terça-feira, 9 de agosto de 2016

O SIMBOLISMO SOCIAL DO VÉU, NAS SOCIEDADES MEDITERRÂNEAS ANTIGAS. (parte do estudo de 1 Co 11,10)

No intuito de dirimir algumas distorções do entendimento de 1 Co 11, quanto ao uso do véu e seu simbolismo cúltico, convido a todos a leitura do artigo publicado na Revista Orácula(*) da UMESP, “Anjos Vigilantes e Mulheres Desveladas” de Anderson Dias Araujo. 

Convém, neste estudo, darmos atenção ao simbolismo social do uso do véu e do cabelo, para homens e mulheres, nas sociedades mediterrâneas antigas. Diversos estudos indicam que o uso do véu e estilo de penteado possuíam uma simbologia própria no que tange a diferenciação dos sexos e comportamento social.

O uso do véu tem uma história muito antiga. Os primeiros indícios de uso do véu remontam a Suméria. Os sumérios foram um povo extremamente inovador. Legaram a posteridade a escrita, a irrigação, a roda, a astronomia, a literatura e, também, o uso do véu no contexto religioso, como veremos a seguir.

Heródoto relata que na cidade onde havia o templo da deusa Mylitta, toda mulher era solicitada, uma vez em sua vida, a visitar aquele templo, e provavelmente na maioria dos outros templos ao longo da Suméria e lá deveria permanece até que um estranho arremessasse uma moeda de prata sobre seu colo e a levava embora com ele, para então receber a benção da deusa do templo. As mulheres se sentavam em um recinto santo do templo, cada uma coberta por um véu sobre a cabeça. Os homens deveriam passar por aquele local e escolher uma mulher com a qual teria relações sexuais. A mulher, uma vez que tivesse tomado assento, não poderia retornar para sua casa, até que um estranho a tivesse escolhido. Ao ser escolhida, não poderia recusar em ir com o indivíduo que a escolheu, pois isto era determinado pelas leis e a escolha era considerada sagrada.

O homem ao laçar a moeda dizia as seguintes palavras. Que a deusa Mylitta te faça próspera. Ao aceitar a escolha e ir com o homem a mulher teria cumprido sua obrigação para com a deusa, só então poderia retornar para sua casa. Cria-se que, à mulher, após cumprir sua obrigação, nenhuma dádiva lhe seria recusada. Algumas mulheres, por seu porte e beleza, logo eram escolhidas, outras, contudo, permaneciam no recinto do templo por longos períodos até que pudessem cumprir a lei. A partir deste início tímido, o legado sumério do uso do véu extrapolou as fronteiras do contexto religioso da prostituição sagrada e se estendeu para o cotidiano das mulheres das diversas sociedades semitas e indo-europeias, adquirindo simbologia e sentidos próprios no que tange a diferenciação de gênero e comportamento social.

A seguir, serão vistas com mais detalhes algumas práticas concernentes ao uso do véu e penteado de cabelo e se finalizará com uma análise de como a mulher era vista no contexto literário judaico do período intertestamentário.

Uso do véu e estilo de penteado para mulheres e homens

Com base em estudo filológico e na cultura material (iconografia) do mundo mediterrâneo, é possível a conclusão de que era comum às mulheres do mundo mediterrâneo, incluindo as de origem judia, o uso de cabelos longos; contudo, deviam atá-los de alguma forma, de modo que não ficassem soltos. Comumente utilizavam-se tranças enroladas ao redor da cabeça. O uso do véu também era recomendado e até mesmo obrigatório.

Na Antiguidade, os cabelos soltos de uma mulher (e o ato de soltá-los) frequentemente tinham conotações sexuais. Sair em público com cabelos soltos e desvelados eram motivos de divórcio. Corrington cita um exemplo onde o escritor romano Valerius Maximus congratula o cônsul Gallus por sua severidade ao flagrar a esposa em público com a cabeça desvelada. O cônsul se divorcia dela, pois a cabeça desvelada poderia atrair o olhar e, consequentemente, a cobiça e o interesse sexual de outro homem. A práxis da época é que as mulheres deviam na medida do possível ficar dentro de casa, pois elas são repositório da honra masculina. Elas precisavam ser protegidas de contatos com homens de outras economias domésticas, que poderiam maculá-las.

No texto de Pastor de Hermas encontra-se um exemplo bastante ilustrativo sobre o uso dos cabelos soltos, onde se relata que alguns se perderam (pedras rejeitadas) seduzidos pela beleza de mulheres vestidas de preto, com os ombros descobertos, cabelos soltos e belos. Hermas e seus leitores, obviamente, reconhecem os cabelos soltos como um símbolo de atração sexual ilícita.

Assim, a honra do homem poderia ser ferida pela mulher. Por outro lado, os cabelos soltos ou o ato de soltá-los e a ausência do véu poderiam conotar outros tipos de situações, conforme nos relata Gosgrove. Nos cultos ao deus Adonis, mulheres soltavam seus cabelos como sinal de devoção. Neste caso, o ato de soltar os cabelos simbolizava o desvencilhamento do aparato cultural; assim a devota entraria no rito em um estado puro e natural. Desta forma, mulher com cabelos soltos, diante de um deus, poderia ser considerado como ato de humilhação e reverência. A mudança de estado civil de uma mulher também requeria uma mudança em seu estilo de penteado. Mulheres casadas ornamentavam seus penteados com faixas algo próximo a uma tiara, porém de tecido, simbolizando indisponibilidade sexual da mulher aos demais homens, exceto seu marido. Consequentemente, seria vergonhoso e desonroso para uma mulher casada parecer em público com seus cabelos soltos, exceto em algumas circunstâncias que serão vistas a seguir.

Em caso de adultério, no contexto judaico, recomendava-se (Num 5,18-31) que os cabelos da mulher deveriam ser soltos e, em alguns casos, expor seus seios de modo a constrangê-la e causar vergonha. Outros exemplos em que as mulheres podiam soltar seus cabelos são os rituais fúnebres. A expressão profunda de tristeza e dor era acompanhada da soltura dos cabelos e, às vezes, da exposição dos seios. Há, também, em um período mais tardio século terceiro d.C. o caso de batismos de pagãos que desejavam aderir ao cristianismo. Neste caso, recomendava-se às mulheres que removessem as bijuterias e soltassem seus cabelos no momento do mergulho batismal, tirando possíveis objetos que poderiam prender os cabelos (alfinetes, pentes, tiaras). Uma possível interpretação desta recomendação é que no mundo antigo pensava-se que os demônios poderiam residir nestas bijuterias.

Elisabeth Fiorenza nos relata que

cabelos desvelados e cabeças voltadas para baixo eram gestos típicos do culto de Dionísio, de Cibele, da Pítia de Delfos, da Sibila, e os cabelos soltos eram necessários para a mulher produzir encantamento mágico eficaz. [...] Cabelo esvoaçantes e soltos podiam ser vistos também no culto de Ísis, que possuía importante centro em Corinto.

Cabelos curtos também apresentavam conotações diferentes daquelas supracitadas. Um dos aspectos centrais do culto a Dionísio era a troca dos papéis e dos valores sociais. Para os homens, a devoção a Dionísio era expressa pelo uso do véu e por cabelos compridos, enquanto as mulheres apresentavam-se desveladas e algumas mantinham seus cabelos curtos. Mulheres com cabelos curtos ou raspados eram tidas como mulheres masculinizadas e lésbicas. Assim, quando mulheres mostravam certos tipos de comportamento presumivelmente próprios dos homens por natureza, eram consideradas masculinas. Cabelos curtos também podiam ser vistos como sinal de adultério. O autor romano Dio Chrisostomo, do primeiro século, faz menção a uma mulher da ilha de Ciprus, que seus cabelos haviam sido raspados pelas autoridades por motivo de adultério, com a finalidade de identificá-la como uma adúltera (prostituta). No caso dos homens, cabelos compridos ou estilos de penteados extremamente rebuscados sugeriam homossexualidade. Murphy O Connor encontrou vários exemplos judaicos e não-judaicos de situações em que cabelos compridos em homens transmitiam a ideia de homossexualidade. Também cita os filósofos estóicos Musonius Rufus e Epíteto, que consideravam cabelos compridos em um homem como sinal de ambiguidade sexual e uma tentativa de diminuir a diferenciação sexual entre homens e mulheres (androgenia).
Também era costume entre os romanos, seja em suas terras nativas ou em suas colônias, cobrirem a cabeça durante cultos religiosos, privados ou públicos. Também é atestado que, ao oferecerem sacrifícios ou no momento de orar, os romanos cobriam a cabeça, utilizando para isso a toga.

Contexto social da mulher no mundo judaico-helenista.

A diferenciação dos papéis sociais de homens e mulheres era bastante estrita nas sociedades mediterrâneas da Antiguidade. Os papéis sociais eram considerados como fundados na natureza ou estabelecidos por Deus. De modo correspondente, a expectativa de um comportamento de acordo com o gênero era extremamente grande e a confusão dos papéis ou competência masculinos e femininos era muitíssimo desaprovada. Por exemplo, na esfera política romana, poderia haver participação das mulheres de homens do primeiro estrato social. Atuavam como conselheiras de seus maridos ou filhos, exerciam influência sobre eles, permaneciam publicamente ao lado deles, mas elas não passaram jamais de um mero poder nos bastidores do trono, o qual elas próprias nunca podiam ocupar, e sua ingerência na política sempre foi recebida com ressentimento. Já a participação de mulheres em discursos públicos era considerada um escândalo.

No contexto judaico, a mulher era tida como ameaça à virtude masculina por causa de sua alegada voracidade sexual e moralidade precária, sendo, portanto, responsável pela lascívia masculina. Um exemplo clássico desta posição é o texto do Testamento de Rúben, contido no livro pseudoepígrafo Testamento dos Doze Patriarcas, onde se lê:

As mulheres são maldosas, meus filhos; se não possuem força nem poder sobre o homem, procuram atraí-lo por meio de encantamentos, e se não conseguem dobrá-los por esse meio, pressionam-no com astúcias. Sobre elas falou-me um Anjo do Senhor, ensinando-me que as mulheres são mais sujeitas ao espírito da luxúria que os homens. Armam intrigas em seu coração contra eles. Primeiro transformam sua mente por meio da maquiagem, e injetam neles o veneno através do seu olhar; depois o apanham pelo ato. De outra forma, nunca uma mulher poderia subjugar um homem. Fugi da prostituta, meus filhos! Proibi vossas mulheres e vossas filhas de enfeitarem a cabeça e o rosto! Pois toda a mulher que recorre a esses ardis atrai sobre si o castigo eterno. Foi desta maneira que elas também enfeitiçaram os Guardiões [Anjos Vigilantes] antes do dilúvio. Eles olhavam-nas constantemente, e assim conceberam o desejo por elas [...].

Outros textos do Testamento dos Doze Patriarcas também oferecem proveitosos exemplos. No Testamento de Judá, por exemplo, o patriarca lamenta sua relação com Tamar, mas esguelha-se colocando a culpa na bebida e na mulher:

.[...] É costume entre os amorreus que uma recém-casada se coloque por sete dias às portas da cidade, para fins de fornicação. Dado que eu tinha bebido muito vinho, não a reconheci. Iludiu-me a sua beleza, com o adorno das suas vestes. (T. Judá 12,2-4).

E em outra parte do testamento, Judá recomenda: “não amem o dinheiro e não olhem para a beleza das mulheres”. (T. Judá 17,1). Exemplo semelhante encontra-se no livro de Bem Sira Eclesiástico que oferece o seguinte conselho: “desvia teu olho de mulher formosa, não fites beleza alheia. Muitos se perderam por causa da beleza de mulher, por sua causa o amor inflama como o fogo”.

Em outro texto pseudoepígrafo, Salmos de Salomão, datado de cerca 125 a.C.  70 d.C., lemos: “Livra-me, oh Senhor, do pecado sórdido, e de toda mulher maldosa que seduz o tolo. E que a beleza da mulher criminosa não me seduza e não me engane, e que ninguém se sujeite a tal pecado”. (S. Salomão 16,7-8). Por último temos um eloquente exemplo no texto deuterocanônico de Judite onde ela ora a Deus e pede: “Dá-me uma linguagem sedutora, para ferir e matar”. (Judite 9,13) para em seguida ornamentar-se com o propósito de seduzir e matar o general do exército inimigo:

“Quando cessou de clamar a Deus de Israel e terminou todas as suas palavras, ela se levantou da sua prostração, chamou sua serva e desceu para a casa que ficava nos dias de sábado e de festa. Tirou o pano de saco que vestira, despojou-se do manto de sua viuvez, lavou-se, ungiu-se com ótimo perfume, penteou os cabelos, colocou na cabeça o turbante e vestiu a roupa de festa que usava enquanto vivia seu marido Manasses. Calçou sandálias nos pés, colocou colares, braceletes, anéis, brincos, todas as joias, embelezando-se a fim de seduzir os homens que a vissem”. (Judite 10,1-5)

E após concluir sua tarefa de forma bem-sucedida, Judite, com a cabeça de Holofernes em suas mãos, exclama: “Viva o Senhor que me guardou no caminho por onde andei, pois o meu rosto o seduziu, para sua perdição” [...]. (Judite 13,16).

RESUMO

Em 1 Coríntios 11,2-16 Paulo está interessado em retificar a interpretação que a igreja de Corinto fizera de seus ensinamentos anteriores sobre a unidade de homem e mulher (Gal. ,28), a liberdade em Cristo e corrigir a prática que aquela igreja adotara ao abandonar a diferenciação dos sexos no que se refere ao tratamento em relação aos cabelos e ao uso do véu no ato litúrgico. O que nos chama a atenção nessa perícope é a recomendação que Paulo faz no v. 10 para a mulher cobrir a cabeça como sinal de autoridade, por causa dos anjos. A alusão aos anjos somada ao dever de cobrir a cabeça da mulher como sinal de autoridade ecoam imagens similares presentes na tradição judaica que floresceu no período intertestamentário concernentes ao papel dos anjos na criação. Este ensaio discute de maneira breve, as possíveis influências do Mito dos Anjos Vigilantes, desenvolvida a partir do livro pseudoepígrafo 1 Enoque, com o objetivo de verificar se o autor de 1 Coríntios 11,2-16 lançou mão do imaginário apocalíptico da tradição do Mito dos Anjos Vigilantes em sua argumentação a favor do uso do véu descrita em 1 Coríntios 11,10.

Nas próximas publicações falaremos sobre o “Mito dos Anjos Vigilantes” e a sua influência no desenvolvimento teologia cultual/religioso do Antigo e do Novo Testamento. Acompanhem....



ANJOS VIGILANTES E MULHERES DESVELADAS. Uma relação possível em
1 Coríntios 11,10? Araujo, Anderson Dias.
Fonte: Revista Oracula 4.8 (2008) 151-156

 


No dia 07/7/2015, postei no meu blog o estudo “ A MULHER, A SUBMISSÃO, A IGREJA E A SOCIEDADE DO SÉC XXI”, que pode ser localizado no endereço http://prwneves.blogspot.com.br/2015/06/a-mulher-submissao-igreja-e-sociedade.html. 

(*) Revista Oracula foi criada no ano de 2005 como meio de divulgação dos projetos e produções do Grupo Oracula de Pesquisa do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo. Articulando professores, doutorandos e mestrandos da área da literatura bíblica, bem como da história da antiguidade para o estudo da apocalíptica judaica e cristã primitiva, com métodos da história da religião e da exegese bíblica, o propósito foi, durante muito tempo, publicar artigos sobre apocalíptica, profecia e fenômenos visionários dos pesquisadores do grupo e de seus interlocutores no Brasil e no exterior.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

A CRISE DA ESPIRITUALIDADE NO MOVIMENTO NEOPENTECOSTAL BRASILEIRO.


                                                          
Carlos Eduardo Stracci *

Stanley Barbosa da Rocha*

Waldemar Augusto Neves Junior*

 

 Resumo

Este artigo tem por objetivo mostrar as distorções que tem proliferado no meio evangélico chamado de Neopentecostalismo. O despreparo e a insipiência bíblica de seus líderes ocasionam o esvaziamento da prédica nos púlpitos, com isso o movimento neopentecostal cresce exportando doutrinas e hermenêuticas estranhas à Bíblia e à tradição cristã. Com sua limitada visão do Reino de Deus, aliada a um crescente judaização do cristianismo, vende-se a ideia da prosperidade, saúde e realizações pessoais, baseadas em revelações e profecias de forma que se prioriza a busca pelo prazer humano, por uma horizontalização das conquistas terrenas. Nossa pesquisa pretende analisar tais crenças e mostrar que em alguns casos, a tênue linha entre o sagrado e o profano já foram ultrapassadas. Diante deste quadro, devemos refletir acerca de qual atitude tomar.

 

Palavras-chave: Neopentecostalismo, ressignificações teológicas, IURD.

 

Introdução 

 

Quando assistimos nas televisões e ouvimos nas rádios de todo Brasil as religiões propagando um cristianismo distante de Cristo, o que podemos esperar?

Usando a Bíblia como referência, podemos comparar tais igrejas com a Igreja de Laodicéia citada no livro de Apocalipse que se preocupava com as conquistas financeiras e materiais; diferente da Igreja de Filadélfia que buscava os frutos do espírito.

A Igreja de Laodicéia nos faz lembrar muitas igrejas neopentecostais dos dias atuais, ou talvez, as igrejas neopentecostais dos dias atuais nos faça lembrar da Igreja de Laodicéia. São igrejas que erguem grandes templos, lindas colunas, pisos de mármore, púlpitos de ouro, mas mesmo em toda sua pompa e riqueza são mundanas, populares e egocêntricas. Investem em marketing modernizando o evangelho para atrair multidões, manipulando quem busca a Cristo. Criam campanhas cobradas (pagas), inserem rituais e simbologias que contradizem ao pregarem contra a idolatria. Com este investimento maciço levantam recursos para seu bel-prazer; o dinheiro do dízimo é revertido para o conforto pessoal como na aquisição de carros zero, mansões, etc. Prega-se, ao invés da prosperidade do evangelho, o “evangelho da prosperidade”, e com isso a igreja física torna-se rica, mas, no entanto, pobre diante dos olhos de Deus. Pouco se investe em missões, evangelizações e assistência social, não pregam santidade nem o compromisso com a palavra Deus, somente propagam o compromisso com o próprio estatuto da entidade.

Tornaram-se uma igreja morna onde o “joio” é amigo do “trigo”, onde o homem não tem valor pelo seu caráter e disposição para a obra, mas sim pelos bens materiais que possui. Homens, pregadores e cantores que se proclamam “de deus”, mas não aprenderam o que significa “negar-se a si mesmo”. Cobram cachê para ensinarem o que não lhes pertencem e o que de graça receberam. Igreja que não serve, mas quer ser servida pelos céus, por pura vaidade. Esta igreja está misturada com o mundo e a sua referência é a riqueza material. Por isso é criticada pelo dono da Igreja. É a igreja que produz “virgens imprudentes” - desvia os olhos de seus membros para as coisas terrenas; se ocupam e se distraem com as coisas do mundo. Esta igreja, que se achava rica e forte, foi criticada por seu orgulho e autossuficiência. Exaltou-se, ao invés de se humilhar diante do Senhor dos senhores.

A igreja de Laodicéia, ou a igreja que vende ilusões, acaba se tornando um “Tanque de Betesda” Jo 5, 1-15. No tanque de Betesda os enfermos se reuniam para esperar o movimento das águas que um anjo, vez em quando, as moviam. Quem descesse primeiro às águas quando isso acontecesse era curado de suas enfermidades. Muitos vão à procura de igrejas que promovem curas, libertações, promessas de bênçãos materiais, entretanto, estão ali como se estivessem esperando somente o movimento das águas.

Este artigo vai mostrar os caminhos da igreja para que chegasse aonde chegou; os períodos ou ondas do pentecostalismo brasileiro; as principais denominações e seus líderes, e, suas práticas litúrgicas. Análise que vai do pentecostalismo clássico até o neopentecostalismo atual - o profano no púlpito tomando o lugar daquilo que é sagrado. O abandono da graça, que dá lugar a obras ou práticas religiosas; a judaização do cristianismo, quando práticas ou objetos do Antigo Testamento ganham seus valores místicos. A forte influência da Igreja Universal do Reino de Deus e sua liturgia tão distante da realidade bíblica.

 

1. As ondas do Pentecostalismo no Brasil

Ao se falar no movimento pentecostal brasileiro devemos falar sobre o começo desse movimento nos Estados Unidos, uma vez que nossas igrejas pentecostais tiveram início por lá, ou, de missionários de lá oriundos. O que se sabe do movimento pentecostal americano é que houve várias manifestações de pequena expressão ou de maneira individual, porém com destaque temos o avivamento, em 1895, em Dakota no Norte e o da Carolina do Norte onde 130 pessoas foram batizadas no Espírito Santo; outro em 1901 na cidade de Topeka, estado do Kansas, quando ali ocorreu um seminário – Seminário Bíblico Betel – que alcançou e se alastrou no ano de 1906 para Los Angeles, o famoso avivamento chamado de “Avivamento da Rua Azusa”.

Muitos dizem que a Missão da Rua Azusa é “a mãe do pentecostalismo mundial”; William Seymour era o líder dessa fase inicial e as principais características desse movimento (pentecostal) era o chamado "batismo com o Espírito Santo", considerado um dom do Espirito de Deus conhecido como glossolalia (variedade de línguas), também, curas sobrenaturais, profecias, interpretações de línguas e discernimento de espíritos, dentre outros. Durante o decorrer do tempo o movimento pentecostal foi sofrendo constantes mudanças na medida em que ia interagindo com outros pentecostais e suas diferentes experiências. Essas divisões na história do pentecostalismo, Paul Freston (MARIANO, 2005, p. 28-33) classifica em três fases ou, como ele chama, de “ondas”.


1.1 A Primeira Onda

No Brasil a primeira “onda” acontece entre os períodos de 1910 a aproximadamente 1950. Esse primeiro período é o chamado “período clássico” e as igrejas que se destacam são Assembleia de Deus e Congregação Cristã no Brasil.

Daniel Berg e Gunnar Vingren, de origem sueca, vieram para o Brasil, desceram na cidade de Belém, no Estado do Pará no ano de 1910. Ao chegarem receberam assistência de um pastor Batista, mas logo que começaram a dominar a língua portuguesa, prontamente, colocaram-se a divulgar a mensagem pentecostal. Com a separação entre eles e a Igreja Batista, começam um trabalho chamado Missão de Fé Apostólica, nome mudado para Assembleia de Deus no ano de 1914. Já a CCB foi fundada em 1910 por um italiano oriundo dos Estados Unidos chamado Louis Francescon que já havia sido batizado no Espírito Santo e experimentado a força do “pentecoste” (BLEDSOE, 2002).

 

1.2 Pentecostalismo Pós-Clássico ou Segunda Onda do Pentecostalismo 

São os termos que designam a segunda onda do movimento Pentecostal que surgiu na década de 50, quando chegaram a São Paulo dois missionários, o americano  Harold Williams, e o pastor peruano Jesús Hermirio Vásquez Ramos, ali criaram a Cruzada Nacional de Evangelização com ênfase na cura divina, profecias e no exorcismo, o que o distingue da primeira onda. Iniciaram a evangelização das massas, fazendo uso principalmente do rádio. Fundaram depois a Igreja do Evangelho Quadrangular.

O Brasil para CristoIgreja Pentecostal Deus é AmorIgreja UnidaCasa da Bênção, entre outras, são nomes de destaque nesse período e que se encaixam como sendo da segunda onda (BLEDSOE, 2002).

 

1.3 A Terceira Onda

A terceira onda começa no início dos anos 70 o chamado “movimento Neopentecostal” (neo que dizer novo), por serem mais liberais que os outros momentos vividos pelas outras igrejas. Só de apresentarmos a lista de igrejas que surgiram entre 1977 e 1998 você consegue perceber a diferença dos movimentos: Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Internacional da Graça, Comunidade Paz e Vida, Igreja Renascer em Cristo, Sara Nossa Terra, Igreja Mundial do Poder de Deus, e, mais atualmente, a Igreja Plenitude. De maneira geral, todos esses fazem um forte uso da mídia eletrônica, fazendo bastante o uso do marketing. Esse movimento está em plena atividade e continua crescendo (BLEDSOE, 2002).

No Brasil esse movimento chama a atenção devido ao seu crescimento e influência, hoje, representam quase metade dos grupos pentecostais, sendo o Brasil o país com o maior número de grupos pentecostais do mundo.

Uma das razões de seu crescimento é o fato de ser um movimento que influencia e envolve várias denominações independentes que comungam dessa ideologia teológica, ou seja, o movimento não é uma denominação com estrutura e líder, mas sim um meio de se cultuar. Isso torna até difícil de definir o movimento sendo que diariamente surgem novos grupos distintos, além de parecer que o movimento apenas adota coisas que dão certo, e tem-se a impressão que vivem apenas uma religião sem Deus, com liberdade de crença e doutrina.

O Neopentecostalismo está bem distante do pentecostalismo clássico, embora este tenha sido contaminado por aquele. Mas os berços paradigmáticos de um e de outro são os mesmos. Sua ênfase teológica não é mais cristológica e sim pneumatológica. (MARIANO, 2005, p.55).

 

Foi ano de 1975 que Edir Macedo, R.R. Soares Roberto, Augusto Lopes e os irmãos Samuel e Fidélis Coutinho fundaram a Igreja Cruzada do Caminho Eterno. Dois anos depois Macedo e seu cunhado Soares se separam e fundam a Igreja Universal do Reino de Deus, mas, também, por discordâncias, R.R. Soares em 1980 fundou sua própria igreja, a Internacional da Graça de Deus.

Tanto Edir Macedo quanto Soares eram e haviam saídos da Igreja Nova Vida, fundada pelo canadense Robert McAlister, que já apresentava características bem diferentes das igrejas pentecostais (MARIANO, 2005, p. 55). Perceba que no Brasil a linha que separa as igrejas da chamada segunda onda, conhecidas hoje como pentecostais e as da terceira é muito imperceptível. Podemos dizer que a terceira onda começa a se firmar na cidade do Rio de Janeiro que nos anos 70 se encontrava economicamente decadente. O novo pentecostalismo, também denominado “pentecostalismo autônomo” (CAMPOS, 1999, p. 18) por alguns estudiosos, encontrou solo fértil nessa cultura urbana influenciada pela televisão.

O movimento caminha fazendo uso inteligente dos meios de comunicação de massa, para “nacionalizar” o neopentecostalismo dos Estados Unidos, afinal, se dava certo lá, daria mais certo por aqui.

Como dito antes a Igreja Nova Vida de onde saíra o bispo Macedo e o missionário Soares foi um grande celeiro, pois vários nomes do meio neopentecostal brasileiro saíram de lá, foi de fato um “estágio” para esses futuros líderes. A Igreja Nova Vida foi fundada em 1960, por um canadense chamado Robert McAlister que havia servido à Assembleia de Deus. A Nova Vida investiu muito na mídia e foi a primeira igreja pentecostal a adotar o episcopado no Brasil. A Igreja ensinava o que de mais forte se vê hoje no meio neopentecostal: batalha espiritual e prosperidade.  Quando se diz que a Igreja Vida Nova foi um celeiro pode-se acreditar, pois ali nasceram: a IURD – Igreja Universal do Reino de Deus fundada por Edir Macedo, a Igreja Internacional da Graça de Deus fundada por Romildo R. Soares, e a Igreja Cristo Vive fundada por Miguel Ângelo (ROMEIRO, 2005, p. 50).

Não há nada homogêneo e pelo que se vê também não há interesse nesse meio que algo desse tipo aconteça, ao contrário disso o que se vê é a forte tendência em diversificar e continuar cada um no seu território. Na verdade, o neopentecostalismo é uma nova forma do pentecostal na qual deixou-se de lado a ênfase de se falar em línguas, os dogmas, a segunda vinda do senhor Jesus e até mesmo na salvação eterna, dando lugar ao curandeirismo, exorcismo, batalha espiritual e a prosperidade. É através da fé que o crente tem direito a saúde e sucesso quebrando as barreiras que o diabo quer colocar na vida das pessoas. Por isso, no Brasil, o espiritismo e as religiões afro-brasileiras acabam se tornando os principais inimigos.

As principais igrejas neopentecostais são:

A Igreja Universal Do Reino De Deus - Em 1975 Edir Macedo e já seu cunhado, R.R. Soares juntamente com Roberto Augusto Lopes, e os irmãos Coutinho fundaram a igreja Cruzada do Caminho Eterno, no entanto algumas desavenças fizeram com que Macedo e Soares saíssem e formassem no ano de 1977, o que seria a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). Nenhuma igreja neopentecostal tem a grandeza de influência e se destaca tanto como a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), possivelmente a atual responsável em enviar missionários a partir de uma nação do Terceiro Mundo. Há de se destacar que não há IURD sem bispo Macedo, uma das figuras mais polêmicas da história da religião no Brasil.

A igreja é reconhecida como uma igreja urbana com alta concentração no eixo Rio-São Paulo. Por muitas vezes se intitula como “pronto-socorro” espiritual para os que procuram por um milagre. Em salões alugados ou próprios, em centros de grandes bairros ou em suas catedrais nos centros das grandes cidades, são ministradas de 3 a 5 reuniões diárias, sete dias por semana, todas no estilo quase que idêntico do líder, o bispo Edir Macedo. Verdade é que o sucesso administrativo de Macedo é imitado por outras denominações pentecostais, não pentecostais e até por católicos do meio renovado, chamados carismáticos que combinam o método da benção física, espiritual e financeira, e tudo que está fora do sucesso é atribuído ao diabo.

A Igreja Internacional Da Graça De Deus - Conforme já dito IIGD nasce do mesmo berço que a IURD, começou em 1980, na Rua Lauro Neiva, no Município de Duque de Caxias, Rio de Janeiro. Assemelha-se em parte com a IURD, porém não tem o mesmo dinamismo e, esta, não usa de tanta criatividade quanto aquela. Seu líder, R.R. Soares, acredita que o verdadeiro evangelho é manifestado através de milagres, de curas e libertação de demônios.

A Igreja Apostólica Renascer Em Cristo - Fundada em 1985 pelo “apóstolo” Estevam Hernandes e sua esposa, a bispa Sônia Hernandes. “Desde sua origem a igreja voltou sua atenção para os jovens, usando o rock gospel como meio de atraí-los” (DOLGUIE apud ROMEIRO, 2005, p. 56).

A Igreja Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra - Fundada pelos bispos Robson e Maria Lucia Rodovalho, no ano de 1992, em Brasília. Também como as demais igrejas de linha neopentecostal, a CSNT tem como base a Teologia da Prosperidade, dando também grande importância à quebra de maldições hereditárias.

 Igreja Mundial Do Poder De Deus (IMPD) - Fundada em 1998, em Sorocaba, interior de São Paulo, pelo “apóstolo” Valdemiro Santiago, ex-líder da IURD, onde esteve por 18 anos. A denominação afirma que cresceu mais de 200% só no ano de 2007 e hoje afirma possuir mais de 4.500 templos espalhados pelo território nacional. A igreja enfatiza a cura e os milagres, e, assim como as demais do ramo neopentecostal, investe pesado na mídia através do rádio e TV.

A Igreja Nacional Do Senhor Jesus Cristo - A igreja é presidida por Valnice Milhomens, ex-missionária da Convenção Batista Brasileira na África, lugar onde vai obter seus primeiros contatos com os ensinos da ‘confissão positiva’ através da Escola Bíblica Rhema, braço do ministério de Kenneth Hagin (ROMEIRO, 2005, p.59). Valnice é a fundadora do Ministério Palavra da Fé, seguindo os fundamentos e ideias de Hagin, porém já como pastora funda, em 1994, a Igreja Nacional do Senhor Jesus Cristo (ROMEIRO, 2005, p. 61). Valnice prega e ensina que existem batalhas entre o bem e o mal, no mundo espiritual, pelo corpo de pessoas. Ela é, sem dúvida, uma das principais divulgadoras do movimento G-12 (igreja em células) no Brasil, isso porque se tornou discípula do pastor colombiano Cezar Castelano, criador da visão.

Igreja Bola De Neve - Foi no ano 2000 em que Rinaldo Luiz de Seixas Pereira, o "pastor Rina", fundou a Igreja Evangélica Bola de Neve. Conhecido como o surfista que se tornou pastor, hoje ele é apóstolo. Rinaldo saiu da IARC (Igreja Apostólica Renascer em Cristo), depois de cinco anos de trabalho, e começou essa nova igreja sem formalismos cujo foco é atrair jovens de todas as idades, se despojar de dogmas, usos e costumes. Outra coisa que lhe é peculiar é o uso de todos os ritmos musicais dentro da liturgia do culto.

 Comunidade Cristã Paz E Vida - Rodney, Juanribe, Misael e Hideraldo Pagliarin, quatro irmãos que em 1996 fundaram a igreja Paz e Vida. Esta igreja adota a mesma linha de pregações e cultos das demais igrejas neopentecostais, com muita música, aplausos, sessões de exorcismo, cultos de libertação, prosperidade e cura divina.

Não há como negar que o movimento neopentecostal está vinculado à filosofia ou movimento conhecido como “Confissão Positiva”, com ideias oriundas da “Ciência Cristã”, ou seja, que prega um Deus com uma mente isenta de todo mal, não sendo (Ele) responsável por nada do que acontece em nossa natureza. Para eles “estar com Deus” significa abandonar qualquer tipo de tratamento para apenas nos ligamos ao divino e obtermos saúde e sucesso, somente através dEle. Com isso, “confissão positiva” significa “trazer a existência o que declaramos com nossa boca”, as palavras seriam uma atitude mental positiva responsável por realizar tudo no mundo físico quanto, também, no campo espiritual. Isso se faz com meditação, intuição e hipnose, procurando fazer com que as palavras materializem os pensamentos; se Deus faz tudo através da Palavra, nós como filhos também devemos usar da palavra de fé para alcançarmos nossas necessidades, seja ela uma cura, ou, prosperidade, ou ainda, quebra de uma maldição hereditária, ou simplesmente um trabalho de macumbaria. A ideia é estar livre de qualquer tipo de problema ou aflição, mas, sim, viver o contrário disso.

Willian Kenyon - pastor norte americano da Igreja Batista Nova Aliança,[1] evangelista e escritor e fundador do Movimento Palavra de Fé - se baseia nisso (confissão positiva), para concretizar a ideia da teologia da prosperidade e da saúde perfeita, sendo mais tarde Kenneth Hagin, pastor norte-americano, o nome mais ligado a esse movimento devido a propagação que realizou, tanto que ele é considerado o pai do Movimento de Fé.  R.R. Soares é o principal divulgador do Movimento de Fé (Faith Movement), de Kenneteh Hagin, e seus livros são distribuídos pela Graça Editorial, da Igreja Internacional da Graça de Deus.

 

2.  A força da IURD no cenário Neopentecostal brasileiro: aspectos teológicos e litúrgicos

 

 “Repetitivo, o discurso pregado diariamente pela Universal lida com os mesmos problemas, fornece sempre o mesmo diagnóstico de suas causas e apresenta as mesmas soluções. Para tornar o culto atraente, não enfadonho, algo precisa variar. Variam as formas e a nomenclatura dos rituais ou “correntes” (corrente de Jó, do tapete vermelho, dos 12 apóstolos, do amor, do cheque da abundância, das 91 portas...), assim como o modo de participar deles e o sacrifício (a quantia de dinheiro exigido para o fiel habilitar-se a receber bênçãos. Seu repertório simbólico, além de inusitado nos meios pentecostais que, como o protestantismo reformado, sempre foram avessos ao uso de objetos sagrados (tirante a Bíblia) para não sucumbirem à idolatria, parece ser inesgotável. Indiferente às críticas de outras igrejas evangélicas, a Universal frequentemente distribui aos fiéis objetos benzidos portando poderes mágicos, miraculosos. ” (MARIANO, 1996, p.127-128).

Um grande problema que se nota no meio neopentecostal é uma evidente hermenêutica e teologia própria. As interpretações são individuais, baseadas em emoções ou experiências próprias. Essa prática, segundo Macedo, visa despertar a fé das pessoas. Mas na realidade a verdade é outra, o leigo é influenciado a não quebrar a campanha para não atrair sobre si “males ainda piores” e é envolvido num cerimonial criativo onde o pastor irá consagrar com poder divino alguns objetos para resolver toda espécie de problemas. Por isso, os fieis são estimulados a obterem objetos (rosa, azeite, perfume do amor, saquinho de sal, sal grosso, galho de arruda, aliança, lenço, agua do rio Jordão, xerox da cédula de dinheiro benzida, areia de praia domar da Galiléia, óleo do Monte das Oliveiras, espadas de plástico, cruz, chave, sabonete) que por serem ungidos tornaram-se dotados de qualidades sacrais, poderes terapêuticos e sobrenaturais como explica Mariano.

 

 “Para surtir efeito, porém, os fiéis devem participar das correntes de oração durante determinado período, em geral, sete ou nove dias e, em certos casos, até algumas semanas. A quebra da corrente, ou ausência de algum dos cultos, acarreta o não-recebimento da bênção. A Universal não mede esforços para tirar proveito evangelístico da mentalidade e do simbolismo religiosos brasileiros. Apela deliberadamente para o sincretismo. Para tanto, distribui objetos benzidos, retira “encostos”, desfaz “mau-olhado” e realiza diversos rituais que, ao menos pelo nome, evocam os das religiões inimigas”. (MARIANO, 1996, p.127-128).

 

A visão teológica que a IURD tem desenvolvido no cenário neopentecostal brasileiro fica evidentemente demostrada nas palavras de seu líder “Todas as formas e todos os ramos da teologia são fúteis; não passam de emaranhados de ideias que nada dizem ao inculto, confundem os simples e iludem os sábios. Nada acrescentam à fé e nada fazem pelos homens, a não ser aumentar sua capacidade de discutir e discordar entre si” (MACEDO apud ROMEIRO, 2005, p. 118). O método como a IURD interpreta a bíblia consiste em atualizar as experiências de personagens bíblicos para nossos dias, como se a Bíblia fosse apenas um livro de experiências religiosas, experiências que devem ser revividas, hoje. Na verdade, se alegoriza, mas deixa-se o aspecto histórico de lado. Vamos exemplificar: Se Noé fez uma aliança com Deus, nós também podemos levar nossa necessidade ao Pai e moldar para fazer um acordo que nos caiba. Se Josué derrubou as muralhas de Jericó então podemos rodear sete vezes nossas dificuldades e derrubá-las, ainda que nossa trombeta seja de plástico e a muralha de papelão.

A IURD se distancia do fundamentalismo bíblico ao enfatizar símbolos, ou alegorias em sua liturgia, além do uso excessivo de textos do Antigo Testamento. Veja o nome de algumas campanhas: “fogueira santa de Israel”; “Campanha dos 318 pastores”; “Festa anual da libertação do Egito espiritual” da IURD baseado em Gn 14:14-16; “O ano de Calebe”; Jejum de Gideão”; Campanha das dez bênçãos de Abraão”; Jejum dos salmos de guerra”. Fazem uso de enxofre, óleo ungido, rosa ungida, sal grosso, painéis de foto ungidas, nó em camisas de familiares, copo d’água em cima da TV ou rádio etc. objetos que são ditos como “ungidos”, dando a ideia de objetos dotados de poderes miraculosos, servem para curar, libertar; prosperar, resolver problemas. Deus parece apenas uma força que te dá sorte, e essa sorte se move ao seu favor pela fé, e a fé é demonstrada por práticas, e esse é o objetivo das campanhas, correntes ou pedidos de ofertas e dízimos, fazer com que se pratique a fé.

A Igreja moderna admite as profecias de maldição, mas somente se lembra de ministrar em seus cultos as promessas de benção. É claro que situações negativas são deixadas de lado, como, por exemplo, a tribulação de Jó, ou os sofrimentos de José no Egito. Às vezes, até mesmo textos como Salmo 40 onde Davi diz: “Esperei com paciência pelo Senhor” são alterados de seu sentido, veja o que declara Soares sobre esse texto: “Davi agia assim, pois não era filho de Deus, apenas um servo, nós somos filhos e Deus nosso Pai, não nos deixaria ficar esperando” (SOARES, 1997, p. 27-28). A verdade é que o que era dirigido, antigamente, ao povo hebreu, não é um regulamento para nós nos dias de hoje.

Não somente a IURD, mas boa parte das igrejas Neopentecostais agem de maneira exagerada na questão “prosperidade” e, também, na crença de que toda luta, fracasso ou dificuldades diárias são ataques demoníacos, por isso é proposto o fim do sofrimento com a ajuda divina, e essa ajuda requer um “preço”, um sacrifício; essa entrega, esse dispor é a fé em ação, o que gerará um resultado positivo.

As igrejas usam muito o slogan “pare de sofrer” o que expõe a ideia de uma vida de gozo neste mundo, neste momento, e às vezes enfatiza mais que a própria vida eterna, a ideia é: se somos filhos de Deus, precisamos ter o melhor desta terra.

A verdade que se vê é um investimento do tipo empresarial, só se investe se o retorno for rápido, não se vê uma preocupação com questões como missões, discipulado nem com crescimento espiritual ou doutrina; a preocupação é aumento de patrimônio.  A ideia é sempre a mesma: 1- transmitir a crença de que Deus nunca diz não a seus filhos; 2 - que o sofrimento é sinal de falta de fé, ou pecado; e 3- afirma que pobreza não combina com nossa posição de filhos do Rei, por isso tudo está ligado à oferta, a oferta e o dizimo é a prova de que se creu, é ato de fé. Edir Macedo chega a ter a ousadia de dizer o que escreveu em seu livro “O perfeito sacrifício”, que o dinheiro é o sangue da Igreja, isso por que traz a história das pessoas (seu tempo, suor, inteligência, o esforço de cada um) (MACEDO apud ROMEIRO, 2005, p. 108).

Em um artigo da Folha Universal, Macedo ensina os fiéis a se revoltarem contra coisas ruins. Se uma pessoa não se revoltar contra essa situação ruim, seja ela espiritual, emocional, ou financeira, nunca sairá dela.

R. R. Soares declara que como filhos de Deus devemos “assumir a autoridade de filhos e exigir que sejamos abençoados” ensina que “benção não é esmola” mas sim direito nosso (SOARES, 1997, p. 22; 47-48). Veja o que Soares diz em um de seus artigos: “(...) Prefiro que digam que eu prego o evangelho da prosperidade, pois na verdade, esse é o evangelho que eu propago. (...) O cidadão fala que é de Deus mais fica com o aluguel atrasado, com a barriga vazia... Não creio na miséria. Essa história é conversa de derrotados. São tudo (sic) um bando de fracassados, cujas igrejas são um verdadeiro fracasso. Chega lá. Tem meia dúzia de pessoas para o ouvir...” (SOARES apud ROMEIRO, 2005, p. 112).

Onde entra o arrependimento, a regeneração, santificação, salvação em Cristo? O assunto é sempre vitória, a qualquer preço; o que tem valor é a lei da semeadura, o “é dando que se recebe”, mas o que parece é que os adeptos da teologia da prosperidade esquecem-se da soberania divina.

A verdade é que o que se vê é um culto sem adoração, onde campanhas dão a impressão de que se Deus comparecer é para responder e abençoar, não para ser adorado, mas apenas para atender e servir. Não existe um estudo da palavra de Deus, apenas palavras positivas ditas pelos líderes, palavras do tipo: “você vai vencer”, “Deus vai te fazer prosperar”, “Jesus vai te curar, hoje”. Ao invés da adoração e da entrega de vida, a adoração é considerada apenas quando o “fiel” dá algo para Deus, e é claro que isto diz respeito à oferta.

 

3. O uso de símbolos judaizantes na IURD e suas ressignificações teológicas

 

No que diz respeito às igrejas neopentecostais, é cada vez mais comum a apropriação de símbolos, rituais e trechos da liturgia judaica. Entre eles têm destaque a estrela de David (na bandeira do Estado de Israel ou simplesmente como um ornamento dentro das igrejas), a menorá (candelabro de sete braços), o shofar (chifre de carneiro cujo som tem lugar destacado nas comemorações do Ano Novo Judaico e no Dia da Expiação), o talit (acessório em forma de xale usado pelos judeus ortodoxos), réplicas da Arca da Aliança e passagens escritas em hebraico, tanto nos livros litúrgicos como nas paredes dos prédios dessas igrejas. Em algumas denominações evangélicas é comum que se celebre a Páscoa Judaica e a Festa dos Tabernáculos e a IURD (Igreja Universal do Reino de Deus) organizou em 2007 uma campanha nacional de venda de mezuzot (pequeno rolo de pergaminho, que contém trechos sagrados da Torá, protegido por uma caixinha e pregado nos umbrais das portas de lares e estabelecimentos judaicos). Finalmente, quase todas as igrejas evangélicas organizam viagens a Israel nas quais seus membros e simpatizantes visitam, além dos lugares santos cristãos, os lugares sagrados do judaísmo, como o Monte Sião e o Muro das Lamentações. Paralelamente, apesar de serem menos multitudinárias que as igrejas neopentecostais, as igrejas messiânicas têm se multiplicado nos últimos anos, alcançando uma visibilidade cada vez maior. Sua arquitetura particular, a que se somam os nomes escritos em hebraico na entrada dos templos, como Beit Tsar Israel, Beit Tehsuvá, Ar Tzion e Am Israel, faz com que essas igrejas sejam facilmente confundidas com sinagogas, tanto por judeus como por não-judeus (TOPEL, 2011, p. 37).

No meio neopentecostal o que aparentemente dá certo é imitado por outros líderes, por isso a ideia se alastra e se multiplica. No entanto isto tem levado as pessoas a crenças errôneas sobre o evangelho, então correm atrás de um Deus útil ao invés de um Deus indispensável. Religiões criadas à imagem e semelhança de seu fundador, e não alicerçada na verdade bíblica.  Quem não se lembra da inauguração do chamado “Templo de Salomão”, da Igreja Universal, quando a partir de então os bispos passaram a fazer uso do Tallith (manto/xale usado nas orações matinais) e do Kipá (acessório utilizado acima da cabeça pelos judeus homens). Na verdade, há muitas igrejas querendo viver como judeus adotando práticas descritas no Antigo Testamento, comuns no judaísmo e não no cristianismo.

Isto não é coisa de agora, mas iniciou-se já no período da igreja primitiva por parte de alguns judeus convertidos que ensinavam aos demais, inclusive os que não eram judeus, a guardarem também a lei, pois acreditavam que nela se completava a salvação. Parecia que era difícil para os judeus se desligarem e se entregarem por completo a salvação de Cristo. Paulo reage de maneira enérgica: ele repreende a Pedro, lembrando-o que a justificação não é obra da lei, e, sim, fruto da fé em Cristo Jesus (Gl 2:11-14).

E isso aos olhos do leigo, parece não haver nenhum tipo de problema, mas há. Se tais pastores ou dirigentes se preocupassem mais em pregar a palavra de Deus e conhecê-la, tais absurdos nem passariam perto de nossos templos. Todavia, o desconhecimento e a reengenharia de alguns, aliada ao modismo, têm contaminado nossos púlpitos e tem transformado a liturgia cristã em verdadeiros “vale tudo”.

O evangelho pregado pela IURD e outras igrejas neopentecostais, entendem que as bênçãos de Deus não são frutos de sua maravilhosa graça, mais sim, consequência direta de uma relação do toma-lá-dá-cá. Neste contexto, tudo é feito em nome de Deus e para se conseguir a benção é absolutamente necessário pagar alto! Nesta perspectiva tudo se vende, desde o sal grosso até pequenos frascos contendo água do Rio Jordão. Por favor, reflita sinceramente: Qual a diferença da oferta extorquida do povo sofrido nos dias atuais para venda das indulgências da Idade Média? Qual a diferença dos utensílios vendidos no século XVI, para os que são comercializados em templos da IURD?

Precisamos ter em mente que o sacerdotalismo judaico, a antiga aliança, a tentativa de judaização do cristianismo, a venda de indulgências, ficaram no passado, foram rejeitadas pela igreja primitiva e outras, pela Reforma do século XVI.

Cabe lembrar, que no contexto do livro de Hebreus, o autor enfatiza e defende uma serie de temas focalizando a superioridade de Cristo. Sua primazia e divindade são motivos para todas as criaturas lhe darem louvor. Sua eficácia do único sacrifício perfeito pelos pecados, “porque é impossível que o sangue de touros e de bodes remova pecados” (10:4). O único sacrifício capaz de remover pecados é o próprio Cristo, que se ofereceu “uma vez para sempre para tirar os pecados de muitos” (9:28).  Deus manda que os anjos adorem a Jesus, e apresenta seu Filho de um modo que todos devem admirá-lo. Jesus Cristo é Deus. Esta carta enfatiza a posição de Jesus como nosso Sumo Sacerdote. Nesta capacidade, ele entrou a nosso favor na presença do Pai, onde permanece até hoje. Por meio dele, podemos nos aproximar do trono da graça com a confiança e esperança, sabendo que ele vive para nos ajudar na caminhada para a eternidade. 

O autor escreve para dizer que as práticas judaicas da Antiga Aliança não precisam mais ser seguidas pelos cristãos.

 

Considerações finais

Desta maneira, entendemos que a terceira onda do pentecostalismo no Brasil, iniciada nos anos 70 e conhecida como Neopentecostalismo, trata-se de um sincretismo de ressignificações teológicas entre protestantismo, pentecostalismo, catolicismo romano e religiões afro-brasileiras (inclui-se aqui kardecismo e o Umbandismo), produzindo assim o pluralismo religioso.

Sua ótica potencializada num marketing agressivo, com fortes investimentos na mídia (programas na televisão, rádios e etc) avançam com êxito em todas as camadas sociais, atraindo-as pelas propostas de mudanças de uma vida de sofrimentos, dívidas, vícios, doenças etc. Além do fato de que, sua propaganda massiva de uma Teologia da Prosperidade, baseada numa barganha do “toma lá dá cá” com Deus, tem atraído a muitos, com uma proposta de um retorno fácil e garantido, principalmente porque vivemos numa época e num país de endividados. Por esta razão, o neopentecostalismo se mantém e atrai os fiéis oriundos de diversos campos religiosos (católicos, evangélicos, espíritas etc).

Apesar do sincretismo apresentado pela IURD e de outras igrejas neopentecostais, os mesmos se denominam evangélicos, ou protestantes, e de modo estratégico, não explicitam as rupturas que criam em relação aos sistemas do qual se originaram, quando na verdade já promoveram diversas ressignificações de seus sistemas simbólicos. Motivo estes que tem desagradado os grupos com os quais interagem, motivando assim um relacionamento conflituoso, sejam entre os pentecostais, sejam as religiões de matriz africana.

Tratando particularmente da Igreja Universal do Reino de Deus, as influências judaizantes fazem parte do discurso que põe a divindade para trabalhar em favor dos homens; acreditando no poder das palavras; e convicto que tudo depende da fé e, sendo assim, já não é mais Deus, mas a fé que faz a diferença. Numa sociedade voltada para o consumo e preocupada quanto ao futuro, não é difícil que o “Pare de sofrer” da IURD encontre espaço. É bom salientar que o “Pare de sofrer” não deve ser visto apenas como um mero discurso. Para uma grande maioria a frase de efeito traduz-se em libertação de vícios, na construção de uma nova identidade, na determinação de lutar para melhorar o status social e numa série de outros benefícios enfatizados nos testemunhos dos participantes. O sucesso da IURD depende basicamente de dois fatores: a disposição do fiel para seguir crendo que um dia alcançará as bênçãos e a capacidade da igreja de continuar produzindo um sentido e atrair novos membros. A impressão que se tem é que os líderes da Igreja Universal são conscientes disso, daí, usarem todos os recursos possíveis para manter sua força de atração. Tudo é feito conforme foi ensinado pelo seu líder maior.

Nosso artigo não teve a intenção de esgotar as distorções produzidas pelo neopentecostalismo praticado no Brasil, mas mostrar que esse movimento religioso está baseado no culto ao indivíduo, que se alinha com os interesses hedonistas da sociedade moderna capitalista, que busca no espiritual a solução para suas crises materiais e emocionais. O que se encaixa muito bem na cultura, e hábitos da sociedade brasileira e encontrou nela um campo fértil para essa nova religiosidade.

 

Referências bibliográficas

           

BLEDSOE, David Allen. Movimento neopentecostal brasileiro: um estudo de caso. São Paulo: Hagnos, 2002.

ELIADE, Mircea.  O sagrado e o profano: a essência das religiões. Rogerio Fernandes. São Paulo: Martins Fontes, 2001. p. 191.

MARIANO, Ricardo. Igreja Universal do Reino de Deus: A magia institucionalizada. Revista USP, São Paulo, v 31, p. 127-128, set/nov 1996. Disponível em: < http://www.revistas.usp.br/revusp/article/view/26006/27737> acesso em 15 mar. 2016

 MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Loyola, 1999. 246

ORO, Ari Pedro. O Neopentecostalismo “Macumbeiro”. REVISTA USP, São Paulo, n° 68, p. 319-332, dez/fev., 2005/2006.

PADILHA, Adilmar Luis Martins. A carência e a falência dos púlpitos no movimento evangélico brasileiro: uma visão panorâmica.  Dissertação de mestrado Escola Superior de Teologia, São Leopoldo, 2010.

ROMEIRO, Paulo. Decepcionados com a graça: esperanças e frustações no Brasil neopentecostal, São Paulo: Mundo Cristão,2005

TOPEL, Marta Francisca, Revista Brasileira de História das Religiões (ANPUH), ano IV, n. 10, p. 37, mai. 2011. Disponível em:


 

 

 

 

 

 

 




* Graduandos em Teologia pela Faculdade de Teologia da Universidade Metodista de São Paulo, matrículas: 224.661; 173.758; 134.999. Trabalho de Conclusão de Curso com vistas à obtenção de grau de Bacharel em Teologia, sob a orientação do Profa. Dra. Luana Martins Golin.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

A proliferação dos espetáculos da fé na sociedade contemporânea


Segundo Freud, a sanidade do indivíduo está no confronto dosado entre o princípio do prazer e o princípio da realidade. Contudo em um mundo dominado pela ideologia do entretenimento, promove-se um comportamento patológico decorrente do hiperestímulo do elemento “prazer”, em contraste com a sublimação do referencial da realidade. Um estudo relevante sobre o entretenimento na sociedade moderna foi feito por Neal Gabler que, tomando a sociedade estadunidense como referência, procura entender por que o entretenimento se tornou o seu valor número “um”. Para esse autor,
“de fato, Karl Marx e Joseph Schumpeter parecem ter errado ambos.  Não se trata de nenhum “ismo”, mas talvez o entretenimento seja a força mais poderosa, insidiosa e inelutável de nosso tempo – uma força tão esmagadora que acabou produzindo uma metástase e virando a própria vida”. (GABLER, 2000, p. 17).

Desta maneira, entenda entretenimento como sendo “aquilo que diverte com distração ou recreação” ou “um espetáculo público ou mostra destinada a interessar ou divertir”, na constituição mesma da palavra está presente a ideia de “ter entre”. Isto é, os filmes (cinema), os musicais (shows), os romances e as histórias em quadrinhos (livros), as telenovelas (TV), os jogos eletrônicos, para citar alguns, atraem os indivíduos, “mantendo-os cativos” levando-os cada vez mais para dentro de si mesmos, de suas emoções e sentidos (novamente a ideia de espelho da realidade interior do indivíduo).
            Na sociedade contemporânea esse entretenimento ultrapassa a barreira do mundo secular e chega até as igrejas. A religião passa a ser articulada com o fenômeno comunicacional espetacular moderno. Influenciadas pela mídia, são reformuladas pelas regras próprias do espetáculo (show business) e da indústria do entretenimento. No campo religioso brasileiro especificamente dentro do neopentecostalismo, nota-se o “vale tudo da fé” o que apesar de contestado vem produzindo novas formas de religiosidade. Apesar de muitos entenderem que há um declínio do sagrado, incontestavelmente é impossível mensurar quantas vidas e lares estão recebendo talvez pela primeira vez a palavra de Deus. O que não significa que após o conhecimento tais membros permanecerão nessas igrejas, pois as mesmas não têm sustentação doutrinaria para crescimento da membresia.
O filme “Capital da Fé” de cunho social e político que versa sobre a Igreja Neopentecostal Brasileira, retrata o espetáculo da fé, proposto pelas lideranças e seus adeptos, a apropriação de trechos do evangelho ao bel prazer, cobrança desmedida de dízimos e ofertas, fazem parte da consolidação de um plano de negócios, que, vem crescendo exponencialmente no pais. Tanto é verdade, que os espaços televisivos são disputados com marqueteiros seculares. A essência do filme “Capital da Fé” vai mostrar a crítica ética e a relevância evangélica na sociedade atual. Inclusive a influência que essa mídia televisiva evangélica tem influenciado na política brasileira, pois tem indicado e eleito um considerável número de parlamentares, vide hoje a bancada evangélica no Congresso Nacional.
Algo que gostaria de registrar, e que não se encontra no texto, é o Censo Demográfico de 1980 a 2010, do IBGE, que aponta um crescimento exponencial das Igrejas Protestantes, especialmente os Evangélicos pentecostais e neopentecostais. O censo registra um crescimento dos protestantes (tradicionais, pentecostais e neopentecostais) de 7,8 milhões de pessoas em 1980 para 42,2 milhões em 2010. Sendo que a última década é a mais representativa. Claro que não há estudos a respeito, mas não seria muito difícil vincular grande parte desse crescimento à mídia televisiva dos cultos evangélicos.
Desta forma, as novidades tecnologias como TV, Rádio, Internet, Whatsapp, Facebook, Youtube, Skipe e outras formas diversas que virão, lançarão sempre um desafio à Igreja, que deverá estar preparada e aptada a aproveitar essas novas tecnologias para divulgar de maneira ortodoxa a palavra e o Reino de Deus. Cabe a nós segundo a ordenança do Senhor de Mt 28:18-19, ir, pregar, ensinar e doutrinar àqueles que não conhecem  a boa nova, e não maneira há mais cômoda e fácil que a mídia seja televisiva ou informatizada.  
Precisamos concordar que hoje o entretenimento e o show business invadiram o campo religioso, e transformaram em muitos casos o sagrado num exibicionismo marqueteiro desmedido. Além de que a pompa, a liturgia, o cerimonial, o hinário, foram adaptados a uma nova realidade cúltica, que busca agradar seus novos “clientes”. Todavia, precisamos entender que o mundo se globalizou, falamos ao vivo instantaneamente em qualquer parte do planeta, com altíssima qualidade de imagem e de som. Houve um tempo em que minha filha cursou uma universidade nos Estados Unidos, e a maneira que eu tinha de estar junto dela, diariamente, era o Skipe. A impressão é que ela estava no quarto ao lado do meu. As pessoas aos poucos foram se acostumando a esse conforto da globalização e da informação instantânea em vários segmentos da sociedade inclusive no religioso. A facilidade que a mídia televisiva proporcionou de ver um culto, ouvir uma pregação sem sair de casa, e com a opção de escolher o mensageiro da palavra, aumentou o transito religioso entre a membresia das igrejas, e quebrou o paradigma da pertença religiosa.  Porque essa facilidade de escolha também permite a opção e a comparação.
Entendo que o que está errado não é a tecnologia, nem os novos meios de comunicação, esses são benéficos à humanidade e vieram para ficar, e ainda podemos esperar que na próxima década nos surpreenderemos com mais novidades. Talvez seja o momento de refletirmos melhor sobre essa questão, buscando meios de um melhor aproveitamento dessa tecnologia a favor da palavra de Deus. O fato é que se esse espaço não for ocupado pela Igreja tradicional e conservadora, trazendo a ortodoxia da palavra de Deus, esse mesmo espaço será ocupado por oportunistas do evangelho, o que pode ser um erro irremediável.

Pr Waldemar Neves

Pastor e Bacharel em Teologia pela UMESP

terça-feira, 26 de abril de 2016

A Igreja da Idade Mídia


– Sr. Bispo, precisamos de um novo pastor!
– Há um pastor disponível. É muito estudioso e dedicado.
– Ele toca violão?
– Não, parece que não.
– Que pena... nós precisamos de um que saiba tocar violão...

Nos meus 21 anos de ministério, do outro lado do laicato, tenho presenciado inúmeras reedições do diálogo acima. Raramente, no processo de escolha do pastor, uma comunidade se interessa pela qualidade da biblioteca deste, por sua firmeza doutrinária ou suas raízes na tradição eclesiástica que abraçou.
Não obstante, se o pastor candidato tem talentos musicais (ou pelo menos consegue conduzir satisfatoriamente uma sessão de cânticos) terá maiores chances de encontrar emprego e remuneração diferenciados.
Não há dúvida: hoje, mais vale um violão na mão que uma biblioteca teológica de primeira mão.

A IGREJA DA IDADE MÍDIA

Um modelo modernoso de igreja alternativa, viável e rentável, é o do franchise da fé.
Trata-se de modelo facilmente identificável, haja vista a frequência com que aparece nos meios de comunicação de massa, e a habilidade com que neles se move explorando o agressivo marketing apelidado de gospel.

GOSPEL QUE EU GOSTO

O termo gospel utilizado pelas igrejas da idade da mídia não deve ser confundido, nem identificado, com o estilo musical homônimo de origem afro-norte-americana do final do século XIX. Este último nasceu como forma de resistência de uma cultura oprimida que tentava sobreviver sob uma cultura racista, classista, cruel e intolerante.
O gospel tupiniquim é a adesão a um anglicismo novelístico que gerou um subdialeto gospel-evangélico bastante elástico que comporta muita coisa no campo musical, que vai do rap ao rock passando pelo pop e com algumas incursões, menos frequentes, nos estilos verde-amarelos do tipo baião, samba, sertanejo e assim por diante.
Gospel não é um ritmo ou estilo musical. É uma marca como Coca-cola ou Bombril, com forte apelo comercial.

O NIVELAMENTO POR BAIXO PROMOVIDO PELOS LEIGOS

Com a lacuna cultural da formação do brasileiro, em geral, e a lacuna teológica na catequese do evangélico, em particular, a demanda por esse estilo eclesial e musical cresceu muito.
A rigor, tais músicas gospel carecem de valor artístico-estético, bíblico-teológico e litúrgico-pastoral. Mas o exigente público não o é nesses itens. Sua exigência diz respeito não ao sentido da fé, mas à utilidade da religião. Se ela me ajuda na experiência catártica, se ele corresponde aos meus anseios por prosperidade, se ela aplaca minha consciência transferindo minha culpa para um ser demoníaco, e se, ao falar de um Deus vitorioso e guerreiro satisfaz meus desejos de vingança sublimados, então essa é a minha religião ideal.

O NIVELAMENTO POR BAIXO PROMOVIDO PELO CLERO

Os teólogos, por seu turno, deveriam ir um pouco além e identificar na história do dogma e no registro evangélico as muitas vezes frustrantes venturas e desventuras dos seguidores daquele que, quando na terra, não tinha “onde reclinar a cabeça” (Lc 9.58).
Mas explicar o amor aos inimigos, o chorar com os que choram, o sofrimento por causa de Cristo, a cruz que cada discípulo tem de tomar para segui-lo e sua opção pelos pobres e marginalizados, é realmente bem mais complicado.
É aí que muitos “teólogos” resolvem trocar os compêndios da fé pelos dividendos da mídia. É nessa hora que Barth, Bultmann, Tillich, Lutero, Calvino, Wesley (para não falar em Agostinho, Tomás de Aquino, etc.) dão lugar a certos astros gospel de maior ou menor grandeza.
Os “teólogos” gospel que se fizeram bispos (sic!), profetas e até apóstolos (à revelia de qualquer convenção eclesial e gramatical) se mostram todos ansiosos em atender aos fiéis consumidores gospel com seus melhores produtos.

OS INTELECTUAIS MAUS COMUNICADORES E OS BONS COMUNICADORES MAUS INTELECTUAIS

Sejamos justos. Tecnicamente, eles são melhores comunicadores que os teólogos de verdade. Embora tenham péssimo conteúdo, têm a embalagem certa para o gosto médio da massa religiosa brasileira.
Por outro lado, para que serve um conteúdo de primeira linha numa embalagem inaceitável? O grande desafio aos teólogos de verdade é conseguirem oferecer seu excelente conteúdo numa embalagem mais atrativa.
Se o público compra tanta coisa ruim pela embalagem, seria possível usá-la (a embalagem) para “vender” coisa boa? Se o “meio é a mensagem”, não temos muitas opções. A ética não nos permitiria utilizar certas embalagens. Mas talvez haja uma faixa de tolerância e seja possível achar um meio para a mensagem e uma mensagem para o meio, que correspondam aos valores do Reino.
Se isso não for possível, é melhor aproveitar a Rádio Gospel e anunciar: “Vende-se biblioteca teológica de primeira mão (aceita-se violão como parte do pagamento).”

Créditos:

RAMOS, Luiz Carlos - Publicado em Mosaico – Apoio Pastoral. São Bernardo do Campo: Faculdade de Teologia da Igreja Metodista – Centro de Teologia e Filosofia da UMESP, Ano V, no 4, Agosto /Setembro de 1997, p. 16.