sexta-feira, 5 de agosto de 2016

A CRISE DA ESPIRITUALIDADE NO MOVIMENTO NEOPENTECOSTAL BRASILEIRO.


                                                          
Carlos Eduardo Stracci *

Stanley Barbosa da Rocha*

Waldemar Augusto Neves Junior*

 

 Resumo

Este artigo tem por objetivo mostrar as distorções que tem proliferado no meio evangélico chamado de Neopentecostalismo. O despreparo e a insipiência bíblica de seus líderes ocasionam o esvaziamento da prédica nos púlpitos, com isso o movimento neopentecostal cresce exportando doutrinas e hermenêuticas estranhas à Bíblia e à tradição cristã. Com sua limitada visão do Reino de Deus, aliada a um crescente judaização do cristianismo, vende-se a ideia da prosperidade, saúde e realizações pessoais, baseadas em revelações e profecias de forma que se prioriza a busca pelo prazer humano, por uma horizontalização das conquistas terrenas. Nossa pesquisa pretende analisar tais crenças e mostrar que em alguns casos, a tênue linha entre o sagrado e o profano já foram ultrapassadas. Diante deste quadro, devemos refletir acerca de qual atitude tomar.

 

Palavras-chave: Neopentecostalismo, ressignificações teológicas, IURD.

 

Introdução 

 

Quando assistimos nas televisões e ouvimos nas rádios de todo Brasil as religiões propagando um cristianismo distante de Cristo, o que podemos esperar?

Usando a Bíblia como referência, podemos comparar tais igrejas com a Igreja de Laodicéia citada no livro de Apocalipse que se preocupava com as conquistas financeiras e materiais; diferente da Igreja de Filadélfia que buscava os frutos do espírito.

A Igreja de Laodicéia nos faz lembrar muitas igrejas neopentecostais dos dias atuais, ou talvez, as igrejas neopentecostais dos dias atuais nos faça lembrar da Igreja de Laodicéia. São igrejas que erguem grandes templos, lindas colunas, pisos de mármore, púlpitos de ouro, mas mesmo em toda sua pompa e riqueza são mundanas, populares e egocêntricas. Investem em marketing modernizando o evangelho para atrair multidões, manipulando quem busca a Cristo. Criam campanhas cobradas (pagas), inserem rituais e simbologias que contradizem ao pregarem contra a idolatria. Com este investimento maciço levantam recursos para seu bel-prazer; o dinheiro do dízimo é revertido para o conforto pessoal como na aquisição de carros zero, mansões, etc. Prega-se, ao invés da prosperidade do evangelho, o “evangelho da prosperidade”, e com isso a igreja física torna-se rica, mas, no entanto, pobre diante dos olhos de Deus. Pouco se investe em missões, evangelizações e assistência social, não pregam santidade nem o compromisso com a palavra Deus, somente propagam o compromisso com o próprio estatuto da entidade.

Tornaram-se uma igreja morna onde o “joio” é amigo do “trigo”, onde o homem não tem valor pelo seu caráter e disposição para a obra, mas sim pelos bens materiais que possui. Homens, pregadores e cantores que se proclamam “de deus”, mas não aprenderam o que significa “negar-se a si mesmo”. Cobram cachê para ensinarem o que não lhes pertencem e o que de graça receberam. Igreja que não serve, mas quer ser servida pelos céus, por pura vaidade. Esta igreja está misturada com o mundo e a sua referência é a riqueza material. Por isso é criticada pelo dono da Igreja. É a igreja que produz “virgens imprudentes” - desvia os olhos de seus membros para as coisas terrenas; se ocupam e se distraem com as coisas do mundo. Esta igreja, que se achava rica e forte, foi criticada por seu orgulho e autossuficiência. Exaltou-se, ao invés de se humilhar diante do Senhor dos senhores.

A igreja de Laodicéia, ou a igreja que vende ilusões, acaba se tornando um “Tanque de Betesda” Jo 5, 1-15. No tanque de Betesda os enfermos se reuniam para esperar o movimento das águas que um anjo, vez em quando, as moviam. Quem descesse primeiro às águas quando isso acontecesse era curado de suas enfermidades. Muitos vão à procura de igrejas que promovem curas, libertações, promessas de bênçãos materiais, entretanto, estão ali como se estivessem esperando somente o movimento das águas.

Este artigo vai mostrar os caminhos da igreja para que chegasse aonde chegou; os períodos ou ondas do pentecostalismo brasileiro; as principais denominações e seus líderes, e, suas práticas litúrgicas. Análise que vai do pentecostalismo clássico até o neopentecostalismo atual - o profano no púlpito tomando o lugar daquilo que é sagrado. O abandono da graça, que dá lugar a obras ou práticas religiosas; a judaização do cristianismo, quando práticas ou objetos do Antigo Testamento ganham seus valores místicos. A forte influência da Igreja Universal do Reino de Deus e sua liturgia tão distante da realidade bíblica.

 

1. As ondas do Pentecostalismo no Brasil

Ao se falar no movimento pentecostal brasileiro devemos falar sobre o começo desse movimento nos Estados Unidos, uma vez que nossas igrejas pentecostais tiveram início por lá, ou, de missionários de lá oriundos. O que se sabe do movimento pentecostal americano é que houve várias manifestações de pequena expressão ou de maneira individual, porém com destaque temos o avivamento, em 1895, em Dakota no Norte e o da Carolina do Norte onde 130 pessoas foram batizadas no Espírito Santo; outro em 1901 na cidade de Topeka, estado do Kansas, quando ali ocorreu um seminário – Seminário Bíblico Betel – que alcançou e se alastrou no ano de 1906 para Los Angeles, o famoso avivamento chamado de “Avivamento da Rua Azusa”.

Muitos dizem que a Missão da Rua Azusa é “a mãe do pentecostalismo mundial”; William Seymour era o líder dessa fase inicial e as principais características desse movimento (pentecostal) era o chamado "batismo com o Espírito Santo", considerado um dom do Espirito de Deus conhecido como glossolalia (variedade de línguas), também, curas sobrenaturais, profecias, interpretações de línguas e discernimento de espíritos, dentre outros. Durante o decorrer do tempo o movimento pentecostal foi sofrendo constantes mudanças na medida em que ia interagindo com outros pentecostais e suas diferentes experiências. Essas divisões na história do pentecostalismo, Paul Freston (MARIANO, 2005, p. 28-33) classifica em três fases ou, como ele chama, de “ondas”.


1.1 A Primeira Onda

No Brasil a primeira “onda” acontece entre os períodos de 1910 a aproximadamente 1950. Esse primeiro período é o chamado “período clássico” e as igrejas que se destacam são Assembleia de Deus e Congregação Cristã no Brasil.

Daniel Berg e Gunnar Vingren, de origem sueca, vieram para o Brasil, desceram na cidade de Belém, no Estado do Pará no ano de 1910. Ao chegarem receberam assistência de um pastor Batista, mas logo que começaram a dominar a língua portuguesa, prontamente, colocaram-se a divulgar a mensagem pentecostal. Com a separação entre eles e a Igreja Batista, começam um trabalho chamado Missão de Fé Apostólica, nome mudado para Assembleia de Deus no ano de 1914. Já a CCB foi fundada em 1910 por um italiano oriundo dos Estados Unidos chamado Louis Francescon que já havia sido batizado no Espírito Santo e experimentado a força do “pentecoste” (BLEDSOE, 2002).

 

1.2 Pentecostalismo Pós-Clássico ou Segunda Onda do Pentecostalismo 

São os termos que designam a segunda onda do movimento Pentecostal que surgiu na década de 50, quando chegaram a São Paulo dois missionários, o americano  Harold Williams, e o pastor peruano Jesús Hermirio Vásquez Ramos, ali criaram a Cruzada Nacional de Evangelização com ênfase na cura divina, profecias e no exorcismo, o que o distingue da primeira onda. Iniciaram a evangelização das massas, fazendo uso principalmente do rádio. Fundaram depois a Igreja do Evangelho Quadrangular.

O Brasil para CristoIgreja Pentecostal Deus é AmorIgreja UnidaCasa da Bênção, entre outras, são nomes de destaque nesse período e que se encaixam como sendo da segunda onda (BLEDSOE, 2002).

 

1.3 A Terceira Onda

A terceira onda começa no início dos anos 70 o chamado “movimento Neopentecostal” (neo que dizer novo), por serem mais liberais que os outros momentos vividos pelas outras igrejas. Só de apresentarmos a lista de igrejas que surgiram entre 1977 e 1998 você consegue perceber a diferença dos movimentos: Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Internacional da Graça, Comunidade Paz e Vida, Igreja Renascer em Cristo, Sara Nossa Terra, Igreja Mundial do Poder de Deus, e, mais atualmente, a Igreja Plenitude. De maneira geral, todos esses fazem um forte uso da mídia eletrônica, fazendo bastante o uso do marketing. Esse movimento está em plena atividade e continua crescendo (BLEDSOE, 2002).

No Brasil esse movimento chama a atenção devido ao seu crescimento e influência, hoje, representam quase metade dos grupos pentecostais, sendo o Brasil o país com o maior número de grupos pentecostais do mundo.

Uma das razões de seu crescimento é o fato de ser um movimento que influencia e envolve várias denominações independentes que comungam dessa ideologia teológica, ou seja, o movimento não é uma denominação com estrutura e líder, mas sim um meio de se cultuar. Isso torna até difícil de definir o movimento sendo que diariamente surgem novos grupos distintos, além de parecer que o movimento apenas adota coisas que dão certo, e tem-se a impressão que vivem apenas uma religião sem Deus, com liberdade de crença e doutrina.

O Neopentecostalismo está bem distante do pentecostalismo clássico, embora este tenha sido contaminado por aquele. Mas os berços paradigmáticos de um e de outro são os mesmos. Sua ênfase teológica não é mais cristológica e sim pneumatológica. (MARIANO, 2005, p.55).

 

Foi ano de 1975 que Edir Macedo, R.R. Soares Roberto, Augusto Lopes e os irmãos Samuel e Fidélis Coutinho fundaram a Igreja Cruzada do Caminho Eterno. Dois anos depois Macedo e seu cunhado Soares se separam e fundam a Igreja Universal do Reino de Deus, mas, também, por discordâncias, R.R. Soares em 1980 fundou sua própria igreja, a Internacional da Graça de Deus.

Tanto Edir Macedo quanto Soares eram e haviam saídos da Igreja Nova Vida, fundada pelo canadense Robert McAlister, que já apresentava características bem diferentes das igrejas pentecostais (MARIANO, 2005, p. 55). Perceba que no Brasil a linha que separa as igrejas da chamada segunda onda, conhecidas hoje como pentecostais e as da terceira é muito imperceptível. Podemos dizer que a terceira onda começa a se firmar na cidade do Rio de Janeiro que nos anos 70 se encontrava economicamente decadente. O novo pentecostalismo, também denominado “pentecostalismo autônomo” (CAMPOS, 1999, p. 18) por alguns estudiosos, encontrou solo fértil nessa cultura urbana influenciada pela televisão.

O movimento caminha fazendo uso inteligente dos meios de comunicação de massa, para “nacionalizar” o neopentecostalismo dos Estados Unidos, afinal, se dava certo lá, daria mais certo por aqui.

Como dito antes a Igreja Nova Vida de onde saíra o bispo Macedo e o missionário Soares foi um grande celeiro, pois vários nomes do meio neopentecostal brasileiro saíram de lá, foi de fato um “estágio” para esses futuros líderes. A Igreja Nova Vida foi fundada em 1960, por um canadense chamado Robert McAlister que havia servido à Assembleia de Deus. A Nova Vida investiu muito na mídia e foi a primeira igreja pentecostal a adotar o episcopado no Brasil. A Igreja ensinava o que de mais forte se vê hoje no meio neopentecostal: batalha espiritual e prosperidade.  Quando se diz que a Igreja Vida Nova foi um celeiro pode-se acreditar, pois ali nasceram: a IURD – Igreja Universal do Reino de Deus fundada por Edir Macedo, a Igreja Internacional da Graça de Deus fundada por Romildo R. Soares, e a Igreja Cristo Vive fundada por Miguel Ângelo (ROMEIRO, 2005, p. 50).

Não há nada homogêneo e pelo que se vê também não há interesse nesse meio que algo desse tipo aconteça, ao contrário disso o que se vê é a forte tendência em diversificar e continuar cada um no seu território. Na verdade, o neopentecostalismo é uma nova forma do pentecostal na qual deixou-se de lado a ênfase de se falar em línguas, os dogmas, a segunda vinda do senhor Jesus e até mesmo na salvação eterna, dando lugar ao curandeirismo, exorcismo, batalha espiritual e a prosperidade. É através da fé que o crente tem direito a saúde e sucesso quebrando as barreiras que o diabo quer colocar na vida das pessoas. Por isso, no Brasil, o espiritismo e as religiões afro-brasileiras acabam se tornando os principais inimigos.

As principais igrejas neopentecostais são:

A Igreja Universal Do Reino De Deus - Em 1975 Edir Macedo e já seu cunhado, R.R. Soares juntamente com Roberto Augusto Lopes, e os irmãos Coutinho fundaram a igreja Cruzada do Caminho Eterno, no entanto algumas desavenças fizeram com que Macedo e Soares saíssem e formassem no ano de 1977, o que seria a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). Nenhuma igreja neopentecostal tem a grandeza de influência e se destaca tanto como a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), possivelmente a atual responsável em enviar missionários a partir de uma nação do Terceiro Mundo. Há de se destacar que não há IURD sem bispo Macedo, uma das figuras mais polêmicas da história da religião no Brasil.

A igreja é reconhecida como uma igreja urbana com alta concentração no eixo Rio-São Paulo. Por muitas vezes se intitula como “pronto-socorro” espiritual para os que procuram por um milagre. Em salões alugados ou próprios, em centros de grandes bairros ou em suas catedrais nos centros das grandes cidades, são ministradas de 3 a 5 reuniões diárias, sete dias por semana, todas no estilo quase que idêntico do líder, o bispo Edir Macedo. Verdade é que o sucesso administrativo de Macedo é imitado por outras denominações pentecostais, não pentecostais e até por católicos do meio renovado, chamados carismáticos que combinam o método da benção física, espiritual e financeira, e tudo que está fora do sucesso é atribuído ao diabo.

A Igreja Internacional Da Graça De Deus - Conforme já dito IIGD nasce do mesmo berço que a IURD, começou em 1980, na Rua Lauro Neiva, no Município de Duque de Caxias, Rio de Janeiro. Assemelha-se em parte com a IURD, porém não tem o mesmo dinamismo e, esta, não usa de tanta criatividade quanto aquela. Seu líder, R.R. Soares, acredita que o verdadeiro evangelho é manifestado através de milagres, de curas e libertação de demônios.

A Igreja Apostólica Renascer Em Cristo - Fundada em 1985 pelo “apóstolo” Estevam Hernandes e sua esposa, a bispa Sônia Hernandes. “Desde sua origem a igreja voltou sua atenção para os jovens, usando o rock gospel como meio de atraí-los” (DOLGUIE apud ROMEIRO, 2005, p. 56).

A Igreja Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra - Fundada pelos bispos Robson e Maria Lucia Rodovalho, no ano de 1992, em Brasília. Também como as demais igrejas de linha neopentecostal, a CSNT tem como base a Teologia da Prosperidade, dando também grande importância à quebra de maldições hereditárias.

 Igreja Mundial Do Poder De Deus (IMPD) - Fundada em 1998, em Sorocaba, interior de São Paulo, pelo “apóstolo” Valdemiro Santiago, ex-líder da IURD, onde esteve por 18 anos. A denominação afirma que cresceu mais de 200% só no ano de 2007 e hoje afirma possuir mais de 4.500 templos espalhados pelo território nacional. A igreja enfatiza a cura e os milagres, e, assim como as demais do ramo neopentecostal, investe pesado na mídia através do rádio e TV.

A Igreja Nacional Do Senhor Jesus Cristo - A igreja é presidida por Valnice Milhomens, ex-missionária da Convenção Batista Brasileira na África, lugar onde vai obter seus primeiros contatos com os ensinos da ‘confissão positiva’ através da Escola Bíblica Rhema, braço do ministério de Kenneth Hagin (ROMEIRO, 2005, p.59). Valnice é a fundadora do Ministério Palavra da Fé, seguindo os fundamentos e ideias de Hagin, porém já como pastora funda, em 1994, a Igreja Nacional do Senhor Jesus Cristo (ROMEIRO, 2005, p. 61). Valnice prega e ensina que existem batalhas entre o bem e o mal, no mundo espiritual, pelo corpo de pessoas. Ela é, sem dúvida, uma das principais divulgadoras do movimento G-12 (igreja em células) no Brasil, isso porque se tornou discípula do pastor colombiano Cezar Castelano, criador da visão.

Igreja Bola De Neve - Foi no ano 2000 em que Rinaldo Luiz de Seixas Pereira, o "pastor Rina", fundou a Igreja Evangélica Bola de Neve. Conhecido como o surfista que se tornou pastor, hoje ele é apóstolo. Rinaldo saiu da IARC (Igreja Apostólica Renascer em Cristo), depois de cinco anos de trabalho, e começou essa nova igreja sem formalismos cujo foco é atrair jovens de todas as idades, se despojar de dogmas, usos e costumes. Outra coisa que lhe é peculiar é o uso de todos os ritmos musicais dentro da liturgia do culto.

 Comunidade Cristã Paz E Vida - Rodney, Juanribe, Misael e Hideraldo Pagliarin, quatro irmãos que em 1996 fundaram a igreja Paz e Vida. Esta igreja adota a mesma linha de pregações e cultos das demais igrejas neopentecostais, com muita música, aplausos, sessões de exorcismo, cultos de libertação, prosperidade e cura divina.

Não há como negar que o movimento neopentecostal está vinculado à filosofia ou movimento conhecido como “Confissão Positiva”, com ideias oriundas da “Ciência Cristã”, ou seja, que prega um Deus com uma mente isenta de todo mal, não sendo (Ele) responsável por nada do que acontece em nossa natureza. Para eles “estar com Deus” significa abandonar qualquer tipo de tratamento para apenas nos ligamos ao divino e obtermos saúde e sucesso, somente através dEle. Com isso, “confissão positiva” significa “trazer a existência o que declaramos com nossa boca”, as palavras seriam uma atitude mental positiva responsável por realizar tudo no mundo físico quanto, também, no campo espiritual. Isso se faz com meditação, intuição e hipnose, procurando fazer com que as palavras materializem os pensamentos; se Deus faz tudo através da Palavra, nós como filhos também devemos usar da palavra de fé para alcançarmos nossas necessidades, seja ela uma cura, ou, prosperidade, ou ainda, quebra de uma maldição hereditária, ou simplesmente um trabalho de macumbaria. A ideia é estar livre de qualquer tipo de problema ou aflição, mas, sim, viver o contrário disso.

Willian Kenyon - pastor norte americano da Igreja Batista Nova Aliança,[1] evangelista e escritor e fundador do Movimento Palavra de Fé - se baseia nisso (confissão positiva), para concretizar a ideia da teologia da prosperidade e da saúde perfeita, sendo mais tarde Kenneth Hagin, pastor norte-americano, o nome mais ligado a esse movimento devido a propagação que realizou, tanto que ele é considerado o pai do Movimento de Fé.  R.R. Soares é o principal divulgador do Movimento de Fé (Faith Movement), de Kenneteh Hagin, e seus livros são distribuídos pela Graça Editorial, da Igreja Internacional da Graça de Deus.

 

2.  A força da IURD no cenário Neopentecostal brasileiro: aspectos teológicos e litúrgicos

 

 “Repetitivo, o discurso pregado diariamente pela Universal lida com os mesmos problemas, fornece sempre o mesmo diagnóstico de suas causas e apresenta as mesmas soluções. Para tornar o culto atraente, não enfadonho, algo precisa variar. Variam as formas e a nomenclatura dos rituais ou “correntes” (corrente de Jó, do tapete vermelho, dos 12 apóstolos, do amor, do cheque da abundância, das 91 portas...), assim como o modo de participar deles e o sacrifício (a quantia de dinheiro exigido para o fiel habilitar-se a receber bênçãos. Seu repertório simbólico, além de inusitado nos meios pentecostais que, como o protestantismo reformado, sempre foram avessos ao uso de objetos sagrados (tirante a Bíblia) para não sucumbirem à idolatria, parece ser inesgotável. Indiferente às críticas de outras igrejas evangélicas, a Universal frequentemente distribui aos fiéis objetos benzidos portando poderes mágicos, miraculosos. ” (MARIANO, 1996, p.127-128).

Um grande problema que se nota no meio neopentecostal é uma evidente hermenêutica e teologia própria. As interpretações são individuais, baseadas em emoções ou experiências próprias. Essa prática, segundo Macedo, visa despertar a fé das pessoas. Mas na realidade a verdade é outra, o leigo é influenciado a não quebrar a campanha para não atrair sobre si “males ainda piores” e é envolvido num cerimonial criativo onde o pastor irá consagrar com poder divino alguns objetos para resolver toda espécie de problemas. Por isso, os fieis são estimulados a obterem objetos (rosa, azeite, perfume do amor, saquinho de sal, sal grosso, galho de arruda, aliança, lenço, agua do rio Jordão, xerox da cédula de dinheiro benzida, areia de praia domar da Galiléia, óleo do Monte das Oliveiras, espadas de plástico, cruz, chave, sabonete) que por serem ungidos tornaram-se dotados de qualidades sacrais, poderes terapêuticos e sobrenaturais como explica Mariano.

 

 “Para surtir efeito, porém, os fiéis devem participar das correntes de oração durante determinado período, em geral, sete ou nove dias e, em certos casos, até algumas semanas. A quebra da corrente, ou ausência de algum dos cultos, acarreta o não-recebimento da bênção. A Universal não mede esforços para tirar proveito evangelístico da mentalidade e do simbolismo religiosos brasileiros. Apela deliberadamente para o sincretismo. Para tanto, distribui objetos benzidos, retira “encostos”, desfaz “mau-olhado” e realiza diversos rituais que, ao menos pelo nome, evocam os das religiões inimigas”. (MARIANO, 1996, p.127-128).

 

A visão teológica que a IURD tem desenvolvido no cenário neopentecostal brasileiro fica evidentemente demostrada nas palavras de seu líder “Todas as formas e todos os ramos da teologia são fúteis; não passam de emaranhados de ideias que nada dizem ao inculto, confundem os simples e iludem os sábios. Nada acrescentam à fé e nada fazem pelos homens, a não ser aumentar sua capacidade de discutir e discordar entre si” (MACEDO apud ROMEIRO, 2005, p. 118). O método como a IURD interpreta a bíblia consiste em atualizar as experiências de personagens bíblicos para nossos dias, como se a Bíblia fosse apenas um livro de experiências religiosas, experiências que devem ser revividas, hoje. Na verdade, se alegoriza, mas deixa-se o aspecto histórico de lado. Vamos exemplificar: Se Noé fez uma aliança com Deus, nós também podemos levar nossa necessidade ao Pai e moldar para fazer um acordo que nos caiba. Se Josué derrubou as muralhas de Jericó então podemos rodear sete vezes nossas dificuldades e derrubá-las, ainda que nossa trombeta seja de plástico e a muralha de papelão.

A IURD se distancia do fundamentalismo bíblico ao enfatizar símbolos, ou alegorias em sua liturgia, além do uso excessivo de textos do Antigo Testamento. Veja o nome de algumas campanhas: “fogueira santa de Israel”; “Campanha dos 318 pastores”; “Festa anual da libertação do Egito espiritual” da IURD baseado em Gn 14:14-16; “O ano de Calebe”; Jejum de Gideão”; Campanha das dez bênçãos de Abraão”; Jejum dos salmos de guerra”. Fazem uso de enxofre, óleo ungido, rosa ungida, sal grosso, painéis de foto ungidas, nó em camisas de familiares, copo d’água em cima da TV ou rádio etc. objetos que são ditos como “ungidos”, dando a ideia de objetos dotados de poderes miraculosos, servem para curar, libertar; prosperar, resolver problemas. Deus parece apenas uma força que te dá sorte, e essa sorte se move ao seu favor pela fé, e a fé é demonstrada por práticas, e esse é o objetivo das campanhas, correntes ou pedidos de ofertas e dízimos, fazer com que se pratique a fé.

A Igreja moderna admite as profecias de maldição, mas somente se lembra de ministrar em seus cultos as promessas de benção. É claro que situações negativas são deixadas de lado, como, por exemplo, a tribulação de Jó, ou os sofrimentos de José no Egito. Às vezes, até mesmo textos como Salmo 40 onde Davi diz: “Esperei com paciência pelo Senhor” são alterados de seu sentido, veja o que declara Soares sobre esse texto: “Davi agia assim, pois não era filho de Deus, apenas um servo, nós somos filhos e Deus nosso Pai, não nos deixaria ficar esperando” (SOARES, 1997, p. 27-28). A verdade é que o que era dirigido, antigamente, ao povo hebreu, não é um regulamento para nós nos dias de hoje.

Não somente a IURD, mas boa parte das igrejas Neopentecostais agem de maneira exagerada na questão “prosperidade” e, também, na crença de que toda luta, fracasso ou dificuldades diárias são ataques demoníacos, por isso é proposto o fim do sofrimento com a ajuda divina, e essa ajuda requer um “preço”, um sacrifício; essa entrega, esse dispor é a fé em ação, o que gerará um resultado positivo.

As igrejas usam muito o slogan “pare de sofrer” o que expõe a ideia de uma vida de gozo neste mundo, neste momento, e às vezes enfatiza mais que a própria vida eterna, a ideia é: se somos filhos de Deus, precisamos ter o melhor desta terra.

A verdade que se vê é um investimento do tipo empresarial, só se investe se o retorno for rápido, não se vê uma preocupação com questões como missões, discipulado nem com crescimento espiritual ou doutrina; a preocupação é aumento de patrimônio.  A ideia é sempre a mesma: 1- transmitir a crença de que Deus nunca diz não a seus filhos; 2 - que o sofrimento é sinal de falta de fé, ou pecado; e 3- afirma que pobreza não combina com nossa posição de filhos do Rei, por isso tudo está ligado à oferta, a oferta e o dizimo é a prova de que se creu, é ato de fé. Edir Macedo chega a ter a ousadia de dizer o que escreveu em seu livro “O perfeito sacrifício”, que o dinheiro é o sangue da Igreja, isso por que traz a história das pessoas (seu tempo, suor, inteligência, o esforço de cada um) (MACEDO apud ROMEIRO, 2005, p. 108).

Em um artigo da Folha Universal, Macedo ensina os fiéis a se revoltarem contra coisas ruins. Se uma pessoa não se revoltar contra essa situação ruim, seja ela espiritual, emocional, ou financeira, nunca sairá dela.

R. R. Soares declara que como filhos de Deus devemos “assumir a autoridade de filhos e exigir que sejamos abençoados” ensina que “benção não é esmola” mas sim direito nosso (SOARES, 1997, p. 22; 47-48). Veja o que Soares diz em um de seus artigos: “(...) Prefiro que digam que eu prego o evangelho da prosperidade, pois na verdade, esse é o evangelho que eu propago. (...) O cidadão fala que é de Deus mais fica com o aluguel atrasado, com a barriga vazia... Não creio na miséria. Essa história é conversa de derrotados. São tudo (sic) um bando de fracassados, cujas igrejas são um verdadeiro fracasso. Chega lá. Tem meia dúzia de pessoas para o ouvir...” (SOARES apud ROMEIRO, 2005, p. 112).

Onde entra o arrependimento, a regeneração, santificação, salvação em Cristo? O assunto é sempre vitória, a qualquer preço; o que tem valor é a lei da semeadura, o “é dando que se recebe”, mas o que parece é que os adeptos da teologia da prosperidade esquecem-se da soberania divina.

A verdade é que o que se vê é um culto sem adoração, onde campanhas dão a impressão de que se Deus comparecer é para responder e abençoar, não para ser adorado, mas apenas para atender e servir. Não existe um estudo da palavra de Deus, apenas palavras positivas ditas pelos líderes, palavras do tipo: “você vai vencer”, “Deus vai te fazer prosperar”, “Jesus vai te curar, hoje”. Ao invés da adoração e da entrega de vida, a adoração é considerada apenas quando o “fiel” dá algo para Deus, e é claro que isto diz respeito à oferta.

 

3. O uso de símbolos judaizantes na IURD e suas ressignificações teológicas

 

No que diz respeito às igrejas neopentecostais, é cada vez mais comum a apropriação de símbolos, rituais e trechos da liturgia judaica. Entre eles têm destaque a estrela de David (na bandeira do Estado de Israel ou simplesmente como um ornamento dentro das igrejas), a menorá (candelabro de sete braços), o shofar (chifre de carneiro cujo som tem lugar destacado nas comemorações do Ano Novo Judaico e no Dia da Expiação), o talit (acessório em forma de xale usado pelos judeus ortodoxos), réplicas da Arca da Aliança e passagens escritas em hebraico, tanto nos livros litúrgicos como nas paredes dos prédios dessas igrejas. Em algumas denominações evangélicas é comum que se celebre a Páscoa Judaica e a Festa dos Tabernáculos e a IURD (Igreja Universal do Reino de Deus) organizou em 2007 uma campanha nacional de venda de mezuzot (pequeno rolo de pergaminho, que contém trechos sagrados da Torá, protegido por uma caixinha e pregado nos umbrais das portas de lares e estabelecimentos judaicos). Finalmente, quase todas as igrejas evangélicas organizam viagens a Israel nas quais seus membros e simpatizantes visitam, além dos lugares santos cristãos, os lugares sagrados do judaísmo, como o Monte Sião e o Muro das Lamentações. Paralelamente, apesar de serem menos multitudinárias que as igrejas neopentecostais, as igrejas messiânicas têm se multiplicado nos últimos anos, alcançando uma visibilidade cada vez maior. Sua arquitetura particular, a que se somam os nomes escritos em hebraico na entrada dos templos, como Beit Tsar Israel, Beit Tehsuvá, Ar Tzion e Am Israel, faz com que essas igrejas sejam facilmente confundidas com sinagogas, tanto por judeus como por não-judeus (TOPEL, 2011, p. 37).

No meio neopentecostal o que aparentemente dá certo é imitado por outros líderes, por isso a ideia se alastra e se multiplica. No entanto isto tem levado as pessoas a crenças errôneas sobre o evangelho, então correm atrás de um Deus útil ao invés de um Deus indispensável. Religiões criadas à imagem e semelhança de seu fundador, e não alicerçada na verdade bíblica.  Quem não se lembra da inauguração do chamado “Templo de Salomão”, da Igreja Universal, quando a partir de então os bispos passaram a fazer uso do Tallith (manto/xale usado nas orações matinais) e do Kipá (acessório utilizado acima da cabeça pelos judeus homens). Na verdade, há muitas igrejas querendo viver como judeus adotando práticas descritas no Antigo Testamento, comuns no judaísmo e não no cristianismo.

Isto não é coisa de agora, mas iniciou-se já no período da igreja primitiva por parte de alguns judeus convertidos que ensinavam aos demais, inclusive os que não eram judeus, a guardarem também a lei, pois acreditavam que nela se completava a salvação. Parecia que era difícil para os judeus se desligarem e se entregarem por completo a salvação de Cristo. Paulo reage de maneira enérgica: ele repreende a Pedro, lembrando-o que a justificação não é obra da lei, e, sim, fruto da fé em Cristo Jesus (Gl 2:11-14).

E isso aos olhos do leigo, parece não haver nenhum tipo de problema, mas há. Se tais pastores ou dirigentes se preocupassem mais em pregar a palavra de Deus e conhecê-la, tais absurdos nem passariam perto de nossos templos. Todavia, o desconhecimento e a reengenharia de alguns, aliada ao modismo, têm contaminado nossos púlpitos e tem transformado a liturgia cristã em verdadeiros “vale tudo”.

O evangelho pregado pela IURD e outras igrejas neopentecostais, entendem que as bênçãos de Deus não são frutos de sua maravilhosa graça, mais sim, consequência direta de uma relação do toma-lá-dá-cá. Neste contexto, tudo é feito em nome de Deus e para se conseguir a benção é absolutamente necessário pagar alto! Nesta perspectiva tudo se vende, desde o sal grosso até pequenos frascos contendo água do Rio Jordão. Por favor, reflita sinceramente: Qual a diferença da oferta extorquida do povo sofrido nos dias atuais para venda das indulgências da Idade Média? Qual a diferença dos utensílios vendidos no século XVI, para os que são comercializados em templos da IURD?

Precisamos ter em mente que o sacerdotalismo judaico, a antiga aliança, a tentativa de judaização do cristianismo, a venda de indulgências, ficaram no passado, foram rejeitadas pela igreja primitiva e outras, pela Reforma do século XVI.

Cabe lembrar, que no contexto do livro de Hebreus, o autor enfatiza e defende uma serie de temas focalizando a superioridade de Cristo. Sua primazia e divindade são motivos para todas as criaturas lhe darem louvor. Sua eficácia do único sacrifício perfeito pelos pecados, “porque é impossível que o sangue de touros e de bodes remova pecados” (10:4). O único sacrifício capaz de remover pecados é o próprio Cristo, que se ofereceu “uma vez para sempre para tirar os pecados de muitos” (9:28).  Deus manda que os anjos adorem a Jesus, e apresenta seu Filho de um modo que todos devem admirá-lo. Jesus Cristo é Deus. Esta carta enfatiza a posição de Jesus como nosso Sumo Sacerdote. Nesta capacidade, ele entrou a nosso favor na presença do Pai, onde permanece até hoje. Por meio dele, podemos nos aproximar do trono da graça com a confiança e esperança, sabendo que ele vive para nos ajudar na caminhada para a eternidade. 

O autor escreve para dizer que as práticas judaicas da Antiga Aliança não precisam mais ser seguidas pelos cristãos.

 

Considerações finais

Desta maneira, entendemos que a terceira onda do pentecostalismo no Brasil, iniciada nos anos 70 e conhecida como Neopentecostalismo, trata-se de um sincretismo de ressignificações teológicas entre protestantismo, pentecostalismo, catolicismo romano e religiões afro-brasileiras (inclui-se aqui kardecismo e o Umbandismo), produzindo assim o pluralismo religioso.

Sua ótica potencializada num marketing agressivo, com fortes investimentos na mídia (programas na televisão, rádios e etc) avançam com êxito em todas as camadas sociais, atraindo-as pelas propostas de mudanças de uma vida de sofrimentos, dívidas, vícios, doenças etc. Além do fato de que, sua propaganda massiva de uma Teologia da Prosperidade, baseada numa barganha do “toma lá dá cá” com Deus, tem atraído a muitos, com uma proposta de um retorno fácil e garantido, principalmente porque vivemos numa época e num país de endividados. Por esta razão, o neopentecostalismo se mantém e atrai os fiéis oriundos de diversos campos religiosos (católicos, evangélicos, espíritas etc).

Apesar do sincretismo apresentado pela IURD e de outras igrejas neopentecostais, os mesmos se denominam evangélicos, ou protestantes, e de modo estratégico, não explicitam as rupturas que criam em relação aos sistemas do qual se originaram, quando na verdade já promoveram diversas ressignificações de seus sistemas simbólicos. Motivo estes que tem desagradado os grupos com os quais interagem, motivando assim um relacionamento conflituoso, sejam entre os pentecostais, sejam as religiões de matriz africana.

Tratando particularmente da Igreja Universal do Reino de Deus, as influências judaizantes fazem parte do discurso que põe a divindade para trabalhar em favor dos homens; acreditando no poder das palavras; e convicto que tudo depende da fé e, sendo assim, já não é mais Deus, mas a fé que faz a diferença. Numa sociedade voltada para o consumo e preocupada quanto ao futuro, não é difícil que o “Pare de sofrer” da IURD encontre espaço. É bom salientar que o “Pare de sofrer” não deve ser visto apenas como um mero discurso. Para uma grande maioria a frase de efeito traduz-se em libertação de vícios, na construção de uma nova identidade, na determinação de lutar para melhorar o status social e numa série de outros benefícios enfatizados nos testemunhos dos participantes. O sucesso da IURD depende basicamente de dois fatores: a disposição do fiel para seguir crendo que um dia alcançará as bênçãos e a capacidade da igreja de continuar produzindo um sentido e atrair novos membros. A impressão que se tem é que os líderes da Igreja Universal são conscientes disso, daí, usarem todos os recursos possíveis para manter sua força de atração. Tudo é feito conforme foi ensinado pelo seu líder maior.

Nosso artigo não teve a intenção de esgotar as distorções produzidas pelo neopentecostalismo praticado no Brasil, mas mostrar que esse movimento religioso está baseado no culto ao indivíduo, que se alinha com os interesses hedonistas da sociedade moderna capitalista, que busca no espiritual a solução para suas crises materiais e emocionais. O que se encaixa muito bem na cultura, e hábitos da sociedade brasileira e encontrou nela um campo fértil para essa nova religiosidade.

 

Referências bibliográficas

           

BLEDSOE, David Allen. Movimento neopentecostal brasileiro: um estudo de caso. São Paulo: Hagnos, 2002.

ELIADE, Mircea.  O sagrado e o profano: a essência das religiões. Rogerio Fernandes. São Paulo: Martins Fontes, 2001. p. 191.

MARIANO, Ricardo. Igreja Universal do Reino de Deus: A magia institucionalizada. Revista USP, São Paulo, v 31, p. 127-128, set/nov 1996. Disponível em: < http://www.revistas.usp.br/revusp/article/view/26006/27737> acesso em 15 mar. 2016

 MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Loyola, 1999. 246

ORO, Ari Pedro. O Neopentecostalismo “Macumbeiro”. REVISTA USP, São Paulo, n° 68, p. 319-332, dez/fev., 2005/2006.

PADILHA, Adilmar Luis Martins. A carência e a falência dos púlpitos no movimento evangélico brasileiro: uma visão panorâmica.  Dissertação de mestrado Escola Superior de Teologia, São Leopoldo, 2010.

ROMEIRO, Paulo. Decepcionados com a graça: esperanças e frustações no Brasil neopentecostal, São Paulo: Mundo Cristão,2005

TOPEL, Marta Francisca, Revista Brasileira de História das Religiões (ANPUH), ano IV, n. 10, p. 37, mai. 2011. Disponível em:


 

 

 

 

 

 

 




* Graduandos em Teologia pela Faculdade de Teologia da Universidade Metodista de São Paulo, matrículas: 224.661; 173.758; 134.999. Trabalho de Conclusão de Curso com vistas à obtenção de grau de Bacharel em Teologia, sob a orientação do Profa. Dra. Luana Martins Golin.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

A proliferação dos espetáculos da fé na sociedade contemporânea


Segundo Freud, a sanidade do indivíduo está no confronto dosado entre o princípio do prazer e o princípio da realidade. Contudo em um mundo dominado pela ideologia do entretenimento, promove-se um comportamento patológico decorrente do hiperestímulo do elemento “prazer”, em contraste com a sublimação do referencial da realidade. Um estudo relevante sobre o entretenimento na sociedade moderna foi feito por Neal Gabler que, tomando a sociedade estadunidense como referência, procura entender por que o entretenimento se tornou o seu valor número “um”. Para esse autor,
“de fato, Karl Marx e Joseph Schumpeter parecem ter errado ambos.  Não se trata de nenhum “ismo”, mas talvez o entretenimento seja a força mais poderosa, insidiosa e inelutável de nosso tempo – uma força tão esmagadora que acabou produzindo uma metástase e virando a própria vida”. (GABLER, 2000, p. 17).

Desta maneira, entenda entretenimento como sendo “aquilo que diverte com distração ou recreação” ou “um espetáculo público ou mostra destinada a interessar ou divertir”, na constituição mesma da palavra está presente a ideia de “ter entre”. Isto é, os filmes (cinema), os musicais (shows), os romances e as histórias em quadrinhos (livros), as telenovelas (TV), os jogos eletrônicos, para citar alguns, atraem os indivíduos, “mantendo-os cativos” levando-os cada vez mais para dentro de si mesmos, de suas emoções e sentidos (novamente a ideia de espelho da realidade interior do indivíduo).
            Na sociedade contemporânea esse entretenimento ultrapassa a barreira do mundo secular e chega até as igrejas. A religião passa a ser articulada com o fenômeno comunicacional espetacular moderno. Influenciadas pela mídia, são reformuladas pelas regras próprias do espetáculo (show business) e da indústria do entretenimento. No campo religioso brasileiro especificamente dentro do neopentecostalismo, nota-se o “vale tudo da fé” o que apesar de contestado vem produzindo novas formas de religiosidade. Apesar de muitos entenderem que há um declínio do sagrado, incontestavelmente é impossível mensurar quantas vidas e lares estão recebendo talvez pela primeira vez a palavra de Deus. O que não significa que após o conhecimento tais membros permanecerão nessas igrejas, pois as mesmas não têm sustentação doutrinaria para crescimento da membresia.
O filme “Capital da Fé” de cunho social e político que versa sobre a Igreja Neopentecostal Brasileira, retrata o espetáculo da fé, proposto pelas lideranças e seus adeptos, a apropriação de trechos do evangelho ao bel prazer, cobrança desmedida de dízimos e ofertas, fazem parte da consolidação de um plano de negócios, que, vem crescendo exponencialmente no pais. Tanto é verdade, que os espaços televisivos são disputados com marqueteiros seculares. A essência do filme “Capital da Fé” vai mostrar a crítica ética e a relevância evangélica na sociedade atual. Inclusive a influência que essa mídia televisiva evangélica tem influenciado na política brasileira, pois tem indicado e eleito um considerável número de parlamentares, vide hoje a bancada evangélica no Congresso Nacional.
Algo que gostaria de registrar, e que não se encontra no texto, é o Censo Demográfico de 1980 a 2010, do IBGE, que aponta um crescimento exponencial das Igrejas Protestantes, especialmente os Evangélicos pentecostais e neopentecostais. O censo registra um crescimento dos protestantes (tradicionais, pentecostais e neopentecostais) de 7,8 milhões de pessoas em 1980 para 42,2 milhões em 2010. Sendo que a última década é a mais representativa. Claro que não há estudos a respeito, mas não seria muito difícil vincular grande parte desse crescimento à mídia televisiva dos cultos evangélicos.
Desta forma, as novidades tecnologias como TV, Rádio, Internet, Whatsapp, Facebook, Youtube, Skipe e outras formas diversas que virão, lançarão sempre um desafio à Igreja, que deverá estar preparada e aptada a aproveitar essas novas tecnologias para divulgar de maneira ortodoxa a palavra e o Reino de Deus. Cabe a nós segundo a ordenança do Senhor de Mt 28:18-19, ir, pregar, ensinar e doutrinar àqueles que não conhecem  a boa nova, e não maneira há mais cômoda e fácil que a mídia seja televisiva ou informatizada.  
Precisamos concordar que hoje o entretenimento e o show business invadiram o campo religioso, e transformaram em muitos casos o sagrado num exibicionismo marqueteiro desmedido. Além de que a pompa, a liturgia, o cerimonial, o hinário, foram adaptados a uma nova realidade cúltica, que busca agradar seus novos “clientes”. Todavia, precisamos entender que o mundo se globalizou, falamos ao vivo instantaneamente em qualquer parte do planeta, com altíssima qualidade de imagem e de som. Houve um tempo em que minha filha cursou uma universidade nos Estados Unidos, e a maneira que eu tinha de estar junto dela, diariamente, era o Skipe. A impressão é que ela estava no quarto ao lado do meu. As pessoas aos poucos foram se acostumando a esse conforto da globalização e da informação instantânea em vários segmentos da sociedade inclusive no religioso. A facilidade que a mídia televisiva proporcionou de ver um culto, ouvir uma pregação sem sair de casa, e com a opção de escolher o mensageiro da palavra, aumentou o transito religioso entre a membresia das igrejas, e quebrou o paradigma da pertença religiosa.  Porque essa facilidade de escolha também permite a opção e a comparação.
Entendo que o que está errado não é a tecnologia, nem os novos meios de comunicação, esses são benéficos à humanidade e vieram para ficar, e ainda podemos esperar que na próxima década nos surpreenderemos com mais novidades. Talvez seja o momento de refletirmos melhor sobre essa questão, buscando meios de um melhor aproveitamento dessa tecnologia a favor da palavra de Deus. O fato é que se esse espaço não for ocupado pela Igreja tradicional e conservadora, trazendo a ortodoxia da palavra de Deus, esse mesmo espaço será ocupado por oportunistas do evangelho, o que pode ser um erro irremediável.

Pr Waldemar Neves

Pastor e Bacharel em Teologia pela UMESP

terça-feira, 26 de abril de 2016

A Igreja da Idade Mídia


– Sr. Bispo, precisamos de um novo pastor!
– Há um pastor disponível. É muito estudioso e dedicado.
– Ele toca violão?
– Não, parece que não.
– Que pena... nós precisamos de um que saiba tocar violão...

Nos meus 21 anos de ministério, do outro lado do laicato, tenho presenciado inúmeras reedições do diálogo acima. Raramente, no processo de escolha do pastor, uma comunidade se interessa pela qualidade da biblioteca deste, por sua firmeza doutrinária ou suas raízes na tradição eclesiástica que abraçou.
Não obstante, se o pastor candidato tem talentos musicais (ou pelo menos consegue conduzir satisfatoriamente uma sessão de cânticos) terá maiores chances de encontrar emprego e remuneração diferenciados.
Não há dúvida: hoje, mais vale um violão na mão que uma biblioteca teológica de primeira mão.

A IGREJA DA IDADE MÍDIA

Um modelo modernoso de igreja alternativa, viável e rentável, é o do franchise da fé.
Trata-se de modelo facilmente identificável, haja vista a frequência com que aparece nos meios de comunicação de massa, e a habilidade com que neles se move explorando o agressivo marketing apelidado de gospel.

GOSPEL QUE EU GOSTO

O termo gospel utilizado pelas igrejas da idade da mídia não deve ser confundido, nem identificado, com o estilo musical homônimo de origem afro-norte-americana do final do século XIX. Este último nasceu como forma de resistência de uma cultura oprimida que tentava sobreviver sob uma cultura racista, classista, cruel e intolerante.
O gospel tupiniquim é a adesão a um anglicismo novelístico que gerou um subdialeto gospel-evangélico bastante elástico que comporta muita coisa no campo musical, que vai do rap ao rock passando pelo pop e com algumas incursões, menos frequentes, nos estilos verde-amarelos do tipo baião, samba, sertanejo e assim por diante.
Gospel não é um ritmo ou estilo musical. É uma marca como Coca-cola ou Bombril, com forte apelo comercial.

O NIVELAMENTO POR BAIXO PROMOVIDO PELOS LEIGOS

Com a lacuna cultural da formação do brasileiro, em geral, e a lacuna teológica na catequese do evangélico, em particular, a demanda por esse estilo eclesial e musical cresceu muito.
A rigor, tais músicas gospel carecem de valor artístico-estético, bíblico-teológico e litúrgico-pastoral. Mas o exigente público não o é nesses itens. Sua exigência diz respeito não ao sentido da fé, mas à utilidade da religião. Se ela me ajuda na experiência catártica, se ele corresponde aos meus anseios por prosperidade, se ela aplaca minha consciência transferindo minha culpa para um ser demoníaco, e se, ao falar de um Deus vitorioso e guerreiro satisfaz meus desejos de vingança sublimados, então essa é a minha religião ideal.

O NIVELAMENTO POR BAIXO PROMOVIDO PELO CLERO

Os teólogos, por seu turno, deveriam ir um pouco além e identificar na história do dogma e no registro evangélico as muitas vezes frustrantes venturas e desventuras dos seguidores daquele que, quando na terra, não tinha “onde reclinar a cabeça” (Lc 9.58).
Mas explicar o amor aos inimigos, o chorar com os que choram, o sofrimento por causa de Cristo, a cruz que cada discípulo tem de tomar para segui-lo e sua opção pelos pobres e marginalizados, é realmente bem mais complicado.
É aí que muitos “teólogos” resolvem trocar os compêndios da fé pelos dividendos da mídia. É nessa hora que Barth, Bultmann, Tillich, Lutero, Calvino, Wesley (para não falar em Agostinho, Tomás de Aquino, etc.) dão lugar a certos astros gospel de maior ou menor grandeza.
Os “teólogos” gospel que se fizeram bispos (sic!), profetas e até apóstolos (à revelia de qualquer convenção eclesial e gramatical) se mostram todos ansiosos em atender aos fiéis consumidores gospel com seus melhores produtos.

OS INTELECTUAIS MAUS COMUNICADORES E OS BONS COMUNICADORES MAUS INTELECTUAIS

Sejamos justos. Tecnicamente, eles são melhores comunicadores que os teólogos de verdade. Embora tenham péssimo conteúdo, têm a embalagem certa para o gosto médio da massa religiosa brasileira.
Por outro lado, para que serve um conteúdo de primeira linha numa embalagem inaceitável? O grande desafio aos teólogos de verdade é conseguirem oferecer seu excelente conteúdo numa embalagem mais atrativa.
Se o público compra tanta coisa ruim pela embalagem, seria possível usá-la (a embalagem) para “vender” coisa boa? Se o “meio é a mensagem”, não temos muitas opções. A ética não nos permitiria utilizar certas embalagens. Mas talvez haja uma faixa de tolerância e seja possível achar um meio para a mensagem e uma mensagem para o meio, que correspondam aos valores do Reino.
Se isso não for possível, é melhor aproveitar a Rádio Gospel e anunciar: “Vende-se biblioteca teológica de primeira mão (aceita-se violão como parte do pagamento).”

Créditos:

RAMOS, Luiz Carlos - Publicado em Mosaico – Apoio Pastoral. São Bernardo do Campo: Faculdade de Teologia da Igreja Metodista – Centro de Teologia e Filosofia da UMESP, Ano V, no 4, Agosto /Setembro de 1997, p. 16.

domingo, 6 de março de 2016

O VALE TUDO da fé


SINCRETISMO + NEOJUDAIMO + MAGIA INSTITUCIONALIZADA

A terceira onda do pentecostalismo brasileira também conhecida como neopentecostalismo, cujo um dos seus maiores expoentes no Brasil é a multinacional Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), tem lançado mão, em seus cultos, de recursos nada ortodoxos para a pregação da palavra de Deus. Com uma mistura de ressignificações teológicas, simbologias, rejudaização do cristianismo e uma evidente volta ao sacerdotalismo a IURD tem pregado alguma coisa parecida com o cristianismo, mas sem dúvida, longe, mais muito longe da santa doutrina. Além do fato que, as práticas marqueteiras “macedianas” serem dignas de inveja aos mais renomados donos de agencia de propaganda do país. Todavia, precisamos reconhecer que, com seu sucesso financeiro, ela também influi em outras denominações neopentecostais, e o principal motivo é a insipiência bíblica. O que é muito preocupante.

Recentemente, Paulo Ribeiro[i] escreveu na revista da USP, cujo título era “ IGREJA UNIVERSAL DO REINO DE DEUS: A MAGIA INSTITUCIONALIZADA; CORRENTES DE ORAÇÃO, OBJETOS BENZIDOS, PRÁTICAS SINCRÉTICAS”
Repetitivo, o discurso pregado diariamente pela Universal lida com os mesmos problemas, fornece sempre o mesmo diagnóstico de suas causas e apresenta as mesmas soluções. Para tornar o culto atraente, não enfadonho, algo precisa variar. Variam as formas e a nomenclatura dos rituais ou “correntes” (corrente de Jó, do tapete vermelho, dos 12 apóstolos, do amor, do cheque da abundância, das 91 portas...), assim como o modo de participar deles e o sacrifício (a quantia de dinheiro exigido para o fiel habilitar-se a receber bênçãos. Seu repertório simbólico, além de inusitado nos meios pentecostais que, como o protestantismo reformado, sempre foram avessos ao uso de objetos sagrados (tirante a Bíblia) para não sucumbirem à idolatria, parece ser inesgotável. Indiferente às críticas de outras igrejas evangélicas, a Universal frequentemente distribui aos fiéis objetos benzidos portando poderes mágicos, miraculosos. Essa prática, segundo Macedo, visa despertar a fé das pessoas. Depois de consagrados e anunciados como imbuídos de poder divino para resolver problemas de toda espécie, eles são distribuídos em rituais criativos, tendo por referência qualquer passagem ou personagens bíblicos. Não encerram caráter meramente simbólico. Os fiéis só se submetem a pagar as ofertas estipuladas para obter tais objetos (rosa, azeite, perfume do amor, saquinho de sal, sal grosso, galho de arruda, aliança, lenço, água do rio Jordão, xerox de cédula de dinheiro benzida, areia de praia do mar da Galiléia, óleo do Monte das Oliveiras, espada de plástico, cruz, chave, sabonete...) porque crêem piamente que eles estejam dotados de qualidades sacrais, poderes terapêuticos e sobrenaturais. Para surtir efeito, porém, os fiéis devem participar das correntes de oração durante determinado período, em geral, sete ou nove dias e, em certos casos, até algumas semanas. A quebra da corrente, ou ausência de algum dos cultos, acarreta o não-recebimento da bênção. Quanto aos objetos distribuídos nestas correntes, da mesma forma que na umbanda, por exemplo, os pastores recomendam que eles sejam ora colocados na comida, ora jogados num rio, ora passados no corpo, ora guardados na carteira, carregados pelo fiel e daí por diante. Além disso, documentos, alimentos, peças de vestuário, fotografias são benzidos cotidianamente nos cultos. Tendo em vista o caráter rotineiro de tais práticas, causa estranheza que um bispo da Universal tenha, em dois programas da rede Record, desferido socos e chutes numa imagem da padroeira do Brasil, protagonizando o maior incidente religioso na história recente do país, para combater a idolatria católica. Pois as práticas da Universal mencionadas encerram crença idêntica à contida no ato de cultuar) imagens de santos (negada pela cúpula da CNBB, mas efetuada largamente pelos católicos): a crença de que Deus age através de objetos a Ele consagrados por seus intermediários terrenos. Se é assim, por que o bispo da Universal ironizou a desfuncionalidade e impotência da imagem da santa católica? Ele o fez porque defende a exclusividade de sua igreja na intermediação do poder divino e, por consequência, na dotação de poderes sobrenaturais a objetos. A desqualificação da concorrência, nesse caso, teve menos a ver com estreiteza dogmática do que com ação estratégica na disputa pelo mercado religioso. A Universal não mede esforços para tirar proveito evangelístico da mentalidade e do simbolismo religiosos brasileiros. Apela deliberadamente para o sincretismo. Para tanto, distribui objetos benzidos, retira “encostos”, desfaz “mau-olhado” e realiza diversos rituais que, ao menos pelo nome, evocam os das religiões inimigas. Efetua rituais de “fechamento do corpo”, rito típico dos cultos afro-brasileiros, visando a proteção espiritual do fiel. Com sua peculiar “corrente da mesa branca”, alude igualmente ao kardecismo. No dia de Cosme e Damião oferece “balas ungidas” para as crianças, concorrendo com a prática umbandista de distribuição de doces aos erês. Noutra referência à umbanda, a Universal, vez ou outra, mas sempre às sextas-feiras, promove ritual de descarrego, no qual o fiel é aspergido com galhos de arruda, molhados em bacias com água benta e sal, para que manifeste demônios e deles seja liberto. Às vezes o fiel a leva para captar os males presentes em sua casa e nos moradores. Transferidos os males para a arruda, ela é levada de volta à igreja para ser queimada. O pastor e deputado federal Paulo De Velasco (PSD/SP) justifica o uso da arruda pela Universal como estratégia para “utilizar o que está arraigado no subconsciente coletivo brasileiro” ou “trabalhar em cima” do que as pessoas acreditam. Especialistas em marketing não fariam melhor.   

Tais práticas “macedianas”, desconhecidas até então pelos protestantes, e sem sombra de dúvida idolatras em nada tem contribuído para a pregação sadia da palavra de Deus.

Marta Francisca Topel[ii], Revista Brasileira de História das Religiões. ANPUH, Ano IV, n. 10, escreve:
“No que diz respeito às igrejas neopentecostais, é cada vez mais comum a apropriação de símbolos, rituais e trechos da liturgia judaica. Entre eles têm destaque a estrela de David (na bandeira do Estado de Israel ou simplesmente como um ornamento dentro das igrejas), a menorá (candelabro de sete braços), o shofar (chifre de carneiro cujo som tem lugar destacado nas comemorações do Ano Novo Judaico e no Dia da Expiação), o talit (acessório em forma de xale usado pelos judeus ortodoxos), réplicas da Arca da Aliança e passagens escritas em hebraico, tanto nos livros litúrgicos como nas paredes dos prédios dessas igrejas. Em algumas denominações evangélicas é comum que se celebre a Páscoa Judaica e a Festa dos Tabernáculos e a IURD (Igreja Universal do Reino de Deus) organizou em 2007 uma campanha nacional de venda de mezuzot (pequeno rolo de pergaminho, que contém trechos sagrados da Torá, protegido por uma caixinha e pregado nos umbrais das portas de lares e estabelecimentos judaicos). Finalmente, quase todas as igrejas evangélicas organizam viagens a Israel nas quais seus membros e simpatizantes visitam, além dos lugares santos cristãos, os lugares sagrados do judaísmo, como o Monte Sião e o Muro das Lamentações. Paralelamente, apesar de serem menos multitudinárias que as igrejas neopentecostais, as igrejas messiânicas têm se multiplicado nos últimos anos, alcançando uma visibilidade cada vez maior. Sua arquitetura particular, a que se somam os nomes escritos em hebraico na entrada dos templos, como Beit Tsar Israel, Beit Tehsuvá, Ar Tzion e Am Israel, faz com que essas igrejas sejam facilmente confundidas com sinagogas, tanto por judeus como por não-judeus. ”

E isso aos olhos do leigo, parece não haver nenhum tipo de problema, mais há. Se tais pastores ou dirigentes se preocupassem mais em pregar a palavra de Deus e conhece-la, tais absurdos nem passariam perto de nossos templos. Todavia o desconhecimento, e a reengenharia de alguns, aliada ao modismo, tem contaminado nossos púlpitos e tem transformado a liturgia cristã em verdadeiros ”vale tudo”.
Tanto o Catolicismo Romano como o evangelho pregado pela IURD entendem que as bênçãos de Deus não são frutos de sua maravilhosa graça, mais sim, consequência direta de uma relação baseada na troca ou no toma-lá-dá-cá. Neste contexto, tudo é feito em nome de Deus e para se conseguir a benção é absolutamente necessário pagar e pagar alto! Nesta perspectiva tudo se vende, desde o sal grosso até pequenos frascos contendo água do Rio Jordão. Por favor, responda sinceramente: Qual a diferença da oferta extorquida do povo sofrido nos dias atuais para venda das indulgências da idade média? Qual a diferença dos utensílios vendidos no século XVI, para os que comercializados em nos templos da IURD?
Leitor precisamos ter em mente que o sacerdotalismo judaico acabou, a antiga aliança acabou, a tentativa de rejudaização do cristianismo acabou, a recatolização medieval das indulgência acabou, esta foi rejeitada ainda na igreja primitiva, e que são vários os textos  neotestamentários, que afirmam isto, todavia, não cabe a este artigo abranger a todos.
Mas cabe lembrar, o contexto do livro de Hebreus para saber o que está sendo tratado, o autor é desconhecido, e as maiores pendencias da história da igreja são: para que os pregadores cristãos da época fizessem uma advertência a cristãos que eram judeus e agora devido a perseguição sofrida dos romanos pela igreja queriam voltar a ser judeus.
O autor escreve para dizer que o judaísmo acabou que não há nada lá para traz, que a antiga dispensação acabou.
O livro tem uma tese, a tese é esta a superioridade de Cristo, Cristo é superior aos anjos, é superior a Moisés, é superior a Arão, é superior aos sacerdotes, é superior a Levi, tudo em Jesus é superior.
A Igreja não é a continuação do antigo Israel, a Igreja cristã é a maior instituição de Deus sobre a terra, é a noiva de Cristo, e precisa ser tratada como tal.
Fiquemos com o que o Apóstolo Paulo nos ensinou , em 1Co 1.23: “nós, porém, pregamos a Cristo crucificado
                                                                                                                     







[i][i] R E V I S T A U S P, S Ã O P A U L O ( 31 ) : 1 2 0 - 1 3 1 , S E T E M B R O / N O V E M B R O 1 9 9 6   artigo de R I C A R D O  M A R I A N O  IGREJA UNIVERSAL DO REINO DE DEUS: A MAGIA INSTITUCIONALIZADA

[ii] Revista Brasileira de História das Religiões. ANPUH, Ano IV, n. 10, Maio 2011 - ISSN 1983-2850

sábado, 5 de março de 2016

PROTESTANTISMO ou NEOJUDAISMO

Jo 2:1 As bodas de Caná. (leia o texto)
Na estrutura do quarto evangelho, este é o primeiro milagre de Jesus. A transformação de água em vinho, num casamento numa aldeia obscura. Em João 20.20-31 lemos que os sinais que estão registrados no quarto evangelho assim o foram para que os leitores cressem que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e assim, crendo, tivessem vida em seu nome.
A escolha deste evento e sua inserção como o primeiro milagre de Jesus faz parte do plano de trabalho de João. Foi colocado ali premeditadamente. Não é um acidente. Quer dizer alguma coisa. Há uma mensagem na estrutura bem planejada do quarto evangelho e João nos ensina tanto pelo que diz como pela forma que diz. Ensina no conteúdo e na forma.
Mais uma questão: João não usa a palavra “milagre”. Usa o termo “sinal”, como lemos no versículo 11. O termo grego é sémeion, que tem dois aspectos, um demonstrativo e outro expressivo. Ao chamar o evento de sémeion, no versículo 11, João está demonstrando e expressando uma verdade.  Ele quer sinalizar alguma coisa. O que ele está demonstrando e expressando vale mais que o evento.
Prestem atenção nos dois limites do evento. Primeiro, a expressão inicial: “três dias depois”.  Aumenta o sentido da sinalização a forma como o evangelista inicia o relato. Tais palavras se tornaram expressivas, designando a saída de Jesus da morte, com o que sua autoridade foi completamente manifesta.  Depois, como termina: “manifestou a sua glória”.  Que estranho! Manifestou a sua glória num casamento na roça?  João fala da glória de Jesus em 1.14, mas de forma mais bem elaborada teologicamente: “o Verbo se fez carne….e vimos a sua glória” (1.14). Uma expressão limite alude à encarnação. A outra alude à ressurreição. O texto é teológico, portanto.
Feitas estas considerações, fixemo-nos nesta questão: o que significa, na teologia de João, a colocação da transformação da água em vinho como primeiro milagre? Por que João o chama de sémeion? Por que João põe estes contornos ao fazer seu relato? Em outras palavras, o que este sinal quer dizer? Para responder adequadamente, vamos analisar três figuras que aparecem na história: o casamento, o vinho e o Messias, que não aparece explicitamente, mas implicitamente, na forma de João montar sua história.
  1. A FIGURA DO CASAMENTO
Por que o primeiro sinal acontece num casamento?
A figura do casamento está presente nos ensinos evangélicos, como vemos em duas parábolas contadas por Jesus, a das bodas (Mt 22.1) e a das acompanhantes de uma noiva, chamada impropriamente de parábola das virgens (Mt 25.1). Digo impropriamente porque o que está em foco ali não é a virgindade, mas o acompanhamento de uma noiva.  É uma figura significativa, o do matrimônio. Era a maior festa na vida de uma pessoa e marcava sua existência para sempre. Era um sinal de sua maturidade a ponto de poder constituir uma nova unidade familiar.
Na teologia hebraica, a figura do casamento serviu para registrar o berith, a aliança, entre Yahweh e Israel. O profeta Oséias, por exemplo, estrutura seu livro sobre a figura do casamento iniciado com o Êxodo e definido na aliança mosaica. No pensamento hebraico posterior, a festa de casamento passou a ser um símbolo do encontro de Israel com o messias, quando haveria um festim messiânico, como registrado em Isaías 55, o convite era para que todos se cheguem, comam e bebam de graça. A vinda do messias seria a restauração do casamento entre Yahweh e Israel, a reafirmação da aliança.  Um momento de pura alegria. Na instituição da ceia do Senhor, embora seja este um evento triste, Jesus fala da consumação do seu reino como um banquete, com vinho sendo oferecido, como lemos em Mateus 26.29. A figura de uma festa messiânica está presente por todo Novo Testamento.  Em Apocalipse 19.7-8 temos o encontro final do Cordeiro com a Igreja, também retratado por um casamento. Reconheço que estas figuras foram usadas depois do evento de Caná, mas seu uso mostra que a figura era conhecida, fazia parte do pensamento religioso hebreu. Não foram empregadas no éter, sem uma conexão com a cultura e teologia hebraicas. Foram utilizadas porque diziam alguma coisa.
Pois bem, no relato joanino, Jesus começa suas atividades numa festa de casamento. O ensino começa a se delinear: o tempo do messias chegou. Jesus é o messias. O evento de Caná é mais que o simples registro histórico do primeiro milagre de Jesus. No ensino de João, este milagre simboliza a passagem da antiga para a nova aliança. Precisamos prestar atenção neste fato. O autor de Hb 8:13, repete isto, dizendo que a nova aliança substituiu a antiga que acabou.
A glória de Jesus foi manifestada, enfatiza João. Como e porquê? Volto a perguntar: manifestou sua glória numa festa na roça?  Não, há algo mais aqui. Simbolicamente, está surgindo a Igreja porque a nova aliança começa a ser mostrada.  No relato há um noivo. Ele aparece. Não se fala da noiva. Ela é omitida. Ela vai ser criada ao longo do Novo Testamento, a esposa do Cordeiro, a Igreja de Jesus.
O primeiro sémeion tinha que ser num casamento porque um dos ensinos mais fortes na teologia de João é mostrar que Jesus veio para fazer aquilo que Moisés não conseguiu, como no famoso discurso do pão, no capítulo 6. Ali Jesus mostra que Moisés não deu o pão do céu, mas que ele, Jesus, é o verdadeiro pão do céu: “Em verdade, em verdade vos digo: não foi Moisés quem vos deu o pão do céu; o verdadeiro pão do céu é meu Pai quem vos dá (…) Eu sou o pão da vida; o que vem a mim jamais terá fome; e o que crê em mim jamais terá sede” (Jo 6.32, 35). Da mesma forma, é com ele que o verdadeiro festim messiânico, que a nova aliança entre Deus e os homens, vai se firmar. O que Moisés não conseguiu trazer, Jesus trará. Ele é o messias que se manifesta numa comemoração de casamento, símbolo do encontro do messias com o seu povo.
A FIGURA DO VINHO
O vinho é, nas Escrituras, símbolo da alegria. No livro de Cânticos, está ligado ao amor conjugal, símbolo da aliança. Jesus se faz presente trazendo vinho, a alegria de uma festa de casamento.
Os rabinos haviam desenvolvido uma curiosa alegoria envolvendo os amonitas e Melquisedeque.  Em Deuteronômio 23.3-4, os amonitas recusaram-se a oferecer pão e vinho aos israelitas. Foram tomados como um símbolo dos gentios. Melquisedeque veio ao encontro de Abraão com pão e vinho, em Gênesis 14.18-20. Tornou-se um tipo do messias. O messias, nesta linha de pensamento rabínico, traria vinho para alegrar a vida dos hebreus, na festa messiânica.
O vinho tornou-se, também, símbolo da torah, a lei, nas analogias rabínicas. Assim como o vinho alegrava a vida, a torah alegrava a alma.
Não há vinho em Caná, símbolo da antiga aliança, a mosaica. A antiga ordem não pode satisfazer o homem nem lhe traz a alegria que ele espera. Aparecem, no texto, seis talhas de pedra. Não são talhas para uso doméstico, em cozinha, banho ou lavagem de roupas. São para o ritual de purificação cerimonial dos hebreus.  As talhas de purificação, na festa de casamento, símbolo do encontro com o messias, estão vazias. A palavra grega usada para o verbo “encher” é gêmizo, que significa encher algo completamente vazio, seco. As talhas não estão parcialmente vazias. Estão secas, completamente secas. A antiga aliança secou-se. As talhas são de pedra. A lei de Moisés foi escrita em pedra. As talhas são seis e não sete. Até isto tem sentido. Seis é o número da imperfeição. Tanto que o número da Besta é 666. Tudo mostra que a antiga ordem é desnecessária porque não tem mais o que oferecer aos homens. A antiga aliança está sem condições de trazer alegria para os homens. Ela teve seu tempo. Passou e um novo momento vai começar agora.
Vivemos dias delicados no movimento evangélico.  Caminhamos para um período pós-denominacional. Reconhecer isto é diferente de desejar isto. Não desejo, mas vejo isto. As pessoas não estão interessadas em denominação. Outro problema é a rejudaização que se vê em nosso meio. Estão tentando trazer as talhas de volta. Assim como a purificação no judaísmo estava associada às regrinhas e à religiosidade humana, tenta-se trazer este tipo de procedimento de volta.  Novenas religiosas, com correntes de tantos dias em uma determinada igreja, de preferência contribuindo todos os dias. O ressurgimento de sacramentos, de gestual, de palavras sagradas, da fé reduzida a uma celebração que acontece num determinado lugar, num determinado dia, comandada por uma determinada pessoa. É o ressurgimento do sacerdotalismo da antiga aliança. E alguns pastores protestantes tem tido esse comportamento com a implantação de vestimentas judaicas, como o talit e o kipá para os cultos evangélicos.
As talhas estão secas, mas querem sua permanência em nosso meio, ressuscitando o judaísmo, com caravanas a Israel para rebatismo no rio Jordão.
As talhas estão secas, mas querem seu ressurgimento com areia santa do rio Jordão, com folha de oliveira ungida do monte das Oliveiras, com água ungida do Jordão, com sal grosso do mar Morto para afastar maus espíritos.  Tentam trazer as talhas de volta com as bugigangas neo e baixo-pentecostais.
Talhas secas é indício de festa sem vinho. Não há aliança com as talhas. Não há purificação, não há realização, não há o messias na antiga aliança.
O sacerdotalismo que hoje se tenta ressuscitar, com a figura do homem ungido, com poderes especiais que os demais não têm, com um acesso a Deus que os demais não têm, com uma oração poderosa que os demais não têm, acabou. Não há porque ressuscitá-lo. “Ora, todo sacerdote se apresenta, dia após dia, a exercer o serviço sagrado e a oferecer muitas vezes os mesmos sacrifícios que nunca jamais podem remover pecados” (Hb 10.11). 
Não há porque ressuscitar o judaísmo, não há espaço para o neojudaísmo que se vê em nossa teologia.
As talhas estão secas, a aliança do passado acabou, o tempo pré-messias se esgotou. Só a nova aliança pode satisfazer o homem: “Jesus, porém, tendo oferecido, para sempre, um único sacrifício pelos pecados, assentou-se à destra de Deus (….) porque, com uma única oferta aperfeiçoou para sempre quantos estão sendo santificados” (Hb 10.12,14).
O evangelho corre hoje o risco de uma rejudaização em forma e em conteúdo. É preciso que nos centremos na nova aliança, na doutrina do sacerdócio universal de todos os salvos, que todos têm acesso a Deus e os mesmos direitos espirituais, que a venda de indulgências que se verifica no cenário evangélico hoje é uma deturpação da graça de Jesus e um retorno aos momentos pré-Reforma.
As talhas da aliança passada estão secas. Não temos que nos prender às nossas raízes judaicas, como querem alguns.  Temos que nos prender às nossas raízes neotestamentárias, aferrar-nos à mensagem da graça e da fé, do Deus que salva os que creem em Jesus Cristo. A mensagem que apregoa a necessidade de arrependimento e fé. Não há cerimônias, não há rituais, não há novenas nem correntes. É graça, é fé, é o sacerdócio universal de todos os crentes.
Jesus está numa festa de casamento. É o messias, que supera Moisés. João 1.17 diz que “a lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo”.  Ele é o pão do céu, que Moisés não deu, mas o Pai dá aos homens (Jo 6.31-33). O vinho não está nas talhas de purificação do judaísmo. O vinho vem com ele, com um gesto seu. Isto é significativo: ele traz a torah. Ele traz o verdadeiro ensino.
As talhas estão ali, secas, completamente vazias. Ninguém pode enchê-las, só ele pode fazer isto. Só ele purifica, só ele traz a alegria e a realização espiritual. Só ele pode tornar o banquete messiânico real. Sem sua presença, a festa seria um fracasso. Ele é o pão e ele é o vinho. Ele é o alimento. Ele é a razão da festa.
Ele tem um vinho superior. O mestre-sala é um profundo conhecedor de vinho. Conhece bem os vários tipos desta bebida. Ele prova os dois e diz que o segundo vinho é melhor. O vinho de Jesus, a torah de Jesus, o ensino de Jesus, é melhor que o vinho da antiga aliança, que aliás, já acabou e deixou as pessoas frustradas. Quem diz isso é uma pessoa que provou os dois.
As talhas da antiga aliança estão vazias. Só há purificação em Jesus, não mais em rituais sacerdotalistas. Ele limpa, ele purifica: “Vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado” (Jo 15.3). Quem já se lavou pela sua palavra, não precisa mais de banho: “Quem já se banhou não necessita de lavar senão os pés; quanto ao mais está todo limpo” (Jo 13.10). Ele limpa a vida para sempre. Não há necessidade de ritual de purificação. Ele fez isso de uma vez por todas, no Calvário. Não há bênçãos fora dele. Não há salvação fora dele. Não há realização espiritual fora dele. Não precisamos mais das talhas do passado. Ele não tem ligação com o sistema do passado. O vinho não estava na talha e a água não foi tornada em vinho dentro da talha. Não é a talha que está em cena, é a ação de Jesus. É a sua palavra, a sua ordem. Não há como compatibilizar os dois nem como remendar nenhum dos dois. O sistema passado caducou, o novo se levanta e prevalece.
Ele manifestou a sua glória, mostrando que as coisas antigas passaram e que uma nova ordem estava começando. “Se alguém está em Cristo, nova criação é; as coisas velhas já passaram e eis que tudo fez novo” (2Co 5.17). O evangelho é o vinho novo que é melhor que o vinho velho, que é o judaísmo. A graça e a verdade que ele veio trazer são melhores que a lei de Moisés. Por isso, nada de regrinhas, de complicados sistemas religiosos, de mortificações, de retorno ao passado sacerdotal. Jesus desburocratizou a religião. Não há sacerdotes detentores de autoridade exclusiva. Todos são sacerdotes na nova ordem. Não há sacramentos. Não há palavras mágicas, não há ritos mágicos nem cultos mágicos. Devemos dizer não à rejudaização e à recatolização que nos assolam. O evangelho traz esta mensagem: cada um de nós está diante de Deus, como seu próprio sacerdote.

CONCLUSÃO
Podemos recusar o rótulo de protestantes. Pessoalmente sempre achei esta discussão meio ociosa. Mas devemos nos prender à mensagem da Reforma: só a graça, só a fé, só Cristo, só a Escritura. Não às revelações de homens e mulheres especiais, não ao profetismo veterotestamentário, não ao sacerdotalismo judaico, não à clericalização de nossas igrejas. Não à adição de qualquer coisa a Cristo.
Sim ao sacerdócio universal de todos os crentes. Sim ao profetismo universal de todos os crentes. Sim à graça. Sim ao evangelho. Sim à simplicidade. Sim à revelação completa em Jesus. Chega de insistir com as talhas. Elas estão secas e não têm água, muito menos vinho. Jesus é o vinho de Deus. Ele basta. Por isso, sim à suficiência de Cristo. Precisamos reafirmar isto com todas as nossas forças: Cristo basta. Preguemos com todo o nosso vigor a suficiência de Cristo. Rejeitemos com o mesmo vigor toda e qualquer tentativa de trazer as talhas de volta. Somos cristãos e não judeus. Alguns cristãos parecem ter vergonha de serem cristãos. Gostariam de ser judeus. Usam até o chapeuzinho de judeus. Isto porque o raciocínio teológico de alguns é assim: quando Israel rejeitou a Jesus, Deus ficou perdido, desculpem a expressão vulgar, “no mato sem cachorro”, precisando de um povo. Então escolheu a Igreja, como um par de muletas. Recebemos as sobras do amor de Deus. Está errado. A Igreja foi escolhida desde a eternidade (Ef 1.4) e entrará na eternidade. Ela veio da eternidade, entrou na história, e voltará para a eternidade. Ela é fantástica. É a única instituição antes e pós história. Israel era o rascunho e a Igreja, o projeto final. Deus não salva por etnia nem por ato cirúrgico. Deus só salva crentes em Jesus Cristo. Israel precisa se converter a Cristo para ser salvo. Somos a verdadeira descendência de Abraão, pela fé.  Somos filhos de Deus porque Jesus Cristo perdoou nossos pecados e nos ligou ao Pai para sempre. Amarremo-nos à graça, amarremo-nos à cruz de Jesus, amarremo-nos à simplicidade do evangelho:  Jesus Cristo, poder de Deus para salvação de todo aquele que crê.


Uma homenagem póstuma ao Pr. Coelho filho, I.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Saul e a Pitonisa de En-dor

Saul e a pitonisa de En-dor 
(1 Sm 28.3-25)


Uma das maiores frustações da minha caminhada cristã, foi quando ainda neófito na fé procurei meu pastor para perguntar-lhe sobre a passagem acima. Meu questionamento na época foi: “Se Deus sempre proibiu a necromancia, por que ele havia permitido que o Rei Saul infringisse essa lei divina e consultasse uma feiticeira?” Para a minha surpresa a resposta foi: “Neste caso Deus permitiu!”

Ahhhh! “neste caso Deus permitiu”, fiquei atônito, decepcionado, como pode? Seria possível que Deus mudasse sua palavra em função de alguns? Não, não consegui aceitar aquela resposta. Ela viria destruir tudo aquilo que eu havia construído na minha fé.

Muitas vezes respostas inconsequentes como esta podem destruir a fé, não foi o caso, muito pelo contrário a minha indignação me levou a outra direção.

Voltemos ao texto: Por quê a Bíblia traz a passagem sobre Saul e a feiticeira de En-dor? (1 Sm 28.3-25).

Uma explicação plausível é que desde a pré-história de Israel até a edição do Pentateuco, Israel passou por três fases, a saber: do politeísmo; a monolatria intolerante até chegar na monoteísmo radical. A edição dos livros da Lei, dá-se no século VI aC por composição deuteronomista dos livros do Pentateuco e dos profetas anteriores, sob a influência de um rigoso monoteísmo radical que impunha sobre a idolatria todo o peso da destruição de Israel do norte. Nesse contexto de reformulação da religião, e a unificação do povo baseada no culto ao Deus único, tais reformadores provavelmente tenham banido do povo todos os costumes e mitos considerados ameaçadores e ofensivos a Yahweh.

O fato da história contada em 1 Sm 28.3-25, entre a consulta de Saul e a feiticeira, serve de exemplo para o povo da rejeição de Yahweh a tais atos e serviu de alerta às gerações futuras que tais leis não foram revogadas.
Lembramos que, embora proibidos, os ritos de necromancia eram conhecidos em Israel, tanto que seu próprio rei recorre à prática e convence a mulher a executá-la. Tendemos a acreditar que, na verdade, as prescrições acerca dos ritos podem ser um indicativo do quão conhecidos eles deviam ser: a Lei regia que os mortos não podiam ajudar e nem ser ajudados, que qualquer forma de culto aos espíritos era rejeitada e que consultas mediúnicas aos mortos deveriam ser punidas com apedrejamento (Cf. Lv 19.26, 31; 20.6, 27; Dt 18.9-12). Esta última normativa é ameaçadora e pode muito bem ter tido força de repressão em virtude de uma situação vigente. No entanto e curiosamente, mesmo que as normativas e proibições sinalizem que a prática pode ter existido entre os antigos israelitas, o Pentateuco não apresenta quaisquer sinais destes cultos, o que imediatamente nos remete às perguntas: estes sinais teriam sido removidos antes que os livros fossem editados? Por qual motivo? Em que ponto na história israelita Deus teria proibido a necromancia e de que forma as pessoas ouviram essa proibição?

Em algum momento teria havido em Israel uma prática autorizada destes ritos nos moldes daqueles encontrados nas redondezas? Do que consistiam? Qual era sua motivação? Mary Douglas[1] entende que essa mudança veio com o livro de Levíticos, descrito por ela como “uma religião totalmente reformada”. Pode ser que esta religião reformada, quem sabe em função de uma unificação do povo baseada no culto à um Deus único, tenha banido os ritos de necromancia ao considerá-los ofensivos ou ameaçadores do princípio de singularidade cúltica adotado. Uma hipótese que nos ocorre neste momento, quem sabe paralela a esta última, é a de que a ausência de pistas destes rituais pudessem influenciar que outras gerações tomassem contato com a antiga prática, em preservação da Aliança. Contudo, as perguntas anteriores e outras que se possam levantar permanecem difíceis de serem respondidas, especialmente em razão da ausência de material específico paralelo ao texto sagrado e que remonte ao período em questão. Assim, toda lacuna que se busque preencher não encontrará mais que alternativas hipotéticas.

Vejamos mais uma delas: no imaginário do Israel pré-exílio desde que a morte também representava o fim de todos os relacionamentos, inclusive com a divindade, uma hipótese é a de que a proibição dos ritos de necromancia teria se dado em função de um distanciamento da ideia de que os mortos “sobrevivem” em algum outro tipo de existência à parte do governo de Yahweh, podendo manter um relacionamento entre si e com os vivos à revelia do Deus de Israel, assumindo um status de deuses ou semideuses. Talvez a aceitação dessa ideias significasse o estabelecimento de um panteão, mesmo que formando por deuses de um tipo inferior. Lembremos que na história de Saul e a mulher de En-dor, quando invocado, Samuel aparece como uma espécie de semideus, capaz até mesmo de conhecer o futuro. A mulher de En-dor não classifica a imagem que lhe aparece como um fantasma, mas como um ser divino, um “elohim” (1 Sm 28.13).

Uma possibilidade é que as celebrações funerárias com banquetes, rituais de exorcismo, aplacamentos e consultas aos mortos, etc. tenham sido suplantados em algum momento na história de Israel por motivos que podem ir desde a aversão israelita aos cultos vizinhos até a organização nacional em torno do monoteísmo.








[1] 1921-2007 – Antropóloga e Teóloga