terça-feira, 26 de maio de 2015

Do politeísmo ao monoteísmo, a saga de um povo.

A imagem que a historiografia bíblica esboça da saga do relacionamento de Israel com YHWH, pode ser descrita em três fases, ou seja, do politeísmo a monolatria intolerante e, por fim, ao monoteísmo radical.
A pré-história e a história primitiva de Israel, usando como fontes os livros veterotestamentários de Gênesis, apresenta a divindade denominada Deus de Abraão, Deus de Isaque e Deus de Jacó, é uma divindade que na história das religiões é denominada “Deus dos Pais”. O característico dessas divindades é que elas não se vinculam a um determinado lugar ou a um santuário fixo, mas assumem uma relação pessoal com o grupo de pessoas que a cultuam. Por isso, o Deus dos pais não tem nome próprio; ele é chamado pelo nome da pessoa que o cultuou primeiro, e fundou seu culto, a quem esse Deus apareceu primeiro para dar-lhe determinadas promessas. Por isso, ele se chama “Deus do meu pai”, “Deus do teu pai”, ou, em fase posterior, “Deus de Abraão”, “Deus de Isaque”, “Deus de Jacó”, e, finalmente “Deus de Abraão, Isaque e Jacó”. O motivo das promessas de descendência e terra é um motivo antigo e corresponde aos anseios mais profundos de todo pastores nômades em situação de transumância. É possível compreender a religião dos deuses dos pais como a variante nômade ou seminômade do culto a El ou Elohim, comum a todos os semitas.
Um forte indício disso são os nomes estranhos que encontramos na pré-história de Israel. São nomes em forma de orações com o imperfeito de um verbo e um nome divino, ou em forma abreviada sem o nome divino (Yisra-el, Yizkak-el, ou Yakob-el) e  futuramente as formas compostas do nome de Deus, tais como: El-Shadai, El-Gibor, El-Elion, etc.
A primeira advertência contra o politeísmo hebraico vem com o Decálogo Ex 20:3 “Não terás outros deuses diante de mim”. Essa declaração, a segunda lei do Decálogo além de comprovar o politeísmo já implantado entre os hebreus, devido a contaminação da idolatria, mostra a visão monolatra do Israel primitivo.
Somente durante a dominação assíria e neobabilônica, época pré-exílica, podemos descrever a ideologia deuteronomista como “monolatria intolerante”. YHWM é o único Deus que Israel deve adorar, mas a existência de outras divindades não é contestada, pelo contrário: o livro do Deuteronômio está cheio de exortações a não “seguir os outros deuses”, o que provavelmente alude a procissões com estátuas cúlticas.
No inicio do período persa, pós-exílio também chamada de judaísmo posterior, houve aparentemente, entre a elite, uma guinada para um monoteísmo mais radical, como se mostra especialmente na polêmica contra as estátuas cúlticas e as divindades das nações, no assim chamado segundo Isaias (Is 40-55). Alguns textos tardios da História Deuteronomista refletem esta mudança da monolatria para o monoteísmo. É especialmente o caso de Dt 4, esse capítulo fornece, após uma instrução (v.1-9), uma nova interpretação dos acontecimentos no Horeb apresentados no cap. 5 (v.10-24). O autor de Dt 4 enfatiza o segundo mandamento do Decálogo, a interdição de estátuas de culto, e lança a idéia de que nenhuma forma de YHWH foi vista no Horeb. Ele amplia a interdição da representação de YHWH transformando-a numa rejeição geral a qualquer representação cúltica.
Israel assume assim as tradições dos patriarcas pré-israelitas. O Deus dos pais, já antigamente identificado como o Deus El, cultuado em diversos santuários locais, fundiu-se com YHWH, o Deus de Israel. A identificação do Deus dos pais com o Deus YHWH se dá no cumprimento da promessa do Deus dos pais.
O monoteísmo hebraico desenvolveu-se gradualmente como configuração religiosa no antigo Israel, basicamente entre os séculos IX e V a.C., a partir de uma realidade politeísta (existência de várias divindades) vivida há longo tempo pelo povo hebreu.
Esta forma de adoração consistia na negação de outras representações religiosas e na ênfase do culto a YHWH como único Deus.
Queremos destacar alguns elementos dessa diversidade religiosa (politeísta), bem como parte da complexidade simbólica que está por detrás do processo de desenvolvimento da religião hebraica. Partindo do conceito de que o sagrado “é o real por excelência, ao mesmo tempo poder, eficiência, fonte de vida e fecundidade” (ELIADE, 1992, p. 27), acreditamos que este sagrado, no antigo Israel, não esteve enclausurado em uma única manifestação religiosa, mas foi partilhado por meio de uma vasta simbologia.
Conforme Reimer (2003, p. 979), o desenvolvimento do monoteísmo no antigo Israel, propriamente entre os séculos IX e V a.C., pode ser esboçado em cinco fases:
A primeira fase seria marcada pelo sincretismo entre El e YHWH, no qual El é uma divindade cananéia cujas características é ser criador da terra e pai dos Deuses (REIMER, 2003, p. 979-980).
A segunda fase, por volta do século IX a.C., seria marcada pelos conflitos com a divindade Baal. No imaginário religioso, Baal era filho de El; sua característica principal era ser responsável pela fertilidade (REIMER, 2003, p. 980).
Crüsemann (2001, p. 780) aponta especialmente a época do profeta Elias (aproximadamente século IX a.C.), como o momento histórico em que se começa a falar da exclusividade do Deus de Israel, principalmente no embate com o Deus Baal e no processo de sincretismo no qual YHWH incorpora as características de Baal. Para o pesquisador, os escritos bíblicos do Primeiro Testamento já teriam em si a tendência de mostrar, do início ao fim, a realidade do monoteísmo: “a proibição de se adorar outras divindades já é pressuposta em Gênesis e formulada claramente no Sinai (Ex 20,2)” (p. 781).
A terceira fase estaria marcada pela ênfase da adoração exclusiva a YHWH. O profeta Oséias, no século VIII a.C., equipara a idolatria à adoração de outras divindades. Neste período acontece a reforma de Ezequias (2Rs 18,4), que, entre outras ações, promove a remoção dos lugares altos e a destruição da serpente de bronze, Neustã. A reforma é legitimada legalmente por meio do Código da Aliança (Ex 20,22-23,29) (REIMER, 2003, p. 980-981).
Ribeiro (2002, p. 994) destaca que a citação de 2Rs 18,4 faz entender que Neustã constituía, ao lado de Aserá e YHWH, uma tríade divina em Jerusalém. Neustã era, portanto,
uma divindade relacionada aos harashim, trabalhadores dos metais (ouro, prata, bronze, ferro), da pedra e da madeira. Esteve desde cedo relacionada aos trabalhadores da mineração. Serpentes de cobre foram localizadas nos vestígios arqueológicos das minas de cobre ao sul de Israel, exatamente na região onde a tradição bíblica localiza o episódio das serpentes de bronze (Nm 21,4-9) (RIBEIRO, 2002, p. 994).
Este terceiro momento seria caracterizado também pelo sincretismo entre Baal e YHWH, bem como com outras divindades. Conforme Secretti (2006, p. 98), o processo pelo qual os atributos de Baal passam a ser apropriados por YHWH denomina-se ‘baalização’ de YHWH. A divindade YHWH passa a ser afirmada como responsável pela fertilidade, função que antes era de Baal.
A quarta fase remeteria à época imediatamente posterior à dominação assíria, com a reforma de Josias (2Rs 22-23), justificada legalmente pelo Código Deuteronômico. Ela engloba uma série de medidas que visavam a exclusividade de YHWH e sua centralidade em Jerusalém. Trata-se de algo como um “monoteísmo nacional”, que afirma a ideologia de um “deus nacional”, sendo que “o santuário central e seus agentes religiosos (sacerdotes e profetas) desempenham funções importantes neste processo” (REIMER, 2008, p. 13). Reimer (2003, p. 982)
afirma que do templo de Jerusalém teriam sido retirados utensílios feitos para Baal, Aserá e o Exército do céu; sacerdotes dos 'altos' foram depostos, a estaca sagrada (hebraico: asherah) foi destruída, cabanas onde as mulheres teciam véus para Aserá foram demolidas etc. Também os santuários do interior foram desautorizados e desmantelados. Houve, assim, claramente, uma concentração do culto a Yahveh em Jerusalém, com a conseqüente exigência da adoração exclusiva dessa divindade.
Cada vez mais, as reformas religiosas vêm carregadas de intolerância religiosa, proibindo qualquer tipo de imagens de divindades, mesmo que de YHWH. Esta fase teria repercutido intensamente no culto à Deusa Aserá, cultuada até este período como possível consorte de YHWH (REIMER, 2003, p. 982).
Secretti (2006, p. 141) ressalta que
com o surgimento do Estado, a religião camponesa, com seus mitos, foi apropriada e funcionalizada a favor do mesmo Estado, que passou a perseguir e eliminar toda e qualquer expressão religiosa popular, seus símbolos, a centralizar o culto num Deus único, em Jerusalém (2Rs 23,4- 20).
A quinta fase seria marcada pelo monoteísmo absoluto que teve sua sintetização no período do exílio (597-539 a.C.). Esta realidade pode ser percebida com clareza em Is 45,5, onde, pela boca do profeta, o próprio YHWH afirma: “Eu sou YHWW e fora de mim não existe outro Deus”. E Gn 1 seria a afirmação do poder criacional de YHWH diante do domínio babilônico ancorado na fidelidade à divindade Marduc. No entanto, o pós-exílio (539-445 a.C.), época do domínio persa e do retorno das elites sacerdotais exiladas na Babilônia, seria o momento de maior afirmação do monoteísmo absoluto em YHWH, bem como, da supressão de qualquer referência a outras divindades, sobretudo femininas. Toda a literatura bíblica produzida e finalizada neste período terá essa tendência exclusivista em YHWH (REIMER, 2003, p. 983-984), sem, contudo, apagar por completo os indícios/vestígios e a pluralidade anterior (REIMER, 2005).

Bibliografia:
ROEMER, Thomas - A Chamada história deuteronomista , Editora Vozes –São Paulo 2005
ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. Tradução de Rogério Fernandes. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
CRÜSEMANN, Frank. Elias e o surgimento do monoteísmo no Antigo Israel. Fragmentos de Cultura, Goiânia, v. 11, n. 5, p. 779-790, 2001.
REIMER, Haroldo. Sobre os inícios do monoteísmo no Antigo Israel. Fragmentos de Cultura, Goiânia, v. 13, n. 5, p. 967-987, 2003.
REIMER, Haroldo. Monoteísmo e identidade. In: RICHTER REIMER, Ivoni (Org.). Imaginários da divindade: textos e interpretações. Goiânia: UCG; São Leopoldo: Oikos, 2008. p. 9-24.


RIBEIRO, Osvaldo Luiz. De Siquém a Jerusalém – Josué 24,1-28 como narrativa mítico-literária. Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana, Petrópolis, São Leopoldo, n. 61, p. 52-67, 2008.

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