sábado, 6 de maio de 2017

Daniel, autor, texto e contexto.

E levantou-se, e foi; e eis que um homem etíope, eunuco, mordomo-mor de Candace, rainha dos etíopes, o qual era superintendente de todos os seus tesouros, e tinha ido a Jerusalém para adoração. Regressava e, assentado no seu carro, lia o profeta Isaías.E disse o Espírito a Filipe: Chega-te, e ajunta-te a esse carro. E, correndo Filipe, ouviu que lia o profeta Isaías, e disse: Entente tu o que lês? E ele disse: Como poderei entender, se alguém não me ensinar? E rogou a Filipe que subisse e com ele se assentasse. Atos 8: 27-31

Daniel, autor, texto e contexto.

O livro de Daniel é uma literatura apocalíptica no Antigo Testamento, carregado de uma densidade imagética e metafórica que fascinam seus leitores e que se mal compreendidas ou tomadas literalmente, podem levar às mais fantásticas fabulações, sem nenhum fundamento na realidade. Durante a sua história ele teve várias interpretações, não apenas os movimentos exotéricos, milenaristas e apocalípticos usaram-no, como também, movimentos de resistência de governos autoritários encontraram no livro a base de suas convicções. Hoje em dia, ele ainda é muito pregado em cultos neo pentecostais, principalmente textos sensacionalistas como o “sonho do rei”, “a cova dos leões”, “a fornalha ardente” e a “estátua de Nabucodonosor”. Todavia, a linguagem metafórica, a visão do mundo dualista e mítica, a concepção de um Deus violento com seus anjos guerreiros, faz com que a maioria das pessoas tenham grandes dificuldades com a sua leitura.

Mas exatamente a sua leitura polissêmica a densidade imagética com seus elementos misteriosos é que atrai um grupo de leitor, este artigo não tem a presunção de interpretar o livro, mas que o leitor entenda o contexto em que o texto foi escrito.

Para entender Daniel, precisamos primeiro, entender o que é apocaliptismo. Os apocalipses são escritos típicos de tempos difíceis. Aparecem quando o povo é dominado por uma potência estrangeira que ameaça a sua sobrevivência. Normalmente esse tipo de dominação era: política, econômica e ideológica, procurando a todo custo restringir a consciência critica do povo dominado, a fim de que este não se rebele. Essa vigilância ideológica costumava influir na cultura e na religião. Apocalipse é uma literatura de resistência, dirigida para despertar o senso critico, estimular a resistência e incentivar a luta contra o opressor.  Este gênero vinha se formando entre os judeus, à medida que os sucessivos impérios do Oriente Médio sufocavam Israel com as suas dominações. As primeiras raízes do gênero apocalíptico são encontradas nos livros dos profetas Joel 3-4, Zacarias 12-14, Isaías 24-27; 34-35; 65-66 e outros. Contudo é no profeta Ezequiel, em pleno império babilônico, que começa a recorrer extensivamente às imagens e alegorias, falando de modo a ser entendido pelos exilados, mas não pelos opressores. Dessa forma não correndo perigo na sua integridade.

O gênero literário apocalipse é, antes de tudo, um livro de ficção. Que não se entenda mal: a ficção é usada pelo autor para falar de modo cifrado de situações perigosas e de projetos ousados, que poderiam facilmente acarretar ameaças para ele próprio e para seus leitores. Usa então o recurso de escrever um livro que pode simplesmente ser entendido como ficção, mas que os destinatários saberão decifrar e aplicar à realidade. Embora diferente o livro de Daniel, é parente próximo de outros livros de ficção, como Tobias, Judite e Ester – que se referem, de outro modo, ao mesmo contexto histórico ou a contextos históricos semelhantes.[1]

É uma característica do gênero literário apocalipse, tanto do Antigo como no Novo Testamento, se utilizar vários recursos como: pseudonimia, antedatação, sonhos, visões, imagens, alegorias, simbologia, e números. O autor costuma não assinar o livro, usando o recurso de um pseudônimo, que em geral costuma ser de uma pessoa famosa do passado, como Moisés, Henoc, os patriarcas, etc. Este recurso propiciava além da proteção ao autor de ser descoberto e punido, ao mesmo tempo, dava a impressão de antiguidade e peso ao escrito.

Por isso não há como dizer quem é o autor do livro de Daniel. O livro é muito complexo, e aponta para um complicado processo de formação, basta dizer que foi escrito em três línguas diferentes: hebraico (1,1-2, 4 a; 8-12), aramaico (2,4b-7,28) e grego (3,24-90; 13-14). Há muitas contradições, p.ex: em 1,18-19 o rei Nabucodonosor conhece Daniel e seus três companheiros; já em 2,25 eles são desconhecidos para o rei.  Todos estes fatos, as diversidades de línguas e as contradições, fazem pensar que o livro surgiu graças a uma coleta e costura de várias histórias orais ou já escritas, que foram reunidas por um editor final. Entende-se que o nome Daniel é sem duvida um pseudônimo inspirado no lendário Danel citado por Ezequiel 14, 14.20, ao lado de Noé e Jó. O nome hebraico também é muito parecido Danel significa (Deus julga) e Daniel (Deus é meu juiz). Neste caso o nome vem a calhar para um apocalipse que pretende apresentar o julgamento de Deus contra o opressor.

A pista para descobrir o editor(es)  final da obra, encontra-se no mesmo livro nos capítulos 8 a 12. Seus autores mostram a preocupação em reanimar a fé e a esperança em tempos de aflição, perseguição, ameaça de morte e perda de identidade. Para isso os seus autores recorrem a profecias do passado e reelaboram narrativas de cunho sapiencial para servirem aos seus propósitos no presente.

Comparado esses capítulos com os livros dos Macabeus, escritos depois, podemos ver que se referem aos mesmos acontecimentos que vão de 175 a 163 a.C., durante a dominação do rei selêucida Antíoco IV Epifânes sobre a Judéia. Esse é o tempo real do autor-redator-editor final. É provável, porém, que as partes em grego foram acrescidas (3,24-90; 13-14) elas se encontram na LXX[2] e na Bíblia católica. O acréscimo estão no capítulo 3 os versículos 24-90 conhecido como o cântico de Azarias na fornalha, a história de Suzana (Dn 13); de Bel e o dragão (Dn 14). O conteúdo da Bíblia Hebraica (Tanakn) é o equivalente ao nosso Antigo Testamento, porém com três divisões, a saber: Torah (O Pentateuco); Os Profetas (Neviim) e os Escritos (Ketuvim). O livro de Daniel na Bíblia Hebraica não é considerado profeta e sim histórico, por esse motivo fica na sua última sessão nos Escritos.

O contexto histórico é muito importante para entendermos o momento. Jerusalém caiu sob o domínio do rei babilônico Nabucodonosor em 586 a.C., com isso o reino de Judá deixa de existir. Israel já não existia há mais de 200 anos.  A Judéia passará pela dominação de vários impérios. Primeiro o babilônio, que se estende de 586 a 539 a.C., quando Ciro vence os babilônios e transforma a Judéia em colônia Persa. Até que no ano de 333 a.C. Alexandre Magno venceu os persas e consolidou o império grego. A dominação grega se estenderá com os selêucidas e os ptolomeus  (generais de Alexandre que tomam o poder após a sua morte) até o ano de 63 a.C. quando os romanos dominam a região.  

Por vários motivos linguísticos, históricos e histórico literário, os fatos narrados no livro de Daniel não podem ter surgido no século VI a.C., por volta de 586 a.C. O livro surge somente no século II, na época helenista, mais especificamente, entre 167 e 164 a.C. durante a revolta dos Macabeus. Nessa época, o povo de Israel sofria as consequências da helenização patrocinada pelos selêucidas. A cidade santa de Jerusalém, paulatinamente estava sendo transformada numa polis grega devido a medidas drásticas do rei selêucida Antíoco IV  Epífanes (175-164 a.C.). Durante o seu reinado, no ano de 169 a.C., ele saqueia o tesouro do templo de Jerusalém para financiar suas campanhas militares e manda esmagar brutalmente uma rebelião em Jerusalém. Dois anos depois ele conquista a cidade de Jerusalém num sábado e ordena matar e escravizar boa parte da população, e substitui a elite governante.

Antíoco impõe medidas religiosas, que interferiam nas normas alimentares judaicas, na observância do sábado e na prática da circuncisão medidas que atinge todas as camadas da população. Forçava aos perseguidos o consumo de carne de porco a fim de testar a sua lealdade ao sistema. E, conforme os testemunhos bíblicos, sua maior iniquidade consistiu na colocação de um estrado sobreposto ao altar de sacrifício do templo a fim de permitir sacrifício a Zeus (Dn 11,31; 9,27 “abominação desoladora”). Com essa medida o templo foi profanado, tornando impossível ao judeu a realização de sacrifícios.

Nasce então o livro de Daniel, os grupos responsáveis pelo conteúdo (Dn 11,33) encontram-se entre os perseguidos, alguns de seus membros sofreram martírio. Eles se autodenominam Maskilin (“sábios, entendido, esclarecidos Dn 11,33) eram, portanto, círculos zelosos apoiados por grupos liberais dentro do judaísmo. Temiam perder as suas tradições e a sua identidade e, por isso, estavam dispostos a defender a sua fé mesmo sob o risco da própria vida (2 Mac 7).

Qual a proposta do(s) autor (es)?

Compilando, adaptando tradições antigas e acrescentando materiais novos, o autor procurou tomar posição diante dos acontecimentos. Cansados da longa dominação e ameaçados da perda de identidade e da extinção. Produziram um livro em linguagem cifrada, compreensível para o seu povo, a fim de estimular a resistência e incitar a luta.
O gênero apocalíptico do livro de Daniel, não permite ao leitor moderno uma leitura fundamentalista e linear dos fatos, como muitos o fazem. Os recursos literários citados acima: da pseudonimia, da antedatação, dos sonhos, das visões sempre acompanhadas de anjos, das imagens, das alegorias, entre outras, apontam para descortinar e revelar um panorama polissêmico característico dos apocalipses (veja o Ap. de João). Sua leitura é simbólica e enigmática, Jerônimo dizia que “o apocalipse tem tantos mistérios quanto palavras”. A sua estrutura é dualista, com oposições e soluções radicais, tensão continua entre bem e mal; entre tempo primordial (tempo primeiro) e tempo escatológico (tempo final); ocultamento e revelação; resistência e esperança.

Sole Deo Glori


[1] STORNIOLO, Ivo, 
[2] Septuaginta

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