Jo 2:1 As bodas de Caná. (leia o texto)
Na estrutura do quarto evangelho, este é o primeiro milagre de Jesus. A transformação de água em vinho, num casamento numa aldeia obscura. Em João 20.20-31 lemos
que os sinais que estão registrados no quarto evangelho assim o foram para que
os leitores cressem que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e assim,
crendo, tivessem vida em seu nome.
A escolha deste evento e sua inserção como o primeiro milagre de Jesus
faz parte do plano de trabalho de João. Foi colocado ali premeditadamente. Não
é um acidente. Quer dizer alguma coisa. Há uma mensagem na estrutura bem
planejada do quarto evangelho e João nos ensina tanto pelo que diz como pela
forma que diz. Ensina no conteúdo e na forma.
Mais uma questão: João não usa a palavra “milagre”. Usa o termo “sinal”,
como lemos no versículo 11. O termo grego é sémeion, que tem dois
aspectos, um demonstrativo e outro expressivo. Ao chamar o evento de sémeion,
no versículo 11, João está demonstrando e expressando uma verdade. Ele
quer sinalizar alguma coisa. O que ele está demonstrando e expressando vale
mais que o evento.
Prestem atenção nos dois limites do evento. Primeiro, a expressão
inicial: “três dias depois”. Aumenta o sentido da sinalização a forma
como o evangelista inicia o relato. Tais palavras se tornaram expressivas,
designando a saída de Jesus da morte, com o que sua autoridade foi
completamente manifesta. Depois, como termina: “manifestou a sua
glória”. Que estranho! Manifestou a sua glória num casamento na
roça? João fala da glória de Jesus em 1.14, mas de forma mais bem
elaborada teologicamente: “o Verbo se fez carne….e vimos a sua glória” (1.14).
Uma expressão limite alude à encarnação. A outra alude à ressurreição. O texto
é teológico, portanto.
Feitas estas considerações, fixemo-nos nesta questão: o que significa,
na teologia de João, a colocação da transformação da água em vinho como
primeiro milagre? Por que João o chama de sémeion? Por que João põe
estes contornos ao fazer seu relato? Em outras palavras, o que este sinal quer
dizer? Para responder adequadamente, vamos analisar três figuras que aparecem
na história: o casamento, o vinho e o Messias, que não aparece explicitamente,
mas implicitamente, na forma de João montar sua história.
- A FIGURA DO CASAMENTO
Por que o primeiro sinal acontece num casamento?
A figura do casamento está presente nos ensinos evangélicos, como vemos
em duas parábolas contadas por Jesus, a das bodas (Mt 22.1) e a das
acompanhantes de uma noiva, chamada impropriamente de parábola das virgens (Mt
25.1). Digo impropriamente porque o que está em foco ali não é a virgindade,
mas o acompanhamento de uma noiva. É uma figura significativa, o do
matrimônio. Era a maior festa na vida de uma pessoa e marcava sua existência
para sempre. Era um sinal de sua maturidade a ponto de poder constituir uma
nova unidade familiar.
Na teologia hebraica, a figura do casamento serviu para registrar
o berith, a aliança, entre Yahweh e Israel. O profeta Oséias,
por exemplo, estrutura seu livro sobre a figura do casamento iniciado com o Êxodo
e definido na aliança mosaica. No pensamento hebraico posterior, a festa de
casamento passou a ser um símbolo do encontro de Israel com o messias, quando
haveria um festim messiânico, como registrado em Isaías 55, o convite era para
que todos se cheguem, comam e bebam de graça. A vinda do messias seria a
restauração do casamento entre Yahweh e Israel, a reafirmação da aliança.
Um momento de pura alegria. Na instituição da ceia do Senhor, embora seja este
um evento triste, Jesus fala da consumação do seu reino como um banquete, com
vinho sendo oferecido, como lemos em Mateus 26.29. A figura de uma festa
messiânica está presente por todo Novo Testamento. Em Apocalipse 19.7-8
temos o encontro final do Cordeiro com a Igreja, também retratado por um
casamento. Reconheço que estas figuras foram usadas depois do evento de Caná,
mas seu uso mostra que a figura era conhecida, fazia parte do pensamento
religioso hebreu. Não foram empregadas no éter, sem uma conexão com a cultura e
teologia hebraicas. Foram utilizadas porque diziam alguma coisa.
Pois bem, no relato joanino, Jesus começa suas atividades numa festa de
casamento. O ensino começa a se delinear: o tempo do messias chegou. Jesus é o
messias. O evento de Caná é mais que o simples registro histórico do primeiro
milagre de Jesus. No ensino de João, este milagre simboliza a passagem da
antiga para a nova aliança. Precisamos prestar atenção neste fato. O autor de
Hb 8:13, repete isto, dizendo que a nova aliança substituiu a antiga que
acabou.
A glória de Jesus foi manifestada, enfatiza João. Como e porquê? Volto a
perguntar: manifestou sua glória numa festa na roça? Não, há algo mais
aqui. Simbolicamente, está surgindo a Igreja porque a nova aliança começa a ser
mostrada. No relato há um noivo. Ele aparece. Não se fala da noiva. Ela é
omitida. Ela vai ser criada ao longo do Novo Testamento, a esposa do Cordeiro,
a Igreja de Jesus.
O primeiro sémeion tinha que ser num casamento porque
um dos ensinos mais fortes na teologia de João é mostrar que Jesus veio para
fazer aquilo que Moisés não conseguiu, como no famoso discurso do pão, no
capítulo 6. Ali Jesus mostra que Moisés não deu o pão do céu, mas que ele, Jesus,
é o verdadeiro pão do céu: “Em verdade, em verdade vos digo: não foi Moisés
quem vos deu o pão do céu; o verdadeiro pão do céu é meu Pai quem vos dá (…) Eu
sou o pão da vida; o que vem a mim jamais terá fome; e o que crê em mim jamais
terá sede” (Jo 6.32, 35). Da mesma forma, é com ele que o verdadeiro festim
messiânico, que a nova aliança entre Deus e os homens, vai se firmar. O que
Moisés não conseguiu trazer, Jesus trará. Ele é o messias que se manifesta numa
comemoração de casamento, símbolo do encontro do messias com o seu povo.
A FIGURA DO VINHO
O vinho é, nas Escrituras, símbolo da alegria. No livro de
Cânticos, está ligado ao amor conjugal, símbolo da aliança. Jesus se faz
presente trazendo vinho, a alegria de uma festa de casamento.
Os rabinos haviam desenvolvido uma curiosa alegoria envolvendo os
amonitas e Melquisedeque. Em Deuteronômio 23.3-4, os amonitas
recusaram-se a oferecer pão e vinho aos israelitas. Foram tomados como um
símbolo dos gentios. Melquisedeque veio ao encontro de Abraão com pão e vinho,
em Gênesis 14.18-20. Tornou-se um tipo do messias. O messias, nesta linha
de pensamento rabínico, traria vinho para alegrar a vida dos hebreus, na festa
messiânica.
O vinho tornou-se, também, símbolo da torah, a lei, nas
analogias rabínicas. Assim como o vinho alegrava a vida, a torah alegrava
a alma.
Não há vinho em Caná, símbolo da antiga aliança, a mosaica. A antiga
ordem não pode satisfazer o homem nem lhe traz a alegria que ele espera.
Aparecem, no texto, seis talhas de pedra. Não são talhas para uso doméstico, em
cozinha, banho ou lavagem de roupas. São para o ritual de purificação
cerimonial dos hebreus. As talhas de purificação, na festa de casamento,
símbolo do encontro com o messias, estão vazias. A palavra grega usada para o
verbo “encher” é gêmizo, que significa encher algo completamente
vazio, seco. As talhas não estão parcialmente vazias. Estão secas,
completamente secas. A antiga aliança secou-se. As talhas são de pedra. A lei
de Moisés foi escrita em pedra. As talhas são seis e não sete. Até isto tem
sentido. Seis é o número da imperfeição. Tanto que o número da Besta é 666.
Tudo mostra que a antiga ordem é desnecessária porque não tem mais o que
oferecer aos homens. A antiga aliança está sem condições de trazer alegria para
os homens. Ela teve seu tempo. Passou e um novo momento vai começar agora.
Vivemos dias delicados no movimento evangélico. Caminhamos para um
período pós-denominacional. Reconhecer isto é diferente de desejar isto. Não
desejo, mas vejo isto. As pessoas não estão interessadas em denominação. Outro
problema é a rejudaização que se vê em nosso meio. Estão tentando trazer as
talhas de volta. Assim como a purificação no judaísmo estava associada às
regrinhas e à religiosidade humana, tenta-se trazer este tipo de procedimento
de volta. Novenas religiosas, com correntes de tantos dias em uma
determinada igreja, de preferência contribuindo todos os dias. O ressurgimento
de sacramentos, de gestual, de palavras sagradas, da fé reduzida a uma
celebração que acontece num determinado lugar, num determinado dia, comandada
por uma determinada pessoa. É o ressurgimento do sacerdotalismo da antiga
aliança. E alguns pastores protestantes tem tido esse comportamento com a
implantação de vestimentas judaicas, como o talit e o kipá para os cultos
evangélicos.
As talhas estão secas, mas querem sua permanência em nosso meio,
ressuscitando o judaísmo, com caravanas a Israel para rebatismo no rio Jordão.
As talhas estão secas, mas querem seu ressurgimento com areia santa do
rio Jordão, com folha de oliveira ungida do monte das Oliveiras, com água
ungida do Jordão, com sal grosso do mar Morto para afastar maus
espíritos. Tentam trazer as talhas de volta com as bugigangas neo e
baixo-pentecostais.
Talhas secas é indício de festa sem vinho. Não há aliança com as talhas.
Não há purificação, não há realização, não há o messias na antiga aliança.
O sacerdotalismo que hoje se tenta ressuscitar, com a figura do homem
ungido, com poderes especiais que os demais não têm, com um acesso a Deus que
os demais não têm, com uma oração poderosa que os demais não têm, acabou. Não
há porque ressuscitá-lo. “Ora, todo sacerdote se apresenta, dia após dia, a
exercer o serviço sagrado e a oferecer muitas vezes os mesmos sacrifícios que
nunca jamais podem remover pecados” (Hb 10.11).
Não há porque ressuscitar o judaísmo, não há espaço para o neojudaísmo
que se vê em nossa teologia.
As talhas estão secas, a aliança do passado acabou, o tempo pré-messias
se esgotou. Só a nova aliança pode satisfazer o homem: “Jesus, porém, tendo
oferecido, para sempre, um único sacrifício pelos pecados, assentou-se à destra
de Deus (….) porque, com uma única oferta aperfeiçoou para sempre quantos estão
sendo santificados” (Hb 10.12,14).
O evangelho corre hoje o risco de uma rejudaização em forma e em
conteúdo. É preciso que nos centremos na nova aliança, na doutrina do
sacerdócio universal de todos os salvos, que todos têm acesso a Deus e os
mesmos direitos espirituais, que a venda de indulgências que se verifica no
cenário evangélico hoje é uma deturpação da graça de Jesus e um retorno aos
momentos pré-Reforma.
As talhas da aliança passada estão secas. Não temos que nos prender às
nossas raízes judaicas, como querem alguns. Temos que nos prender às
nossas raízes neotestamentárias, aferrar-nos à mensagem da graça e da fé, do
Deus que salva os que creem em Jesus Cristo. A mensagem que apregoa a
necessidade de arrependimento e fé. Não há cerimônias, não há rituais, não há
novenas nem correntes. É graça, é fé, é o sacerdócio universal de todos os
crentes.
Jesus está numa festa de casamento. É o messias, que supera Moisés. João
1.17 diz que “a lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade
vieram por Jesus Cristo”. Ele é o pão do céu, que Moisés não deu, mas o
Pai dá aos homens (Jo 6.31-33). O vinho não está nas talhas de purificação do
judaísmo. O vinho vem com ele, com um gesto seu. Isto é significativo: ele traz
a torah. Ele traz o verdadeiro ensino.
As talhas estão ali, secas, completamente vazias. Ninguém pode
enchê-las, só ele pode fazer isto. Só ele purifica, só ele traz a alegria e a
realização espiritual. Só ele pode tornar o banquete messiânico real. Sem sua
presença, a festa seria um fracasso. Ele é o pão e ele é o vinho. Ele é o
alimento. Ele é a razão da festa.
Ele tem um vinho superior. O mestre-sala é um profundo conhecedor de
vinho. Conhece bem os vários tipos desta bebida. Ele prova os dois e diz que o
segundo vinho é melhor. O vinho de Jesus, a torah de Jesus, o
ensino de Jesus, é melhor que o vinho da antiga aliança, que aliás, já acabou e
deixou as pessoas frustradas. Quem diz isso é uma pessoa que provou os dois.
As talhas da antiga aliança estão vazias. Só há purificação em Jesus,
não mais em rituais sacerdotalistas. Ele limpa, ele purifica: “Vós já estais
limpos pela palavra que vos tenho falado” (Jo 15.3). Quem já se lavou pela sua
palavra, não precisa mais de banho: “Quem já se banhou não necessita de lavar senão
os pés; quanto ao mais está todo limpo” (Jo 13.10). Ele limpa a vida para
sempre. Não há necessidade de ritual de purificação. Ele fez isso de uma vez
por todas, no Calvário. Não há bênçãos fora dele. Não há salvação fora dele.
Não há realização espiritual fora dele. Não precisamos mais das talhas do
passado. Ele não tem ligação com o sistema do passado. O vinho não estava na
talha e a água não foi tornada em vinho dentro da talha. Não é a talha que está
em cena, é a ação de Jesus. É a sua palavra, a sua ordem. Não há como
compatibilizar os dois nem como remendar nenhum dos dois. O sistema passado
caducou, o novo se levanta e prevalece.
Ele manifestou a sua glória, mostrando que as coisas antigas passaram e
que uma nova ordem estava começando. “Se alguém está em Cristo, nova criação é;
as coisas velhas já passaram e eis que tudo fez novo” (2Co 5.17). O evangelho é
o vinho novo que é melhor que o vinho velho, que é o judaísmo. A graça e a
verdade que ele veio trazer são melhores que a lei de Moisés. Por isso, nada de
regrinhas, de complicados sistemas religiosos, de mortificações, de retorno ao
passado sacerdotal. Jesus desburocratizou a religião. Não há sacerdotes
detentores de autoridade exclusiva. Todos são sacerdotes na nova ordem. Não há
sacramentos. Não há palavras mágicas, não há ritos mágicos nem cultos mágicos.
Devemos dizer não à rejudaização e à recatolização que nos assolam. O evangelho
traz esta mensagem: cada um de nós está diante de Deus, como seu próprio
sacerdote.
CONCLUSÃO
Podemos recusar o rótulo de protestantes. Pessoalmente sempre achei esta
discussão meio ociosa. Mas devemos nos prender à mensagem da Reforma: só a
graça, só a fé, só Cristo, só a Escritura. Não às revelações de homens e
mulheres especiais, não ao profetismo veterotestamentário, não ao
sacerdotalismo judaico, não à clericalização de nossas igrejas. Não à adição de
qualquer coisa a Cristo.
Sim ao sacerdócio universal de todos os crentes. Sim ao profetismo
universal de todos os crentes. Sim à graça. Sim ao evangelho. Sim à
simplicidade. Sim à revelação completa em Jesus. Chega de insistir com as
talhas. Elas estão secas e não têm água, muito menos vinho. Jesus é o vinho de
Deus. Ele basta. Por isso, sim à suficiência de Cristo. Precisamos reafirmar
isto com todas as nossas forças: Cristo basta. Preguemos com todo o nosso vigor
a suficiência de Cristo. Rejeitemos com o mesmo vigor toda e qualquer tentativa
de trazer as talhas de volta. Somos cristãos e não judeus. Alguns cristãos
parecem ter vergonha de serem cristãos. Gostariam de ser judeus. Usam até o
chapeuzinho de judeus. Isto porque o raciocínio teológico de alguns é assim:
quando Israel rejeitou a Jesus, Deus ficou perdido, desculpem a expressão
vulgar, “no mato sem cachorro”, precisando de um povo. Então escolheu a Igreja,
como um par de muletas. Recebemos as sobras do amor de Deus. Está errado. A
Igreja foi escolhida desde a eternidade (Ef 1.4) e entrará na eternidade. Ela
veio da eternidade, entrou na história, e voltará para a eternidade. Ela é
fantástica. É a única instituição antes e pós história. Israel era o rascunho e
a Igreja, o projeto final. Deus não salva por etnia nem por ato cirúrgico. Deus
só salva crentes em Jesus Cristo. Israel precisa se converter a Cristo para ser
salvo. Somos a verdadeira descendência de Abraão, pela fé. Somos filhos
de Deus porque Jesus Cristo perdoou nossos pecados e nos ligou ao Pai para
sempre. Amarremo-nos à graça, amarremo-nos à cruz de Jesus, amarremo-nos à
simplicidade do evangelho: Jesus Cristo, poder de Deus para salvação de
todo aquele que crê.
Uma homenagem póstuma ao Pr. Coelho filho, I.
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