quarta-feira, 6 de maio de 2015

O Quinto Império



Olhe que coisa interessante: o projeto português de expansão e, posteriormente, de colonização das terras brasileiras, nasceu sob o símbolo do Espírito Santo. Os portugueses acreditavam que um novo mundo estava a ser formado, um mundo que seria dirigido pela terceira Pessoa da Trindade, onde não haveria fome, nem presos, e que teria uma criança como rei.

O culto do Espírito Santo em Portugal desenvolveu-se a partir do reinado de D. Dinis (1261-1325) e teria nascido pela fé de sua esposa Isabel de Aragão, a Rainha Santa, por volta de 1323. Ela teria instituído a primeira festa do “Império do Espírito Santo”, que elegia um imperador ou uma imperatriz do Espírito Santo entre as crianças pobres.

A Rainha Santa e seu esposo Dom Diniz conheceram e foram influenciados pela teologia mística de Joaquim de Fiore (1132-1202), abade cisterciense, que fez a defesa do milenarismo e do advento da idade do Espírito Santo. Segundo suas interpretações das Escrituras existiriam três idades na História, no desenvolvimento do mundo e da Igreja, correspondentes às três Pessoas da Trindade.

A primeira idade correspondeu ao governo do Pai e foi representada pelo poder absoluto, inspirador do temor que atravessa o Antigo Testamento. A segunda idade iniciou-se no Novo Testamento, com a fundação da Igreja de Cristo, onde, através do Filho, a sabedoria divina, que tinha permanecido escondida da humanidade, se revelou.

A terceira idade haveria de vir e corresponderia ao domínio da terceira Pessoa. Seria o advento do Império do Divino Espírito Santo, um tempo novo onde o amor e a igualdade entre todos os membros do Corpo Místico de Deus seriam alcançados.
No Império do Divino Espírito Santo, as leis evangélicas seriam realizadas não só na sua letra, mas no seu espírito, ou seja, a mensagem que nelas está escondida seria compreendida e aceita pela humanidade. Nessa terceira idade não haveria necessidade de instituições disciplinadoras da fé, já que ela estaria fundamentada na inspiração divina. Seriam dispensadas as estruturas institucionais do poder temporal da Igreja. Qualquer pessoa, sem importar gênero ou posição social, poderia ser imperador/a, pois a sabedoria divina iluminaria a todos. A humanidade seria, também, beneficiada por uma inteligência espiritual que possibilitaria a plena compreensão dos mistérios divinos.
Em sua época, Joaquim de Fiore acreditava que a segunda idade estava no seu fim e que o advento do Império do Espírito Santo estava para acontecer. O Império do Divino Espírito Santo, já às portas da História, seria a apoteose, e duraria até a segunda vinda gloriosa do Cristo.

Duzentos anos depois do reinado de Dom Diniz a teologia do Império do Espírito Santo tinha conquistado os corações e mentes dos portugueses. Assim, dois padres jesuítas, um deles espanhol e o outro português, contam como viajando para a Índia em 1561 na nau “Nossa Senhora da Graça”, depois de passadas as ilhas de Martim Vaz, coroaram um imperador do Espírito Santo, aos 25 de maio, dia do Pentecostes, quando se fez uma festa solene,

porque havia Imperador elegido e estava a nau toda de festa, embandeirada
e toldada de goderins muito frescos, e com um dossel de tafetá azul onde o imperador tinha a cadeira.

Sabemos que não foi assim, sem fome, sem presos e com uma criança como imperador do Espírito Santo que a colonização se fez. Mas o imaginário cristão de uma terra de fartura, liberdade e justiça, sem dúvida, esteve nos fundamentos do ideal português. A partir daí começou a surgir os principais elementos de uma pneumatologia brasileira, onde as leituras e compreensões do Espírito Santo, de sua ação no universo, nas comunidades e sobre a vida das pessoas, repousaram sobre essa esperança levantada pelos cristãos do século quatorze em Portugal. Aos poucos o culto ao Espírito Santo, símbolo dos ideais de liberdade e fraternidade da doutrina cristã, assumiu caráter de fé do povo brasileiro. E assim deveria ser, pois, segundo o padre Antonio Vieira, no livro de Isaías há um sinal divino dado às “costas e ilhas distantes e a povos longínquos” (Isaías 49.1; 66.19). Por isso Vieira dizia:
                  
                  Digo primeiramente que o texto de Isaías se entende do Brasil, porque o Brasil é a terra que diretamente está além e da outra banda da Etiópia, como diz o profeta: quae est trans flumina Aethiopae [Isaías 18.1]. E assim é na geografia destas terras, que em respeito de Jerusalém, considerado o círculo que faz o globo terrestre, o Brasil fica imediatamente detrás da Etiópia.

Esta seria, então, a terra da construção do “Quinto Império”, profetizado por Daniel, e que em breve haveria de se instalar no mundo. Esses elementos culturais e religiosos que permeiam a multiculturalidade brasileira apontavam para uma teologia do Espírito, como presença de Deus no universo, na comunidade e na experiência humana. Tal visão foi utilizada por Vieira quando fez uma hermenêutica do percurso histórico de Portugal à luz dessa revelação providencialista. Colocou a história de Portugal em paralelo com a história do povo de Israel, que a Bíblia apresenta como povo eleito. Então, é o Espírito que/quem convence as comunidades e pessoas de seus alvos, da incondicionalidade da justiça e do juízo que paira sobre a existência. Nesse sentido, as comunidades e cada ser humano são chamados à liberdade pela obra redentora de Cristo. Donde,
                
                  a tese da constituição sagrada e da conservação imune da singularidade e liberdade do reino de Portugal interliga-se e justifica-se com outra tese segundo a qual este reino estaria designado para ser um instrumento especial de uma missão, também ela sagrada, em relação a outros povos. Essa missão é iluminadora e fundamentadora de uma visão sacralizante da história de Portugal — a missão teofânica de levar o conhecimento de Cristo aos povos ignorantes da sua doutrina.

Não queremos aqui definir se nossos irmãos portugueses estavam certos ou equivocados na compreensão dessa missão teofânica, mas reafirmar que nas comunidades e pessoas essencializadas pela fé, o Espírito é o centro do querer humano, que produz um novo fazer. Então, o Espírito advoga, em lugar do humano, a partir da justiça imputada pelo Cristo, o justo. O Espírito é atração que vem da incondicionalidade e nos faz cair para cima, mantendo-nos fiéis e produzindo na vida humana o amor que arrebata.

Assim, através do catolicismo popular brasileiro, o culto ao Espírito Santo espraiou-se pelo país. As celebrações mais alegres, sempre de forte expressão comunitária, aconteciam cinqüenta dias após a Páscoa, lembrando o dia de Pentecostes, quando o Espírito desceu sobre os apóstolos de Jesus como centelhas. Na Europa, as festas ao Espírito eram realizadas na época das primeiras colheitas, traduzindo a esperança da chegada de uma nova era para o mundo, com liberdade, prosperidade e abundância. Aqui, as festas podem ser encontradas em praticamente todas as regiões do país, apresentando diferentes características, mas guardando em comum a imagem da pomba branca, a coroa, e a distribuição de comida. E foi assim que o Deus tri/uno se revelou ao brasileiro pobre, como voz de presença. É o Espírito de Deus, o Espírito de Cristo, o Espírito Santo, que merece festa e adoração.

Tal compreensão apresentou às brasilidades a fé como produto comunitário, quando, todos juntos, recebemos o sopro do Espírito, que fala as verdades da vida que devemos compreender. Ou seja, o Espírito dissemina a vontade do Deus tri/uno entre as pessoas, dá aos fiéis poder e autoridade para o serviço no cotidiano do reino de Deus, prepara para a ação proclamatória do Verbo e nos coloca sob missão livre e dinâmica, em obediência criativa ao Verbo de Deus. Esse é o direcionamento da mais antiga teologia popular do Espírito no Brasil.

A liberdade é cósmica

O tempo passou e os primeiros missionários da Reforma protestante pisaram em terras brasileiras. Acreditaram que estavam chegando num país sem cristianismo, que desconhecia a mensagem da salvação, ou seja, na prática descartavam a espiritualidade como fenômeno universal na experiência brasileira e se esqueciam que ela é o Espírito da liberdade cósmica, que traduz a vivacidade da vida. E por não compreender a multiculturalidade brasileira, declararam-na vazia de espiritualidade. Ao começar do zero, longe das raízes das brasilidades, definiram a salvação como fenômeno individual, solitário na pessoa convertida, sem festa e expressão nas comunidades. E assim, ao lado da teologia do Espírito do catolicismo popular, alegre e comunitário, foi sendo construída outra, cheia de consciência e sentido teológico, mas sem coração, vida e emoção brasileiras.

Aprendemos, então, que o Espírito é Pessoa da tri/unidade de Deus. É Pessoa que dá vida nova e consola os que sofrem. Adota e enche de amor. Transmite conhecimento, sabedoria e justiça. Derrama arrependimento e graça, dá poder e torna as pessoas prudentes. Vive em nós: pertencemos a Ele. Mas como viver isso em nossas comunidades de fé? Qual é expressão desse Espírito, teologicamente correto, no dia a dia de nossas vidas? Será que vida no Espírito não significa experiência religiosa? Não há vida humana sem experiência. Vive-se na experiência da vida e essa é uma realidade palpável nas brasilidades. Por que então negar a experiência religiosa no Espírito? Por que esta tentativa de pasteurizar o Espírito? Por que a vida brasileira, para aqueles que chegavam de fora era feia, suja, pobre e sem espiritualidade? Perguntinhas desagradáveis, mas que estão escondidas em nossos corações protestantes. Moltmann nos ajuda na construção de respostas.

Uma pneumatologia brasileira deve tornar-se uma reflexão hermenêutica sobre a afirmação da justificação pela graça, por meio da fé. Essa expressão “por meio da fé” não é somente posicional, mas existencial. E, nesse sentido, falamos da espiritualidade na vida da comunidade de tal maneira que a justificação se transforma em vida aberta. Dizer que o Espírito é santo é afirmar que não pode ser violado, que sua ação sobre nós e para nós é benéfica, segura e eficaz.

Ora, o Espírito é criador, mas o que significa isso? Poderíamos falar da criação do cosmo e de outros atos criadores do Espírito, mas não podemos nos esquecer de que a pneumatologia deve funcionar como uma cristologia eclesial, já que a vida é Espírito e que a comunidade também tem Espírito. A comunidade de fé, assim como as pessoas, são as criações por excelência deste Espírito. E como a comunidade de fé é formada por discípulos do Cristo, seu Espírito está aí presente, criando gente nova e expandindo o reino.

As comunidades cristãs brasileiras, todas elas, são comunidades de Jesus, e é isso que define a Igreja. Quando as comunidades de fé se defrontam com desafios que as fazem pensar sobre o propósito e caráter da Igreja cristã, elas devem refletir sobre suas realidades históricas e culturais a partir do fato e da identidade do Jesus glorificado. Só nesse sentido, podemos entender na prática, de forma viva e comunitária, o permanente ato criador do Espírito na cristologia da Igreja. É verdade, o Espírito é Pessoa. Mas aqui também somos chamados a dar carne e osso à nossa pneumatologia. A pessoalidade do Espírito pode melhor ser compreendida na materialidade da comunidade de fé, pois cada comunidade de fé possui um só Espírito. Inversamente, a espiritualidade de uma comunidade, ou é o Espírito de Deus, ou um dinamismo ameaçador. Assim todas as comunidades se confrontam com a transcendência, e o Espírito aparecerá como a liberdade da comunidade contra a perda de sentido.

As comunidades de fé reivindicam seu estabelecimento como cumprimento da pessoalidade do Espírito prometido. Assim a identidade de Deus e do Espírito é clara para as comunidades de fé. E essa pessoalidade do Espírito se dá no chão da materialidade das comunidades de fé, na carne e no osso da Igreja. Por isso, na experiência da comunidade, podemos dizer que o Espírito procede do Pai e do Cristo, que o Cristo é gerado pelo Pai e pelo Espírito, mas, também, que o Pai é fruto do amor do Cristo e do Espírito. Assim, entendemos que na comunidade de fé, de forma existencial para cada um de nós, o Espírito é Pessoa na comunhão de Deus.

É a pessoalidade do Espírito que nos leva à questão da espiritualidade. Quando dizemos espiritualidade, queremos dizer uma vida no Espírito, um intenso convívio com o Espírito: esse é o sentido cristão da palavra. Dessa maneira, a idéia de uma vida forte, a idéia da vitalidade de uma vida criativa a partir de Deus nos remete à espiritualidade, ou seja, a uma vida espiritualizada por Deus. Por isso, podemos dizer: as pessoas procuram a Deus porque o Espírito as atrai para si. Estas são as primeiras experiências do Espírito no ser humano. E o Espírito as atrai como um imã atrai as limalhas de ferro. O íntimo atrativo do Espírito é experimentado pela pessoa em sua fome de viver e em sua busca de felicidade, que nada no universo pode satisfazer ou saciar.

A espiritualidade da vida se opõe à mística da morte. Quanto mais sensíveis as pessoas se tornam para a felicidade da vida, mais sentem a dor pelos fracassos da vida. Vida no Espírito é vida contra a morte. Não é vida contra o corpo, mas a favor de sua libertação e sua glorificação. Dizer sim à vida significa dizer não à fome e a suas devastações. Dizer sim à vida significa dizer não à miséria e a suas humilhações. Não existe uma afirmação verdadeira da vida sem luta contra tudo que nega a vida. Nesse sentido, o Espírito é libertador.

O mundo das pessoas é o cosmo. Aí elas constroem seu habitat. Desta forma, por meio do significado dado pelo ser humano à natureza, de domínio e expansão, dentro de um significado de utilização que lhe empresta, atua sobre ela, produz transformação e cultura, e realiza sua espiritualidade.
A espiritualidade, sendo relação entre significante e significado, é dialética, pois é ela que faz da pessoa e da comunidade ser significante e permite ao ser humano e a sua comunidade transferir ao mundo que o cerca a transcendência, que também utiliza essa mesma significação. Ao fazer significante a realidade que o cerca, o ser humano dá origem às transformações, engendra causas e passa à construção do futuro. Para viabilizar tais transformações, é necessário que a comunidade transfira novos significados aos processos históricos, sociais e mesmo espirituais.

Por isso, podemos dizer, a partir da espiritualidade, que onde há comunidade, há vida e comunicação, e que a comunicação é Espírito, ou então, resistência ao Espírito. Dessa maneira, ou o Espírito é comunicação, ou então subverte a comunicação. A comunicação é a realidade da relação de pessoas, e é pela comunicação que temos um cosmo e nos encontremos nele. Assim, a missão das comunidades de fé é a permanente comunicação no Espírito.

Ora, a ação de libertar está ligada à ação de defender. A vida humana pode ser negada e, por isso, para ser realmente vivida, tem de ser afirmada. Vida negada e recusada é morte. Vida aceita e afirmada é liberdade. É o Espírito quem convence o cosmo do alvo errado, que corrige o cosmo injusto e que transforma as pessoas, de escravos e vítimas do erro, em alforriados pela graça. É este Espírito defensor que possibilita o encontro das diferentes experiências de vida, assim como a comunhão da diversidade que Ele próprio cria e administra em cada um de nós. E é Ele quem nos encoraja à esperança. O Espírito da unidade e da diversidade não cessa de atuar entre nós, mesmo quando distantes uns dos outros e aparentemente separados. Teologicamente, podemos ampliar ainda mais a compreensão do Espírito ao dizer que Ele sopra sobre e através das vidas. Ele é a liberdade da historia universal e particular das brasilidades, a espontaneidade da realidade, a beleza da criação cósmica e o criador da vida nova das comunidades de fé. E quando falamos que Ele é a espontaneidade da realidade, estamos dizendo que o Espírito é paradoxal: se apresenta como gênese e escathon, fim de uma aliança e princípio de uma nova, fim de uma era e início de uma nova. Quando vem, ninguém se controla, mas ele controla a todos. Ninguém está sem controle, porque ser cheio do Espírito é ser conduzido por sua soberania. Eis o paradoxo de Espírito.

O Espírito é cósmico e livre. Mas qual a relação entre liberdade e cosmo? Seguindo Irineu, podemos dizer que a comunicação de Deus levou à existência, mas pelo Espírito, Ele transforma o existente em cosmo, com sentido, com ordem de adequação e adaptação. E se retornarmos a Hegel, esse Espírito cósmico é a consciência do universo, Espírito vivo. Ou seja, assim como o Espírito deu sentido ao existente, Ele tem como propósito dar sentido à vida humana, por isso é Ele quem vai adiante, abre as portas e prepara o caminho para o sucesso da comunicação.

O mesmo Espírito, além de preparar as diferenças, e o Brasil é um exemplo disso, é quem transforma essas bases para a expansão da comunicação. A visão da expansão da comunicação é uma dádiva do Espírito para as comunidades de fé, mas a unidade na comunidade só é válida na variedade, nunca na uniformidade. A aceitação das pessoas, com suas diferenças e particularidades, e aqui devemos falar de afrobrasileiros, brasilíndios e neobrasileiros, é uma condição indispensável para a saúde da comunidade cristã.

A pneumatologia vivida a partir da multiculturalidade brasileira apresentará a obra do Espírito como realidade comunitária, e esse talvez seja o sentido maior, recuperado pelos irmãos carismáticos e pentecostais no Brasil. Mas, em meio às divergências e separações, às inimizades e choques, prevalece a amplidão do Espírito. Ou seja, Ele cria espaço, põe em movimento, leva da estreiteza para a largura, cria o horizonte e nas nossas vidas amplia o horizonte. Na experiência com o Espírito, Deus não é sentido somente como Pessoa da Trindade, mas também como aquele espaço e tempo de liberdade em que o ser humano pode se desenvolver.

Créditos

Artigo de Jorge Pinheiro dos Santos
Elementos para uma pneumatologia brasileira
Uma leitura pós-moltmanniana

MOLTMANN, Jürgen. O Espírito da Vida: uma pneumatologia
integral. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1999





sábado, 25 de abril de 2015

As Tradições dos Patriarcas

AS TRADIÇÕES DOS PATRIARCAS

Todos os cristãos conhecem a história dos patriarcas narrada no livro de Gênesis. No começo Deus chama a Abrão da terra dos seus pais e lhe faz uma promessa, e assim começa uma relação familiar com Deus. Com o tempo, aquela família frutificou e se multiplicou enormemente, crescendo até formar o povo de Israel. Essa é a primeira grande saga da Bíblia, um conto de sonhos de imigrantes e promessas divinas, que serve como uma brilhante e inspiradora abertura para a história subsequente da nação de Israel. Abraão foi o primeiro dos patriarcas e o recebedor da promessa divina da terra e de abundantes descendentes, promessa essa que foi transportada através de gerações por seu filho Isaque e por Jacó, também conhecido como Israel, filho de Isaque. Entre os 12 filhos de Jacó, dos quais dez se tornariam patriarcas de dez tribos e um daria origem a outras duas, coube a Judá a honra especial de guiar a todos.

Segundo os autores Israel Finkelstein, e Neil Asher Silberman, em seu livro A Bíblia Desenterrada: Uma Nova Visão Arqueológica do Antigo Israel e da Origem de seus Textos Sagrados. No Brasil foi publicado com o título “A Bíblia Não Tinha Razão,” pela editora A Girafa, São Paulo, 2003, que antes de descrever as prováveis circunstâncias históricas e de tempo nas quais a narrativa dos patriarcas bíblicos foi inicialmente tecida a partir de fontes mais antigas, é fundamental explicar por que tantos estudiosos, durante os últimos cem anos, se convenceram de que as narrativas dos patriarcas eram, pelo menos em resumo, verdadeiras, sob o ponto de vista histórico.
A Bíblia narra a história antiga de Israel em ordem sequencial, dos patriarcas ao Egito, ao Êxodo, à caminhada pelo deserto, à conquista de Canaã, à época dos Juízes e ao estabelecimento da monarquia; também fornece uma chave para calcular datas específicas. A pista mais importante é uma observação no 1 Rs 6,1 de que o Êxodo aconteceu 480 anos antes que a construção do Templo começasse em Jerusalém, no quarto ano do reinado de Salomão. Além disso, o Êxodo 12,40 afirma que os israelitas suportaram 430 anos de cativeiro no Egito antes do Êxodo. Somando um pouco mais de duzentos anos para a superposição da duração de vida dos patriarcas em Canaã, antes que os israelitas partissem para o Egito, chegamos a uma data bíblica por volta de 2100 a.C. para a partida original de Abraão para Canaã.

Naturalmente, existem alguns problemas evidentes para a aceitação dessas datas no que se refere à reconstrução histórica precisa, inclusive à extraordinária duração das vidas de Abraão, Isaque e Jacó, todas longas, que excederam os cem anos. Além do mais, as genealogias posteriores que delinearam os descendentes de Jacó eram confusas, se não abertamente contraditórias. Moisés e Araão, por exemplo, eram identificados como a quarta geração descendente de Levi, filho de Jacó (Ex 6:18), enquanto Josué, um contemporâneo de Moisés e Araão, foi declarado como duodécima geração descendente de José, outro dos filhos de Jacó (1 Cr 7:22-27) . Essa, por certo, não era uma discrepância secundária.

A estrutura narrativa do Pentateuco apresenta Abraão, Isaque e Jacó como patriarcas de Israel. Essa apresentação não pode corresponder à realidade histórica. Nenhum povo é descendente de um único patriarca ou uma única família. Parece que a função de patriarcas tampouco é o papel original dessas figuras. Chama a atenção já o modo com que foi composta a genealogia. No início, ela segue em linha reta até Jacó, depois se subdivide em 12 filhos = tribos. Se o Israel posterior quisesse derivar sua descendência de um único patriarca, teria sido suficiente construir uma genealogia de Jacó = Israel – 12 filhos = tribos. Nessa genealogia seria desnecessário começar com Abraão e Isaque. Portanto, na formação dessa tradição, o interesse genealógico não é primário. Salvo sua atual função genealógica, as figuras devem ter tido um significado anterior e original. A linha genealógica é apenas uma parte da estrutura que é, também nesse aspecto, secundária. Essa compreensão nos obriga a analisar as distintas tradições separadamente. Em seguida, chamam a atenção as seguintes características: Abraão, Isaque e Jacó são apresentados como não sedentários. Seu modo de vida é o de pastores nômades com rebanhos de pequeno porte (ovelhas e cabras). Ainda não são nômades criadores de camelos, mas pertencem àqueles seminômades que vivem em transumância; isso se pode deduzir claramente do colorido que caracteriza a camada mais antiga dessas tradições. Segundo o teólogo alemão Gunneweg - História de Israel pg 44.

Entende-se hoje que as narrativas de Abraão têm sua vinculação geográfica local com um santuário no sul, em Manre, perto de Hebron. No entanto, é possível que se trate de uma transferência do motivo de Isaque para Abraão. De modo geral, a tradição de Abraão foi amplamente recheada com motivos da tradição de Isaque, de modo que aquela cresceu muito, em detrimento desta. Com base nessas tradições, podemos dizer que Abraão  encontrou seu lugar no extremo sul, e isso significa que o círculo que cultuou o Deus de Abraão se estabeleceu ali e enraizou também nesse local essas tradições que haviam trazido consigo. O processo da tradição histórica que absorveu a tradição de Isaque dentro da de Abraão reflete um processo histórico: o grupo de Abraão encontrou no sul o grupo de Isaque, que já se tornara sedentário, e se apossou das tradições deste.
A tradição de Isaque, que ficou bem reduzida, ainda pode ser localizada com relativa segurança. Em Gênesis 26, o compêndio das tradições de Isaque, aponta claramente para o sul, para os limites da terra cultivada, onde o grupo de Isaque conseguiu ficar com algumas fontes. A região onde Isaque viveu com os seus em um período de fome é mencionada a vizinhança da cidade de Gerar, aproximadamente a 20 km ao noroeste da região das fontes de Berseba. O que é apresentado na saga como uma estadia única por ocasião de uma fome única pode ser interpretado com em referência a uma região que era, em geral, o lugar do pastoreio do clã de Isaque nos períodos da estiagem do verão.

A questão mais complicada é a da localização da tradição de Jacó. Essa figura da tradição parece pertencer, primeiramente, à região das tribos posteriores da Palestina central, em Siquém e Betel (Gn 28.11ss; 33,18; 35,9ss; 48,22). Além disso, existe uma outra tradição proveniente da Transjordânia (Gn 32,1ss; cf 31,4422; 50,10s). Embora os dois complexos de tradições tenham sido entrelaçados artisticamente pela fuga de Jacó para a Transjordânia, sua estadia lá e sua volta para o oeste, é evidente que originalmente eles eram complexos diferentes.
Assim como os grupos de Isaque e Abraão encontraram um lar no sul, assim também o grupo de Jacó encontrou um na região central da Palestina em torno de Síquem e Betel. Em tempos posteriores colonos efraimitas passaram do oeste para o outro lado do Jordão e adaptaram suas tradições a respeito de Jacó às novas condições da nova terra onde moravam.
Israel assume as tradições dos patriarcas pré-israelitas. O Deus dos pais, já antigamente identificado com o Deus El, cultuado em diversos santuários locais, fundiu-se com Yahweh, o Deus de Israel. Desse modo, as narrativas dos patriarcas refletem um período histórico de três a quatro séculos que vai desde a primeira fase da tomada da terra até o trabalho teológico dos escribas, conclui Gunneweg.

Bibliografia
História de Israel –Gunneweg – Editora Loyolla – coleção Serie Biblioteca de Estudos do Antigo Testamento - São Paulo, 2005
A Bíblia não tinha razão -  Israel Finkelstein, e Neil Asher Silberman, editora A Girafa, São Paulo, 2003.

Uma Perspectiva Arqueológica

A LEITURA BÍBLICA A PARTIR DE UMA NOVA PERSPECTIVA, 
UMA PERSPECTIVA ARQUEOLÓGICA.

Nos últimos anos a arqueologia tem tido um papel determinante no estudo da Bíblia, ou melhor, no estudo da história e pré-história de Israel.

No passado a arqueologia nas terras da Bíblia era feita com uma mão na picareta e outra na Bíblia, ou seja, os arqueólogos entravam nos sítios buscando aquilo que estava escrito na Bíblia e obviamente com uma opinião já formada. Como os resultados foram insatisfatórios, nas últimas duas décadas se fechou a Bíblia e se fez arqueologia.  Nessa mudança de conceito os pesquisadores resolveram escavar os sítios arqueológicos (Telin em hebraico), sem a necessidade de provar nada e depois comparar os resultados com a Bíblia se bater ótimo, caso contrário o problema seria dos biblistas e exegetas.

Com isso nasceu uma grande reviravolta na pré-história e na história de Israel.

Portanto, a arqueologia não substitui o texto, mas o auxilia. E, assim, deve ser. É  comum, nos últimos anos, estudiosos do mundo bíblico afirmarem que as recentes descobertas arqueológicas contradizem o texto bíblico, porque apresentam outras verdades. Isso não é correto. A Bíblia vê e narra a realidade com a preocupação de mostrar a ação de Deus na história, coisa que a arqueologia não tem como escavar. Sua função é de fazer a leitura preliminar da sociedade, da maneira mais neutra possível.
A partir daí, os exegetas devem adentrar ao texto bíblico. O que não se pode fazer, para uma boa exegese, é cometer o disparate de ignorar as descobertas arqueológicas. (Milton Schwantes).

Uma das novidades da descoberta arqueológica está em 1 Rs 13:1-2
 “E eis que, por ordem do SENHOR, veio, de Judá a Betel, um homem de Deus; e Jeroboão estava junto ao altar, para queimar incenso.
E ele clamou contra o altar por ordem do Senhor, e disse: Altar, altar! Assim diz o Senhor: Eis que um filho nascerá à casa de Davi, cujo nome será Josias, o qual sacrificará sobre ti os sacerdotes dos altos que sobre ti queimam incenso, e ossos de homens se queimarão sobre ti.
Essa é uma profecia incomparável, porque o “homem de Deus” revelou o nome do rei de Judá que três séculos depois ordenaria a destruição daquele mesmo santuário, matando todos os seus sacerdotes e profanando o altar com os seus restos. É algo como ler a história da escravidão na America colonial do século XVIII na qual houvesse uma passagem predizendo o nascimento de Martin Luther King. E isso não é tudo; Jeroboão ficou profundamente abalado com essa profecia, e pouco depois seu filho Abias caiu doente. Logo depois, a mulher de Jeroboão foi ao antigo lugar de culto em Silo, para falar com o profeta Aías, o mesmo que tinha previsto que Jeroboão reinaria sobre todas as tribos do norte. Aías não teve palavras para consolar a mãe preocupada. Em vez disso, ele fez uma quarta profecia, uma das mais arrepiantes da Bíblia: ver 1 Rs 14:7-16.
A precisão da primeira profecia do “homem de Deus” denuncia a época em que foi escrita. O rei da casa de Davi, Josias, que conquistou e destruiu o altar em Betel viveu no final do século VII a.C. Por que uma história que tem lugar no século X a.C. precisa usar uma figura de um futuro tão distante? Qual é a razão para descrever o que um rei justo e honrado chamado Josias vai fazer? A resposta é a mesma que sugerimos, explicando por que as histórias dos patriarcas, do Êxodo e da conquista de Canaã são repletas de alusões ao século VII. O fato inevitável é que os livros dos Reis são tanto um apaixonado argumento religioso – escrito no século VII a.C. – como são também obras de história, diz Filkenstein.
Com isso queremos dizer que a arqueologia começa a mostrar que os textos bíblicos assim como a grandeza de Judá começam acontecer a partir do reinado de Josias. A idéia defendida pelos arqueólogos é a de que a Bíblia – Genesis, Êxodo, Números, Levíticos, Deuteronômio, Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel e 1 e 2 Reis - foi um produto da reforma religiosa feita pelo rei Josias no século VII AC. Resultou de uma compilação de memórias, lendas, contos e outras informações que circulavam na época. O núcleo histórico dessa obra, realizada pelos rabinos israelenses, a mando do rei Josias.
Os arqueólogos Finkelstein e Siberman sustentam que sua visão é proveniente das recentes descobertas arqueológicas, que segundo eles, "revolucionaram o estudo do Israel primitivo e lançaram sérias dúvidas sobre as bases históricas das tão famosas histórias bíblicas como as peregrinações dos patriarcas, o Êxodo do Egito, a conquista de Canaã e o glorioso império de Davi e Salomão.” Assim, pretendem os autores contar "A história do antigo Israel e o nascimento de suas escrituras sagradas a partir de uma nova perspectiva, uma perspectiva arqueológica, separando a história da lenda”.
Explicam que o seu trabalho resultou de uma comparação feita entre a narrativa bíblica e os dados arqueológicos coletados nas últimas décadas. O resultado foi a descoberta de uma relação complexa e fascinante entre o que realmente aconteceu na Palestina durante o período bíblico e os acontecimentos narrados na Bíblia. E com base nessas informações concluem que a maior parte do Pentateuco é uma criação da monarquia judaica, elaborada em defesa da ideologia e necessidades do reino de Judá. Daí a conclusão que a Bíblia foi resultado de uma compilação feita a partir do tempo do rei Josias [640-609 a.C.], para oferecer uma legitimação ideológica para ambições políticas e reformas religiosas específicas, promovidas por aquele rei. 










sexta-feira, 24 de abril de 2015

Apresentação do Blog

Este blog foi desenvolvido para quem ama a Palavra de Deus e tem sede de conhecimento, tendo por finalidade trazer as descobertas bíblicas que se discute no mundo acadêmico. 

O blog abrangerá a princípio a pré-história e a história de Israel, sua ênfase será no estudo arqueológico do mundo bíblico em comparação com os escritos veterotestamentários.

Para tal, acompanharemos o incansável trabalho, desenvolvido nos últimos 20 anos, de pesquisas científicas dos mais renomados arqueólogos, historiados, exegetas e eruditas bíblicos.

A finalidade será o seu crescimento cristão, teremos oportunidade para expandirmos juntos esses conhecimentos através de perguntas e respostas, com um agradável bate papo.

Toda publicação será baseada e documentada em biografias e edições com crédito para as respectivas fontes.

Seja bem-vindo.

A Deus toda Glória