Olhe que coisa
interessante: o projeto português de expansão e, posteriormente, de colonização
das terras brasileiras, nasceu sob o símbolo do Espírito Santo. Os portugueses
acreditavam que um novo mundo estava a ser formado, um mundo que seria dirigido
pela terceira Pessoa da Trindade, onde não haveria fome, nem presos, e que
teria uma criança como rei.
O culto do
Espírito Santo em Portugal desenvolveu-se a partir do reinado de D. Dinis
(1261-1325) e teria nascido pela fé de sua esposa Isabel de Aragão, a Rainha Santa,
por volta de 1323. Ela teria instituído a primeira festa do “Império do
Espírito Santo”, que elegia um imperador ou uma imperatriz do Espírito Santo
entre as crianças pobres.
A Rainha Santa e
seu esposo Dom Diniz conheceram e foram influenciados pela teologia mística de
Joaquim de Fiore (1132-1202), abade cisterciense, que fez a defesa do
milenarismo e do advento da idade do Espírito Santo. Segundo suas interpretações
das Escrituras existiriam três idades na História, no desenvolvimento do mundo
e da Igreja, correspondentes às três Pessoas da Trindade.
A primeira idade
correspondeu ao governo do Pai e foi representada pelo poder absoluto,
inspirador do temor que atravessa o Antigo Testamento. A segunda idade
iniciou-se no Novo Testamento, com a fundação da Igreja de Cristo, onde, através
do Filho, a sabedoria divina, que tinha permanecido escondida da humanidade, se
revelou.
A terceira idade
haveria de vir e corresponderia ao domínio da terceira Pessoa. Seria o advento
do Império do Divino Espírito Santo, um tempo novo onde o amor e a igualdade
entre todos os membros do Corpo Místico de Deus seriam alcançados.
No Império do
Divino Espírito Santo, as leis evangélicas seriam realizadas não só na sua
letra, mas no seu espírito, ou seja, a mensagem que nelas está escondida seria
compreendida e aceita pela humanidade. Nessa terceira idade não haveria necessidade
de instituições disciplinadoras da fé, já que ela estaria fundamentada na inspiração
divina. Seriam dispensadas as estruturas institucionais do poder temporal da
Igreja. Qualquer pessoa, sem importar gênero ou posição social, poderia ser
imperador/a, pois a sabedoria divina iluminaria a todos. A humanidade seria, também,
beneficiada por uma inteligência espiritual que possibilitaria a plena
compreensão dos mistérios divinos.
Em sua época,
Joaquim de Fiore acreditava que a segunda idade estava no seu fim e que o
advento do Império do Espírito Santo estava para acontecer. O Império do Divino
Espírito Santo, já às portas da História, seria a apoteose, e duraria até a segunda
vinda gloriosa do Cristo.
Duzentos anos
depois do reinado de Dom Diniz a teologia do Império do Espírito Santo tinha
conquistado os corações e mentes dos portugueses. Assim, dois padres jesuítas,
um deles espanhol e o outro português, contam como viajando para a Índia em
1561 na nau “Nossa Senhora da Graça”, depois de passadas as ilhas de Martim
Vaz, coroaram um imperador do Espírito Santo, aos 25 de maio, dia do
Pentecostes, quando se fez uma festa solene,
porque havia Imperador elegido e estava a
nau toda de festa, embandeirada
e toldada de goderins muito frescos, e com
um dossel de tafetá azul onde o imperador tinha a cadeira.
Sabemos que não
foi assim, sem fome, sem presos e com uma criança como imperador do Espírito
Santo que a colonização se fez. Mas o imaginário cristão de uma terra de
fartura, liberdade e justiça, sem dúvida, esteve nos fundamentos do ideal português.
A partir daí começou a surgir os principais elementos de uma pneumatologia brasileira,
onde as leituras e compreensões do Espírito Santo, de sua ação no universo, nas
comunidades e sobre a vida das pessoas, repousaram sobre essa esperança
levantada pelos cristãos do século quatorze em Portugal. Aos poucos o culto ao
Espírito Santo, símbolo dos ideais de liberdade e fraternidade da doutrina cristã,
assumiu caráter de fé do povo brasileiro. E assim deveria ser, pois, segundo o
padre Antonio Vieira, no livro de Isaías há um sinal divino dado às “costas
e ilhas distantes e a povos longínquos” (Isaías 49.1; 66.19). Por isso
Vieira dizia:
Digo primeiramente que o
texto de Isaías se entende do Brasil, porque o Brasil é a terra que diretamente
está além e da outra banda da Etiópia, como diz o profeta: quae est trans flumina
Aethiopae [Isaías 18.1]. E assim é na geografia destas terras, que em respeito de
Jerusalém, considerado o círculo que faz o globo terrestre, o Brasil fica
imediatamente detrás da Etiópia.
Esta seria,
então, a terra da construção do “Quinto Império”, profetizado por Daniel, e que
em breve haveria de se instalar no mundo. Esses elementos culturais e
religiosos que permeiam a multiculturalidade brasileira apontavam para uma
teologia do Espírito, como presença de Deus no universo, na comunidade e na
experiência humana. Tal visão foi utilizada por Vieira quando fez uma
hermenêutica do percurso histórico de Portugal à luz dessa revelação providencialista.
Colocou a história de Portugal em paralelo com a história do povo de Israel,
que a Bíblia apresenta como povo eleito. Então, é o Espírito que/quem convence
as comunidades e pessoas de seus alvos, da incondicionalidade da justiça e do
juízo que paira sobre a existência. Nesse sentido, as comunidades e cada ser humano
são chamados à liberdade pela obra redentora de Cristo. Donde,
a tese da constituição
sagrada e da conservação imune da singularidade e liberdade do reino de
Portugal interliga-se e justifica-se com outra tese segundo a qual este reino
estaria designado para ser um instrumento especial de uma missão, também ela
sagrada, em relação a outros povos. Essa missão é iluminadora e fundamentadora
de uma visão sacralizante da história de Portugal — a missão teofânica de levar
o conhecimento de Cristo aos povos ignorantes da sua doutrina.
Não queremos
aqui definir se nossos irmãos portugueses estavam certos ou equivocados na
compreensão dessa missão teofânica, mas reafirmar que nas comunidades e pessoas
essencializadas pela fé, o Espírito é o centro do querer humano, que produz um
novo fazer. Então, o Espírito advoga, em lugar do humano, a partir da justiça
imputada pelo Cristo, o justo. O Espírito é atração que vem da
incondicionalidade e nos faz cair para cima, mantendo-nos fiéis e produzindo na
vida humana o amor que arrebata.
Assim, através
do catolicismo popular brasileiro, o culto ao Espírito Santo espraiou-se pelo
país. As celebrações mais alegres, sempre de forte expressão comunitária, aconteciam
cinqüenta dias após a Páscoa, lembrando o dia de Pentecostes, quando o Espírito
desceu sobre os apóstolos de Jesus como centelhas. Na Europa, as festas ao
Espírito eram realizadas na época das primeiras colheitas, traduzindo a
esperança da chegada de uma nova era para o mundo, com liberdade, prosperidade e
abundância. Aqui, as festas podem ser encontradas em praticamente todas as regiões
do país, apresentando diferentes características, mas guardando em comum a
imagem da pomba branca, a coroa, e a distribuição de comida. E foi assim que o
Deus tri/uno se revelou ao brasileiro pobre, como voz de presença. É o Espírito
de Deus, o Espírito de Cristo, o Espírito Santo, que merece festa e adoração.
Tal compreensão
apresentou às brasilidades a fé como produto comunitário, quando, todos juntos,
recebemos o sopro do Espírito, que fala as verdades da vida que devemos
compreender. Ou seja, o Espírito dissemina a vontade do Deus tri/uno entre as pessoas,
dá aos fiéis poder e autoridade para o serviço no cotidiano do reino de Deus,
prepara para a ação proclamatória do Verbo e nos coloca sob missão livre e
dinâmica, em obediência criativa ao Verbo de Deus. Esse é o direcionamento da
mais antiga teologia popular do Espírito no Brasil.
A liberdade é
cósmica
O tempo passou e
os primeiros missionários da Reforma protestante pisaram em terras brasileiras.
Acreditaram que estavam chegando num país sem cristianismo, que desconhecia a
mensagem da salvação, ou seja, na prática descartavam a espiritualidade como
fenômeno universal na experiência brasileira e se esqueciam que ela é o
Espírito da liberdade cósmica, que traduz a vivacidade da vida. E por não
compreender a multiculturalidade brasileira, declararam-na vazia de espiritualidade.
Ao começar do zero, longe das raízes das brasilidades, definiram a salvação
como fenômeno individual, solitário na pessoa convertida, sem festa e expressão
nas comunidades. E assim, ao lado da teologia do Espírito do catolicismo popular,
alegre e comunitário, foi sendo construída outra, cheia de consciência e sentido
teológico, mas sem coração, vida e emoção brasileiras.
Aprendemos,
então, que o Espírito é Pessoa da
tri/unidade de Deus. É Pessoa que dá vida nova e consola os que sofrem. Adota e
enche de amor. Transmite conhecimento, sabedoria e justiça. Derrama arrependimento
e graça, dá poder e torna as pessoas prudentes. Vive em nós: pertencemos a Ele.
Mas como viver isso em nossas comunidades de fé? Qual é expressão desse
Espírito, teologicamente correto, no dia a dia de nossas vidas? Será que vida
no Espírito não significa experiência religiosa? Não há vida humana sem
experiência. Vive-se na experiência da vida e essa é uma realidade palpável nas
brasilidades. Por que então negar a experiência religiosa no Espírito? Por que
esta tentativa de pasteurizar o Espírito? Por que a vida brasileira, para
aqueles que chegavam de fora era feia, suja, pobre e sem espiritualidade? Perguntinhas
desagradáveis, mas que estão escondidas em nossos corações protestantes.
Moltmann nos ajuda na construção de respostas.
Uma pneumatologia
brasileira deve tornar-se uma reflexão hermenêutica sobre a afirmação da
justificação pela graça, por meio da fé. Essa expressão “por meio da fé” não é
somente posicional, mas existencial. E, nesse sentido, falamos da
espiritualidade na vida da comunidade de tal maneira que a justificação se
transforma em vida aberta. Dizer que o Espírito é santo é afirmar que não pode
ser violado, que sua ação sobre nós e para nós é benéfica, segura e eficaz.
Ora, o Espírito
é criador, mas o que significa isso? Poderíamos falar da criação do cosmo e de
outros atos criadores do Espírito, mas não podemos nos esquecer de que a
pneumatologia deve funcionar como uma cristologia eclesial, já que a vida é
Espírito e que a comunidade também tem Espírito. A comunidade de fé, assim como
as pessoas, são as criações por excelência deste Espírito. E como a comunidade
de fé é formada por discípulos do Cristo, seu Espírito está aí presente, criando
gente nova e expandindo o reino.
As comunidades
cristãs brasileiras, todas elas, são comunidades de Jesus, e é isso que define
a Igreja. Quando as comunidades de fé se defrontam com desafios que as fazem
pensar sobre o propósito e caráter da Igreja cristã, elas devem refletir sobre
suas realidades históricas e culturais a partir do fato e da identidade do
Jesus glorificado. Só nesse sentido, podemos entender na prática, de forma viva
e comunitária, o permanente ato criador do Espírito na cristologia da Igreja. É
verdade, o Espírito é Pessoa. Mas aqui também somos chamados a dar carne e osso
à nossa pneumatologia. A pessoalidade do Espírito pode melhor ser compreendida
na materialidade da comunidade de fé, pois cada comunidade de fé possui um só
Espírito. Inversamente, a espiritualidade de uma comunidade, ou é o Espírito de
Deus, ou um dinamismo ameaçador. Assim todas as comunidades se confrontam com a
transcendência, e o Espírito aparecerá como a liberdade da comunidade contra a
perda de sentido.
As comunidades de
fé reivindicam seu estabelecimento como cumprimento da pessoalidade do Espírito
prometido. Assim a identidade de Deus e do Espírito é clara para as comunidades
de fé. E essa pessoalidade do Espírito se dá no chão da materialidade das
comunidades de fé, na carne e no osso da Igreja. Por isso, na experiência da
comunidade, podemos dizer que o Espírito procede do Pai e do Cristo, que o
Cristo é gerado pelo Pai e pelo Espírito, mas, também, que o Pai é fruto do
amor do Cristo e do Espírito. Assim, entendemos que na comunidade de fé, de
forma existencial para cada um de nós, o Espírito é Pessoa na comunhão de Deus.
É a pessoalidade
do Espírito que nos leva à questão da espiritualidade. Quando dizemos
espiritualidade, queremos dizer uma vida no Espírito, um intenso convívio com o
Espírito: esse é o sentido cristão da palavra. Dessa maneira, a idéia de uma
vida forte, a idéia da vitalidade de uma vida criativa a partir de Deus nos
remete à espiritualidade, ou seja, a uma vida espiritualizada por Deus. Por
isso, podemos dizer: as pessoas procuram a Deus porque o Espírito as atrai para
si. Estas são as primeiras experiências do Espírito no ser humano. E o Espírito
as atrai como um imã atrai as limalhas de ferro. O íntimo atrativo do Espírito
é experimentado pela pessoa em sua fome de viver e em sua busca de felicidade,
que nada no universo pode satisfazer ou saciar.
A espiritualidade da vida se opõe à mística da morte. Quanto mais
sensíveis as pessoas se tornam para a felicidade da vida, mais sentem a dor
pelos fracassos da vida. Vida no Espírito é vida contra a morte. Não é vida
contra o corpo, mas a favor de sua libertação e sua glorificação. Dizer sim à
vida significa dizer não à fome e a suas devastações. Dizer sim à vida significa
dizer não à miséria e a suas humilhações. Não existe uma afirmação verdadeira
da vida sem luta contra tudo que nega a vida. Nesse sentido, o Espírito é
libertador.
O mundo das
pessoas é o cosmo. Aí elas constroem seu habitat. Desta forma, por meio do
significado dado pelo ser humano à natureza, de domínio e expansão, dentro de
um significado de utilização que lhe empresta, atua sobre ela, produz transformação
e cultura, e realiza sua espiritualidade.
A
espiritualidade, sendo relação entre significante e significado, é dialética,
pois é ela que faz da pessoa e da comunidade ser significante e permite ao ser
humano e a sua comunidade transferir ao mundo que o cerca a transcendência, que
também utiliza essa mesma significação. Ao fazer significante a realidade que o
cerca, o ser humano dá origem às transformações, engendra causas e passa à
construção do futuro. Para viabilizar tais transformações, é necessário que a
comunidade transfira novos significados aos processos históricos, sociais e
mesmo espirituais.
Por isso,
podemos dizer, a partir da espiritualidade, que onde há comunidade, há vida e
comunicação, e que a comunicação é Espírito, ou então, resistência ao Espírito.
Dessa maneira, ou o Espírito é comunicação, ou então subverte a comunicação. A
comunicação é a realidade da relação de pessoas, e é pela comunicação que temos
um cosmo e nos encontremos nele. Assim, a missão das comunidades de fé é a
permanente comunicação no Espírito.
Ora, a ação de
libertar está ligada à ação de defender. A vida humana pode ser negada e, por
isso, para ser realmente vivida, tem de ser afirmada. Vida negada e recusada é
morte. Vida aceita e afirmada é liberdade. É
o Espírito quem convence o cosmo do alvo errado, que corrige o cosmo injusto e
que transforma as pessoas, de escravos e vítimas do erro, em alforriados pela
graça. É este Espírito defensor que possibilita o encontro das diferentes
experiências de vida, assim como a comunhão da diversidade que Ele próprio cria
e administra em cada um de nós. E é Ele quem nos encoraja à esperança. O
Espírito da unidade e da diversidade não cessa de atuar entre nós, mesmo quando
distantes uns dos outros e aparentemente separados. Teologicamente, podemos
ampliar ainda mais a compreensão do
Espírito ao dizer que Ele sopra sobre e através das vidas. Ele é a liberdade da
historia universal e particular das brasilidades, a espontaneidade da realidade,
a beleza da criação cósmica e o criador da vida nova das comunidades de fé.
E quando falamos que Ele é a espontaneidade da realidade, estamos dizendo que o
Espírito é paradoxal: se apresenta como gênese e escathon, fim de uma
aliança e princípio de uma nova, fim de uma era e início de uma nova. Quando
vem, ninguém se controla, mas ele controla a todos. Ninguém está sem controle,
porque ser cheio do Espírito é ser conduzido por sua soberania. Eis o paradoxo
de Espírito.
O Espírito é
cósmico e livre. Mas qual a relação entre liberdade e cosmo? Seguindo Irineu, podemos
dizer que a comunicação de Deus levou à existência, mas pelo Espírito, Ele
transforma o existente em cosmo, com sentido, com ordem de adequação e
adaptação. E se retornarmos a Hegel, esse Espírito cósmico é a consciência do
universo, Espírito vivo. Ou seja, assim como o Espírito deu sentido ao
existente, Ele tem como propósito dar sentido à vida humana, por isso é Ele
quem vai adiante, abre as portas e prepara o caminho para o sucesso da
comunicação.
O mesmo
Espírito, além de preparar as diferenças, e o Brasil é um exemplo disso, é quem
transforma essas bases para a expansão da comunicação. A visão da expansão da
comunicação é uma dádiva do Espírito para as comunidades de fé, mas a unidade
na comunidade só é válida na variedade, nunca na uniformidade. A aceitação das
pessoas, com suas diferenças e particularidades, e aqui devemos falar de afrobrasileiros,
brasilíndios e neobrasileiros, é uma condição indispensável para a saúde da
comunidade cristã.
A pneumatologia vivida a partir
da multiculturalidade brasileira apresentará a obra do Espírito como realidade
comunitária, e esse talvez seja o sentido maior, recuperado pelos irmãos
carismáticos e pentecostais no Brasil. Mas, em meio às divergências e
separações, às inimizades e choques, prevalece a amplidão do Espírito. Ou seja,
Ele cria espaço, põe em movimento, leva da estreiteza para a largura, cria o
horizonte e nas nossas vidas amplia o horizonte. Na experiência com o Espírito,
Deus não é sentido somente como Pessoa da Trindade, mas também como aquele espaço
e tempo de liberdade em que o ser humano pode se desenvolver.
Créditos
Artigo de Jorge Pinheiro dos
Santos
Elementos
para uma pneumatologia brasileira
Uma
leitura pós-moltmanniana
MOLTMANN, Jürgen. O Espírito
da Vida: uma pneumatologia
integral.
Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1999
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