A imagem que a historiografia
bíblica esboça da saga do relacionamento de Israel com YHWH, pode ser descrita
em três fases, ou seja, do politeísmo a monolatria intolerante e, por fim, ao
monoteísmo radical.
A pré-história e a história
primitiva de Israel, usando como fontes os livros veterotestamentários de
Gênesis, apresenta a divindade denominada Deus de Abraão, Deus de Isaque e Deus
de Jacó, é uma divindade que na história das religiões é denominada “Deus dos
Pais”. O característico dessas divindades é que elas não se vinculam a um
determinado lugar ou a um santuário fixo, mas assumem uma relação pessoal com o
grupo de pessoas que a cultuam. Por isso, o Deus dos pais não tem nome próprio;
ele é chamado pelo nome da pessoa que o cultuou primeiro, e fundou seu culto, a
quem esse Deus apareceu primeiro para dar-lhe determinadas promessas. Por isso,
ele se chama “Deus do meu pai”, “Deus do teu pai”, ou, em fase posterior, “Deus
de Abraão”, “Deus de Isaque”, “Deus de Jacó”, e, finalmente “Deus de Abraão,
Isaque e Jacó”. O motivo das promessas de descendência e terra é um motivo
antigo e corresponde aos anseios mais profundos de todo pastores nômades em
situação de transumância. É possível compreender a religião dos deuses dos pais
como a variante nômade ou seminômade do culto a El ou Elohim, comum a todos os
semitas.
Um forte indício disso são os
nomes estranhos que encontramos na pré-história de Israel. São nomes em forma
de orações com o imperfeito de um verbo e um nome divino, ou em forma abreviada
sem o nome divino (Yisra-el, Yizkak-el, ou Yakob-el) e futuramente as formas compostas do nome de
Deus, tais como: El-Shadai, El-Gibor, El-Elion, etc.
A primeira advertência contra o
politeísmo hebraico vem com o Decálogo Ex 20:3 “Não terás outros deuses diante de mim”. Essa declaração, a
segunda lei do Decálogo além de comprovar o politeísmo já implantado entre os hebreus,
devido a contaminação da idolatria, mostra a visão monolatra do Israel
primitivo.
Somente durante a dominação assíria e
neobabilônica, época pré-exílica, podemos descrever a ideologia deuteronomista
como “monolatria intolerante”. YHWM é o único Deus que Israel deve adorar, mas
a existência de outras divindades não é contestada, pelo contrário: o livro do
Deuteronômio está cheio de exortações a não “seguir os outros deuses”, o que
provavelmente alude a procissões com estátuas cúlticas.
No inicio do período persa, pós-exílio
também chamada de judaísmo posterior, houve aparentemente, entre a elite, uma
guinada para um monoteísmo mais radical, como se mostra especialmente na polêmica
contra as estátuas cúlticas e as divindades das nações, no assim chamado
segundo Isaias (Is 40-55). Alguns textos tardios da História Deuteronomista
refletem esta mudança da monolatria para o monoteísmo. É especialmente o caso
de Dt 4, esse capítulo fornece, após uma instrução (v.1-9), uma nova
interpretação dos acontecimentos no Horeb apresentados no cap. 5 (v.10-24). O
autor de Dt 4 enfatiza o segundo mandamento do Decálogo, a interdição de
estátuas de culto, e lança a idéia de que nenhuma forma de YHWH foi vista no
Horeb. Ele amplia a interdição da representação de YHWH transformando-a numa
rejeição geral a qualquer representação cúltica.
Israel assume assim as
tradições dos patriarcas pré-israelitas. O Deus dos pais, já antigamente
identificado como o Deus El, cultuado em diversos santuários locais, fundiu-se
com YHWH, o Deus de Israel. A identificação do Deus dos pais com o Deus YHWH se
dá no cumprimento da promessa do Deus dos pais.
O monoteísmo hebraico
desenvolveu-se gradualmente como configuração religiosa no antigo Israel,
basicamente entre os séculos IX e V a.C., a partir de uma realidade politeísta
(existência de várias divindades) vivida há longo tempo pelo povo hebreu.
Esta forma de
adoração consistia na negação de outras representações religiosas e na ênfase
do culto a YHWH como único Deus.
Queremos destacar
alguns elementos dessa diversidade religiosa (politeísta), bem como parte da
complexidade simbólica que está por detrás do processo de desenvolvimento da
religião hebraica. Partindo do conceito de que o sagrado “é o real por
excelência, ao mesmo tempo poder, eficiência, fonte de vida e fecundidade”
(ELIADE, 1992, p. 27), acreditamos que este sagrado, no antigo Israel, não esteve
enclausurado em uma única manifestação religiosa, mas foi partilhado por meio
de uma vasta simbologia.
Conforme Reimer
(2003, p. 979), o desenvolvimento do monoteísmo no antigo Israel, propriamente
entre os séculos IX e V a.C., pode ser esboçado em cinco fases:
A primeira fase seria
marcada pelo sincretismo entre El e YHWH, no qual El é uma divindade cananéia
cujas características é ser criador da terra e pai dos Deuses (REIMER, 2003, p.
979-980).
A segunda fase, por
volta do século IX a.C., seria marcada pelos conflitos com a divindade Baal. No
imaginário religioso, Baal era filho de El; sua característica principal era
ser responsável pela fertilidade (REIMER, 2003, p. 980).
Crüsemann (2001, p.
780) aponta especialmente a época do profeta Elias (aproximadamente século IX
a.C.), como o momento histórico em que se começa a falar da exclusividade do
Deus de Israel, principalmente no embate com o Deus Baal e no processo de
sincretismo no qual YHWH incorpora as características de Baal. Para o
pesquisador, os escritos bíblicos do Primeiro Testamento já teriam em si a
tendência de mostrar, do início ao fim, a realidade do monoteísmo: “a proibição
de se adorar outras divindades já é pressuposta em Gênesis e formulada
claramente no Sinai (Ex 20,2)” (p. 781).
A terceira fase
estaria marcada pela ênfase da adoração exclusiva a YHWH. O profeta Oséias, no
século VIII a.C., equipara a idolatria à adoração de outras divindades. Neste
período acontece a reforma de Ezequias (2Rs 18,4), que, entre outras ações,
promove a remoção dos lugares altos e a destruição da serpente de bronze,
Neustã. A reforma é legitimada legalmente por meio do Código da Aliança (Ex
20,22-23,29) (REIMER, 2003, p. 980-981).
Ribeiro (2002, p.
994) destaca que a citação de 2Rs 18,4 faz entender que Neustã constituía, ao
lado de Aserá e YHWH, uma tríade divina em Jerusalém. Neustã era, portanto,
uma divindade
relacionada aos harashim, trabalhadores dos metais (ouro, prata, bronze,
ferro), da pedra e da madeira. Esteve desde cedo relacionada aos trabalhadores
da mineração. Serpentes de cobre foram localizadas nos vestígios arqueológicos
das minas de cobre ao sul de Israel, exatamente na região onde a tradição
bíblica localiza o episódio das serpentes de bronze (Nm 21,4-9) (RIBEIRO, 2002,
p. 994).
Este terceiro momento
seria caracterizado também pelo sincretismo entre Baal e YHWH, bem como com
outras divindades. Conforme Secretti (2006, p. 98), o processo pelo qual os
atributos de Baal passam a ser apropriados por YHWH denomina-se ‘baalização’ de
YHWH. A divindade YHWH passa a ser afirmada como responsável pela fertilidade,
função que antes era de Baal.
A quarta fase
remeteria à época imediatamente posterior à dominação assíria, com a reforma de
Josias (2Rs 22-23), justificada legalmente pelo Código Deuteronômico. Ela
engloba uma série de medidas que visavam a exclusividade de YHWH e sua
centralidade em Jerusalém. Trata-se de algo como um “monoteísmo nacional”, que
afirma a ideologia de um “deus nacional”, sendo que “o santuário central e seus
agentes religiosos (sacerdotes e profetas) desempenham funções importantes
neste processo” (REIMER, 2008, p. 13). Reimer (2003, p. 982)
afirma que do
templo de Jerusalém teriam sido retirados utensílios feitos para Baal, Aserá e
o Exército do céu; sacerdotes dos 'altos' foram depostos, a estaca sagrada
(hebraico: asherah) foi destruída, cabanas onde as mulheres teciam véus para
Aserá foram demolidas etc. Também os santuários do interior foram
desautorizados e desmantelados. Houve, assim, claramente, uma concentração do
culto a Yahveh em Jerusalém, com a conseqüente exigência da adoração exclusiva
dessa divindade.
Cada vez mais, as
reformas religiosas vêm carregadas de intolerância religiosa, proibindo
qualquer tipo de imagens de divindades, mesmo que de YHWH. Esta fase teria
repercutido intensamente no culto à Deusa Aserá, cultuada até este período como
possível consorte de YHWH (REIMER, 2003, p. 982).
Secretti (2006, p.
141) ressalta que
com o surgimento do
Estado, a religião camponesa, com seus mitos, foi apropriada e funcionalizada a
favor do mesmo Estado, que passou a perseguir e eliminar toda e qualquer
expressão religiosa popular, seus símbolos, a centralizar o culto num Deus
único, em Jerusalém (2Rs 23,4- 20).
A quinta fase seria
marcada pelo monoteísmo absoluto que teve sua sintetização no período do exílio
(597-539 a.C.). Esta realidade pode ser percebida com clareza em Is 45,5, onde,
pela boca do profeta, o próprio YHWH afirma: “Eu sou YHWW e fora de mim não
existe outro Deus”. E Gn 1 seria a afirmação do poder criacional de YHWH diante
do domínio babilônico ancorado na fidelidade à divindade Marduc. No entanto, o
pós-exílio (539-445 a.C.), época do domínio persa e do retorno das elites
sacerdotais exiladas na Babilônia, seria o momento de maior afirmação do
monoteísmo absoluto em YHWH, bem como, da supressão de qualquer referência a
outras divindades, sobretudo femininas. Toda a literatura bíblica produzida e
finalizada neste período terá essa tendência exclusivista em YHWH (REIMER,
2003, p. 983-984), sem, contudo, apagar por completo os indícios/vestígios e a
pluralidade anterior (REIMER, 2005).
Bibliografia:
ROEMER, Thomas - A Chamada
história deuteronomista , Editora Vozes –São Paulo 2005
ELIADE, Mircea. O
sagrado e o profano. Tradução de Rogério Fernandes. São Paulo: Martins Fontes,
1992.
CRÜSEMANN, Frank.
Elias e o surgimento do monoteísmo no Antigo Israel. Fragmentos de Cultura,
Goiânia, v. 11, n. 5, p. 779-790, 2001.
REIMER, Haroldo.
Sobre os inícios do monoteísmo no Antigo Israel. Fragmentos de Cultura,
Goiânia, v. 13, n. 5, p. 967-987, 2003.
REIMER, Haroldo.
Monoteísmo e identidade. In:
RICHTER REIMER, Ivoni (Org.). Imaginários da divindade: textos e
interpretações. Goiânia: UCG; São Leopoldo: Oikos, 2008. p. 9-24.
RIBEIRO, Osvaldo
Luiz. De Siquém a Jerusalém – Josué 24,1-28 como narrativa mítico-literária.
Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana, Petrópolis, São Leopoldo, n.
61, p. 52-67, 2008.
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