de resistência, dirigida para despertar o senso critico,
estimular a resistência e incentivar a luta contra o opressor. Este gênero vinha se formando entre os judeus,
à medida que os sucessivos impérios do Oriente Médio sufocavam Israel com as
suas dominações. As primeiras raízes do gênero apocalíptico são encontradas nos
livros dos profetas Joel 3-4, Zacarias 12-14, Isaías 24-27; 34-35; 65-66 e
outros. Contudo é no profeta Ezequiel, em pleno império babilônico, que começa
a recorrer extensivamente às imagens e alegorias, falando de modo a ser entendido
pelos exilados, mas não pelos opressores. Dessa forma não correndo perigo na
sua integridade.
O gênero literário
apocalipse é, antes de tudo, um livro de ficção. Que não se entenda mal: a
ficção é usada pelo autor para falar de modo cifrado de situações perigosas e
de projetos ousados, que poderiam facilmente acarretar ameaças para ele próprio
e para seus leitores. Usa então o recurso de escrever um livro que pode simplesmente
ser entendido como ficção, mas que os destinatários saberão decifrar e aplicar
à realidade. Embora
diferente o livro de Daniel, é parente próximo de outros livros de ficção, como
Tobias, Judite e Ester – que se referem, de outro modo, ao mesmo contexto histórico
ou a contextos históricos semelhantes.[1]
É uma característica
do gênero literário apocalipse, tanto do Antigo como no Novo Testamento, se utilizar
vários recursos como: pseudonimia, antedatação, sonhos, visões, imagens,
alegorias, simbologia, e números. O autor costuma não assinar o livro, usando o
recurso de um pseudônimo, que em geral costuma ser de uma pessoa famosa do
passado, como Moisés, Henoc, os patriarcas, etc. Este recurso propiciava além
da proteção ao autor de ser descoberto e punido, ao mesmo tempo, dava a
impressão de antiguidade e peso ao escrito.
Por isso não há
como dizer quem é o autor do livro de Daniel. O livro é muito complexo, e
aponta para um complicado processo de formação, basta dizer que foi escrito em três
línguas diferentes: hebraico (1,1-2, 4 a; 8-12), aramaico (2,4b-7,28) e grego
(3,24-90; 13-14). Há muitas contradições, p.ex: em 1,18-19 o rei Nabucodonosor conhece
Daniel e seus três companheiros; já em 2,25 eles são desconhecidos para o rei. Todos estes fatos, as diversidades de línguas e
as contradições, fazem pensar que o livro surgiu graças a uma coleta e costura
de várias histórias orais ou já escritas, que foram reunidas por um editor
final. Entende-se que o nome Daniel é sem duvida um pseudônimo inspirado no
lendário Danel citado por Ezequiel 14, 14.20, ao lado de Noé e Jó. O nome
hebraico também é muito parecido Danel significa (Deus julga) e Daniel (Deus é
meu juiz). Neste caso o nome vem a calhar para um apocalipse que pretende
apresentar o julgamento de Deus contra o opressor.
A pista para descobrir o editor(es) final da obra, encontra-se no mesmo livro nos capítulos 8 a 12. Seus autores mostram a preocupação em reanimar a fé e a esperança em tempos de aflição, perseguição, ameaça de morte e perda de identidade. Para isso os seus autores recorrem a profecias do passado e reelaboram narrativas de cunho sapiencial para servirem aos seus propósitos no presente.
Comparado esses capítulos com os livros dos
Macabeus, escritos depois, podemos ver que se referem aos mesmos acontecimentos
que vão de 175 a 163 a.C., durante a dominação do rei selêucida Antíoco IV
Epifânes sobre a Judéia. Esse é o tempo real do autor-redator-editor final. É
provável, porém, que as partes em grego foram acrescidas (3,24-90; 13-14) elas
se encontram na LXX[2] e na
Bíblia católica. O acréscimo estão no capítulo 3 os versículos 24-90 conhecido
como o cântico de Azarias na fornalha,
a história de Suzana (Dn 13); de Bel e o dragão (Dn 14). O conteúdo da Bíblia Hebraica (Tanakn) é o equivalente ao nosso Antigo
Testamento, porém com três divisões, a saber: Torah (O Pentateuco); Os Profetas (Neviim) e os Escritos (Ketuvim).
O livro de Daniel na Bíblia Hebraica não é considerado profeta e sim histórico,
por esse motivo fica na sua última sessão nos Escritos.
O contexto histórico é muito importante para entendermos o momento. Jerusalém caiu sob o domínio do rei babilônico Nabucodonosor em 586 a.C., com isso o reino de Judá deixa de existir. Israel já não existia há mais de 200 anos. A Judéia passará pela dominação de vários impérios. Primeiro o babilônio, que se estende de 586 a 539 a.C., quando Ciro vence os babilônios e transforma a Judéia em colônia Persa. Até que no ano de 333 a.C. Alexandre Magno venceu os persas e consolidou o império grego. A dominação grega se estenderá com os selêucidas e os ptolomeus (generais de Alexandre que tomam o poder após a sua morte) até o ano de 63 a.C. quando os romanos dominam a região.
Por vários motivos linguísticos, históricos
e histórico literário, os fatos narrados no livro de Daniel não podem ter
surgido no século VI a.C., por volta de 586 a.C. O livro surge somente no
século II, na época helenista, mais especificamente, entre 167 e 164 a.C.
durante a revolta dos Macabeus. Nessa época, o povo de Israel sofria as
consequências da helenização patrocinada pelos selêucidas. A cidade santa de
Jerusalém, paulatinamente estava sendo transformada numa polis grega devido a medidas drásticas do rei selêucida Antíoco
IV Epífanes (175-164 a.C.). Durante o
seu reinado, no ano de 169 a.C., ele saqueia o tesouro do templo de Jerusalém
para financiar suas campanhas militares e manda esmagar brutalmente uma
rebelião em Jerusalém. Dois anos depois ele conquista a cidade de Jerusalém num
sábado e ordena matar e escravizar boa parte da população, e substitui a elite
governante.
Antíoco impõe medidas religiosas, que
interferiam nas normas alimentares judaicas, na observância do sábado e na
prática da circuncisão medidas que atinge todas as camadas da população.
Forçava aos perseguidos o consumo de carne de porco a fim de testar a sua
lealdade ao sistema. E, conforme os testemunhos bíblicos, sua maior iniquidade
consistiu na colocação de um estrado sobreposto ao altar de sacrifício do
templo a fim de permitir sacrifício a Zeus (Dn 11,31; 9,27 “abominação
desoladora”). Com essa medida o templo foi profanado, tornando impossível ao
judeu a realização de sacrifícios.
Nasce então o livro de Daniel, os grupos responsáveis pelo conteúdo (Dn 11,33) encontram-se entre os perseguidos, alguns de seus membros sofreram martírio. Eles se autodenominam Maskilin (“sábios, entendido, esclarecidos Dn 11,33) eram, portanto, círculos zelosos apoiados por grupos liberais dentro do judaísmo. Temiam perder as suas tradições e a sua identidade e, por isso, estavam dispostos a defender a sua fé mesmo sob o risco da própria vida (2 Mac 7).
Qual a proposta do(s) autor (es)?
Compilando, adaptando
tradições antigas e acrescentando materiais novos, o autor procurou tomar
posição diante dos acontecimentos. Cansados da longa dominação e ameaçados da
perda de identidade e da extinção. Produziram um livro em linguagem cifrada, compreensível
para o seu povo, a fim de estimular a resistência e incitar a luta.
O gênero apocalíptico
do livro de Daniel, não permite ao leitor moderno uma leitura fundamentalista e
linear dos fatos, como muitos o fazem. Os recursos literários citados acima: da
pseudonimia, da antedatação, dos sonhos, das visões sempre acompanhadas de
anjos, das imagens, das alegorias, entre outras, apontam para descortinar e
revelar um panorama polissêmico característico dos apocalipses (veja o Ap. de
João). Sua leitura é simbólica e enigmática, Jerônimo dizia que “o apocalipse
tem tantos mistérios quanto palavras”. A sua estrutura é dualista, com
oposições e soluções radicais, tensão continua entre bem e mal; entre tempo
primordial (tempo primeiro) e tempo escatológico (tempo final); ocultamento e
revelação; resistência e esperança.
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