sábado, 9 de junho de 2018

A INFLUÊNCIA DO LIVRO DE ENOQUE NO MUNDO JUDAICO-CRISTÃO - Parte 1


A tradição de Enoque e os anjos caídos
Quem foi Enoque?
Antes de analisarmos a influência enoquita no mundo judaico, precisamos entender sobre esse personagem mitológico e enigmático que deu origem a inspiração dessa literatura. Enoque aparece em duas genealogias no livro de Genesis. Em Gn 4. 17-18, de fonte Javista, Enoque é o terceiro na genealogia. Adão gera Cain que gera Enoque. Porém, no capítulo seguinte Gn 5, 18-24, de fonte Sacerdotal, Enoque passa a ser o sétimo após Adão. Lemos que Enoque era filho de Jarede e pai de Matusalém. E que “Todos os dias de Enoque foram de trezentos e sessenta e cinco anos. Andou Enoque com Deus e já não era, porque Deus o tomou para si”. Dois fatos importantes se destacam nesse texto de Gênesis, o primeiro é que Enoque viveu pouco em relação a todos os outros citados, e o segundo é que Enoque é o único que não morre, mas é tomado por Deus. Para Collins (2010, p.77), a breve menção sobre Enoque “é a semente da qual as especulações posteriores nasceram”, o fato da menção sacerdotal de que Enoque é o sétimo após Adão e que vive 365 anos, está em paralelo com a lista dos Reis Sumérios, onde o sétimo rei é Enmeduranki ou Enmenduranna rei de Sippar, centro do culto de Shamash, cultuavam o deus sol, cujo calendário solar era de 364 dias.
Collins (2010, p.79) entende que há paralelos entre Enoque e as figuras lendárias mesopotâmicas sugere que Enoque foi desenvolvido como uma contraparte judaica de heróis tais como Enmeduranki – nenhum pouco inferior a estes em antiguidade e status, ou acesso ao conhecimento divino. Para o autor, a figura de Enoque pode ser percebida por um lado como uma resposta aos heróis dos quais os babilônicos reivindicavam grande sabedoria e poderes revelatórios. Na comunidade judaica da diáspora ocidental, Enoque passa a ter grande importância, pois fora misteriosamente “tomado” por Deus, por isso, estava apto a ser o revelador dos mistérios celestiais da história primordial de toda a humanidade. Para Reed, Enoque torna-se com o passar dos tempos um escriba, sábio, cientista, visionário que é tomado para o céu e atravessa com os anjos a terras até seus confins. Como profeta e testemunha ele exorta contra o pecado, prevê a história e até intercede pelos anjos pecadores.

Os anjos caídos
O Mito dos Vigilantes (mito dos anjos que caíram do céu) está preservado no Livro dos Vigilantes, “pode servir de introdução à literatura de Enoque, uma vez que é uma das obras mais antigas, pré-macabeia, e fornece a elaboração mais explicita da história de Enoque” (COLLINS, 2010, p. 80). Este livro, somente foi preservado na versão etíope (no idioma Ge’ez), daí o nome de I Enoque ou Enoque etíope. Após sua descoberta no sec. XVIII, sua primeira publicação iniciou-se no séc. XIX, realizada por R. Laurence em 1839. A partir de então tem impulsionado muitos pesquisadores a levarem a sério sua importância.
É consenso entre os pesquisadores que I Enoque de que o livro tenha origem compósita, uma coleção de cinco livros que não estão em ordem cronológica, pertencentes a um longo período do judaísmo desde o segundo templo até a era crista. A divisão dos livros de I Enoque Etíope é a seguinte:
           
Livro dos Vigilantes (6-36);
            Parábolas de Enoque (37-71);
            Livro Astronômico (72-82);
            Livro dos Sonhos {com o apocalipse dos Animais] (83-90);
            Epístola de Enoque (91-105).

Para Collins (p.81), o livro pode ser dividido em três seções principais: capítulos 1-5 constituem uma introdução, caracterizada como as “palavras da benção de Enoque, segundo as quais ele abençoou os escolhidos e justos que estarão presentes no dia da aflição”; os capítulos 6- 16 são uma reelaboração da história dos “filhos de Deus” em Gênesis 6; e os capítulos 17-36 descrevem início e fim de sua viagem celestial e a conclusão do Livros dos Vigilantes.
Terra (2014, p.27) explica, que existem outras propostas de divisão do livro, Vanderkam (1984) faz uma divisão ainda mais complexa. Ele divide os capítulos do Livro dos Vigilantes da seguinte maneira:
            1-5:      Uma repreensão escatológica
            6-11:    História sobre a descida dos anjos e pecado
            12-16:  Enoque e a petição dos Vigilantes
            17-19:  Primeira jornada de Enoque
            20-36:  Segunda jornada de Enoque

Iremos focar neste trabalho, os capítulos 6-11 que narram a história da descida dos anjos denominados “Vigilantes”, o pecado e a consequente queda. De acordo com o texto dos capítulos 6-11, um grupo de seres angelicais, nomeados de Vigilantes, sentiram-se atraídos pela beleza das filhas dos homens, mulheres, e conspiraram entre si sob a liderança de Semiaza, com o propósito de possuírem-nas. Como afirma I Enoque:
Quando os filhos dos homens se multiplicaram, naqueles dias, nasceram-lhes filhas bonitas e graciosas. E os vigilantes, filhos do céu, ao verem-nas, as desejaram e disseram entre si: “Venham, escolhamos para serem as nossas esposas as filhas dos homens, e tenhamos filhos! ” Disse-lhes então o seu chefe Semiaza: “Eu receio que vós não queirais realizar isso, deixando-me no dever de pagar sozinho o castigo de um grande pecado”. Eles responderam-lhe e disseram, “Nós todos estamos dispostos a fazer um juramento, comprometendo-nos a uma maldição comum, mas não abrir mão do plano, e assim executá-lo. ” Então eles juraram conjuntamente, obrigando-se a maldição que a todos atingiriam. Eram ao todo duzentos os que, nos dias de Jared, haviam descido sobre o cume do monte Hermon. Chamaram-no Hermon porque sobre ele juraram e se comprometeram a maldições comum. (I Enoque 6,1-5).
A maioria dos pesquisadores modernos, admitem que a dependência da tradição enoquita, utilizou-se do texto de Genesis 6, ou de uma parte antiga, para adequar suas propostas teológicas da origem do mal e dos pecados da Terra. O mito dos Vigilantes, assim como Gênesis, narram a má ação pré-diluviana.
E aconteceu que, como os homens começaram a multiplicar-se sobre a face da terra, e lhes nasceram filhas. Viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram. Então disse o Senhor: Não contenderá o meu Espírito para sempre com o homem; porque ele também é carne; porém os seus dias serão cento e vinte anos. Havia naqueles dias gigantes na terra; e também depois, quando os filhos de Deus entraram às filhas dos homens e delas geraram filhos; estes eram os valentes que houve na antiguidade, os homens de fama. (Gn 6,1-4) João Ferreira de Almeida Revista e Corrigida (JFARC)

Outra consequência do contato dos vigilantes com os seres humanos, foi o ensino de atividade, tais como: a arte da metalurgia e da confecção de armas, às mulheres ensinaram a maquiagem, a ornamentação, a adivinhação, a magia, os encantamentos, a astrologia e o cultivo das raízes, conforme diz o texto:
Azazel ensinou aos homens a arte de fabricar espadas, facas, escudos, armadura peitoral e técnicas de metais, braceletes e adornos; como pintar os olhos e embelezar as sobrancelhas. Entre as pedras preciosas, escolher as mais caras e preciosas, e a metalurgia. Houve grande impiedade e muita fornicação, e corromperam-se os bons costumes. (8,1-3).
Junta-se a esses ensinamentos, outra relação elaborada por Nogueira (2006, p.145-155) em seu didático inventário dos ensinamentos dados pelos anjos, e seus respectivos nomes presentes dados na narrativa, a seguir:
Azazel: a metalurgia (para fabricar armas) e a cosmética.
Amerazak: Magia (encantamentos e raízes)
Armaros: como anular encantamentos
Baraquiel: os astrólogos
Kokabiel: os signos
Tamiel: astrologia
Asradel: o ciclo lunar.
O texto narra a história do relacionamento sexual dos anjos vigilantes com as mulheres. Dessa união proibida nascem gigantes, seres híbridos incontroláveis que comem todo o alimento da terra e posteriormente alimentam-se dos seres humanos (7, 1-6). O derramamento faz com que a humanidade clame a Deus (8,4). Segundo o texto os anjos Miguel, Sariel, Rafael e Gabriel, intercedem a Deus a favor da humanidade (I Enoque 9). Após tal episódio, a narrativa continua com a seguintes ordens divinas: Sariel é enviado por Deus para avisar Noé do julgamento divino que viria sobre o mundo. Deus envia Rafael para prender Azazel nas profundezas do deserto, até o julgamento final (10, 4-6); Gabriel é enviado para destruir sem piedade os gigantes (10,4-12);
Para Gabriel disse o Senhor: “vá a eles, os bastardos [gigantes] à raça mestiça, filhos da fornicação, e aniquila os filhos dos vigilantes que estão entre os homens. Coloca-os uns contra os outros, para que se mantem mutuamente. Não se prolongue mais os dias de suas vidas!”
Ao anjo Miguel, Deus ordena que prenda Semiaza e os anjos rebeldes. A narrativa (10, 11-15) diz que eles devem ser presos por sete gerações nos vales profundos da terra, até o juízo final. Por fim, os gigantes são condenados à destruição (14,5). Todavia, seus espíritos são liberados e transformam-se em espíritos malignos gerando uma vasta proliferação de demônios.
Agora, os gigantes nascidos da união de espirito com carne serão chamados de espíritos malignos na terra e sobre a terra. Os espíritos dos gigantes, os Nefilins oprimem, corrompem, atacam, pelejam, promovem a destruição; comem e não se fartam; bebem e não matam a sede. Esses espíritos atacam homens e mulheres, pois desses procederam (...). Aonde quer que haja sido os espíritos de seu corpo, pereça sua carne até o dia da grande consumação do juízo, com a qual o universo perecerá com os vigilantes e ímpios. (15, 8-16, 1).

Para Terra (2014, p. 51), o Livro dos Vigilantes tem características marcantes de uma teodiceia. Segundo o autor, ele responde sobre o mal no mundo, junto a essa temática aparece a dos ilícitos ensinamentos celestes. É um consenso geral entre os estudiosos, que I Enoque 6-11 é uma junção de dois ciclos diferentes de tradições sobre a queda de anjos, cujos Semiaza e Azazel são identificados como líderes. Para Nickelsburg, essas tradições explicam a causa do surgimento do mal no mundo, os eventos de desvendar os segredos da metalurgia, magia, encantamentos, astrologia, trouxeram a impureza, os ensinamentos impróprios e a violência; bem como o casamento com mulheres – nascimento de gigantes – devastação da terra pelos gigantes são uma forma de explicar o mal no plano divino. Para Collins (1982, p.98) o Mito dos Vigilantes e suas tradições “refletem algum tipo de crise”, além da explicação do mal sobre o mundo.
Os textos enoquita testemunham que o mal e a impureza no mundo são resultado de uma rebelião angelical. Nos textos citados, encontramos o tema do demoníaco ligado ao imaginário dos anjos caídos, a informação de que os espíritos dos gigantes se tornaram os espíritos maus com características demoníacas, pois oprimem, corrompem, atacam, etc. Collins (1997b, p.31) conclui: “desta forma a revolta dos vigilantes tornou-se a maior causadora da existência dos maus espíritos, por implicação, do pecado na humanidade”.

A história dos Vigilantes é o fundamento de uma tradição maior de Enoque. Sua forma primaria I Enoque 6-11, foi relida e aumentada na própria tradição enoquita e posteriormente nas tradições judaicas e cristãs. O tema da origem do mal é central no mito. Este trabalho, pretende analisar algumas das contribuições do desenvolvimento imagético dessa tradição na religiosidade judaica e posteriormente cristã. E como se desenvolveu a figura dos demônios, mais especificamente dos espíritos imundos.

A referências bibliográficas serão informadas com a parte 3.

domingo, 12 de novembro de 2017

Misoginia Cósmica

A cada dia que passa, a mulher conquista espaços que durante muito tempo foram dominados pelos homens. Hoje, ela é chefe, líder, executiva, comandante e… pastora. Para uns, é natural e aceitável que elas estejam em posição de destaque, no mercado de trabalho, dentro das igrejas. Para outros, não.

Kemer[1] (p.104) explica que; a literatura judaico-cristã, como produto de seu tempo, apresentou uma diferenciação de gêneros como estabelecidos pela própria natureza ou por Deus, que acabaram relegando às mulheres limitadas atuações, ou, uma misoginia que perpassou a antiguidade, esteve presente no mundo medievo e até hoje permeia o imaginário de diversas culturas. Muitas vezes influenciadas por sociedades patriarcais misóginas que viam no corpo feminino um perigo indomesticável.

Parte desse ódio contra o feminino, acompanhou as culturas patriarcais para subordinar as mulheres e limitar-lhes o poder e autonomia. Além disso, a tradição judaica do segundo templo e as obras cristãs posteriores mostram como a mulher foi alvo de gratuito preconceito, chegando, em alguns momentos, a ser vista como uma aliada das forças malignas.

Um texto extra bíblico e veterotestamentários de tradição apocalíptica pode nos ajudar a entender essa questão. Chamado de Mito dos Vigilantes e atribuído ao I Henoc (ou Henoc Etiope) admitido ser do séc. III a.C., está preservado o Livro dos Vigilantes, nesse livro um grupo de seres angelicais nomeados como Vigilantes se atraiu pela beleza das filhas dos homens e conspirou entre si sob a liderança de Shemihazah, com o propósito de possuir as belas mulheres, o que resultou em catástrofes imensuráveis e irremediáveis desordem cósmica.

Um outro texto é Jubileus (sec. II a.C.), que reconta a história do Gênesis, e novamente aparecem os anjos suduzidos pela beleza das mulheres e como resultado de relações sexuais o nascimento de gigantes. Por isso, aumentando a maldade sobre a Terra e Deus mandou o diluvio na época de Noé.

A importância dada à narrativa dos vigilantes e de Jubileus, se percebe na presença desses mitos em grande parte da tradição judaica e, posteriormente, cristã. Seguindo seus rastros, alguns textos podem ser mapeados para percebemos como as imagens desse mito influenciaram para o medo e ódio contra a mulher.

Vejamos essa influência no Novo Testamento, usaremos como exemplo o versículo 1 Co 11,10 em seu texto original no grego.

δια τουτο οφειλει η γυνη εξουσιαν εχειν επι της κεφαλης δια τους αγγελους

Por isso deve a mulher autoridade ter sobre a cabeça por causa dos anjos (tradução literal).

A palavra autoridade no grego “exousia” (grifada acima) tem o sentido de autoridade, habilidade.

Agora vejamos o que diz a tradução da Bíblia Almeida Revisada, 

Portanto, a mulher deve trazer sobre a cabeça um sinal de submissão, por causa dos anjos” 1Co 11.10.

Nesta tradução a palavra no grego εξουσιαν (exousia) é traduzida por “submissão”, ou seja, a mulher tinha habilidade, autoridade e licença para governar a igreja em pé de igualdade com os homens, agora segundo essa tradução, ela está submissa. Os “anjos” citados por Paulo faz menção ao mito dos Vigilantes de I Henoc.

Mas não para por aqui, vejamos o mesmo versículo na tradução da Bíblia Almeida Revista e Atualizada. 

“Por tanto, deve a mulher, por causa dos anjos, trazer véu na cabeça, como sinal de autoridade”. 

Percebemos que nesta tradução a submissão passa a ser visível, a Bíblia ARA acrescenta inoportunamente no texto original a palavra véu. No imaginário judaico-cristão, mostrar os cabelos era uma forma de sensualidade feminina. Neste caso, segundo o tradutor, usar véu é uma maneira de submissão.

Na Bíblia NTLH (Nova Tradução da Linguagem de Hoje), a situação da mulher piora de vez, vejamos 

Portanto, por causa dos anjos, a mulher deve por um véu na cabeça para mostrar que está debaixo da autoridade do marido” 1 Co 11,10. 

Nesta tradução, além do jugo do véu, ela ainda precisa estar debaixo da autoridade do marido (mais um acréscimo inexistente no original).  Entre outras palavras, aquela que não colocar o véu e não obedecer ao seu respectivo marido está em desacordo com a palavra de Deus.

Essa inabilidade na tradução desse versículo, ocasionou inúmeras interpretações equivocadas da palavra de Deus. A Bíblia é o sagrado e não cabe a nós discutirmos sobre o sagrado, mas neste caso precisamos reparar essa injustiça. Quantas vidas nasceram, viveram e morreram debaixo dessa submissão? E não foi esse o plano de Deus, para o criador não há separação entre homens e mulheres.

“Pois todos quantos em Cristo fostes batizados, de Cristo vos revestistes.  Não há judeu nem grego, escravo ou livre, homem ou mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.” Gálatas 3:27-28.

“É para que sejamos livres que Cristo nos libertou. Ficai, portanto, firmes e não vos submetais outra vez ao jugo da escravidão”Gálatas 5:1





[1] TERRA, Kenner R. C. Misoginia cósmica na literatura judaico-cristã. In: Revista do Jesus Histórico, VIII: 15. Rio de Janeiro, 2015, p.103-109. 

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Comentário Exegético do Apocalipse de João 4 e 5 e Daniel 12

Na estrutura do Apocalipse de João o capítulo 1 funciona como um prólogo, o visionário João é arrebatado em espírito e tem uma audição com um ser celestial, o conteúdo dessas revelações fornecerão as bases das cartas as sete igrejas da Ásia, mencionadas nos capítulos 2 e  3.

No capítulo 4, 1-11 Aqui começa a revelação propriamente dita, o arrebatamento deixa a esfera terrestre e passa para a dimensão celestial. O quarto e quinto capítulo apresentam o cenário celestial das visões, Deus assentado no seu trono, junto dele o séquito celestial composto de vinte e quatro anciãos sentados em seus tronos e quatro animais que não descansavam nem de dia e nem de noite, glorificando a Deus cantando “Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus, o Todo-poderoso, que era, e que é, e que há de vir”. Enquanto isso os anciãos prostrados o adoravam com mais doxologia.

Ao interpretar a visão, o visionário faz uso dos elementos conhecidos no judaísmo. Ao citar 4.2 “um trono posto no céu” João faz uma releitura de Is 6.1; Jr 17.12; Ez 1.26; 10.1 e Dn 7.9. Em Ap 4.5 ele relembra em Êxodo 19.16 o encontro de Moises com Deus no Sinai; ao citar nesse versículo “as sete lâmpadas de fogo” se reporta ao tabernáculo 2 Cr 4.20; Ez 1.13 e Zc 4.2.

O capítulo 5 é continuação do capítulo 4. O cenário é o mesmo, as personagens também. João tem a preocupação em descrever o que ocorre diante do trono. No versículo 1 aparece um livro é um livro especial, escrito dos dois lados e selado com sete selos, sinal da sua inviolabilidade. Ninguém é digno de abrir o livro e desatar os seus selos. João chora, muito. Até que alguém apresenta duas soluções messiânicas, entra em cena “o leão da tribo de Judá” e a “Raiz de Davi”. João olha procurando o leão, mas ele vê um cordeiro que foi morto. Pela primeira vez o visionário apresenta o “cordeiro” que tem na simbologia judaica dois significados: a) O cordeiro é pacifico. Eles esperavam um libertador guerreiro como Davi, um libertador nacional. Ao citar o cordeiro, João faz uma releitura de  Is 53.7 “como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca.” E b) O cordeiro é o substituto, na teologia judaica o cordeiro tomava o lugar do homem pecador; Gn 22 e Ex 12; Jo 1,29 “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”.

O culto continua, com a entronização do Cordeiro, as doxologias são iniciadas pelos anciãos que se prostram em adoração, seguido pelos anjos ao redor do trono, a seguir pelos animais o número agora é de milhões de milhões e milhares de milhares. Até que o cosmo representado pelas criaturas que estão no céu, na terra, e embaixo da terra e no mar o adoram.

Estrutura proposta para essa perícope.
5.1:      Visão do trono.
5.2-3:   O rolo inviolável.
5.4-5:   Desespero do visionário.
5.6-7:   O Cordeiro que é digno.
5.8-14: Inicio do culto ao Cordeiro.
5.8:      Adoração dos vinte e quatro anciãos.
5.11:    Adoração das miríades de anjos.
5.13:    O cosmo se prostra diante da sua glória e o adora.

Comparando com o âmbito metafórico de Daniel 12 vemos que o Apocalipse de João capítulo 5 é uma releitura da promessa da ressurreição citada no versículo 2 de Daniel, “para todo aquele que se achar escrito no livro”. No versículo 9 esse mesmo livro é selado “ E ele disse: Vai, Daniel porque estas palavras estão fechadas e seladas até o fim dos tempos”. O fim dos tempos está agora sendo desvendado na revelação de Joao. O livro é o mesmo que foi selado e só pode ser aberto no fim dos tempos. Nele contém a vida e a morte, a história da humanidade, todos em todos os tempos ressuscitarão, uns para a vida eterna e outros para vergonha e desprezo eterno. Neste contexto lembramos a influência persa no judaísmo do segundo tempo com de dualidade, de vida e morte, juízo escatológico, finais dos tempos, julgamento final, aniquilamento do mal, felicidade eterna para os justos e a noção de ressurreição. Pensamentos muito comum no apocaliptismo extra canônico do judaísmo posterior.

O livro de Daniel versículo 13 fecha com uma dramática exclamação “vai até ao fim; porque repousarás e estarás na tua sorte, no fim dos dias”. É uma incógnita, a expressão estarás na tua sorte, é no mínimo desesperançosa. Entendo que o homem estava por sua própria conta. Talvez isso se deve ao fato do cumprimento da lei, como explica o livro de Romanos do capítulo 1 ao 7.

Essa desesperança também e demonstrada nos primeiros veículos do Apocalipse de João “quem é digno de abrir o livro e desatar os seus selos”. Por fim em João temos a resposta de todas as duvidas e perguntas da humanidade, não estamos por conta da nossa própria sorte (como em Daniel), o Cordeiro é digno de restaurar a humanidade caída.





sábado, 16 de setembro de 2017

Um Apocalipse no Antigo Testamento.

O gênero literário apocalíptico, abrange um conjunto de literaturas muito maior do que estamos acostumados. Logo que citamos a palavra apocalipse vem imediatamente em nossa mente o Apocalipse de João no Novo Testamento, mas a literatura apocalíptica precede o cristianismo.  A ideia de que existe uma classe de escritos que podem ser rotulados “apocalípticos” é bastante aceita desde 1832 quando Friedrich Lücke[1] publicou o seu primeiro estudo sobre o assunto. Desde então estudos começaram a ser realizados nos livros 1 Enoque, A ascensão de Isaias, 4 Esdras, oráculos Sibilinos, 2 e 3 Baruc, 2 Enoque, Apocalipse de Abraão e o Testamento de Abraão, todos considerados obras apocalíticas judaicas não inclusa no cânon do Antigo Testamento.

No Antigo Testamento temos diversos textos escatológicos, podemos citar o livro do profeta Isaias capítulo 24, Zacarias e no livro de Joel. Mas, é no livro de Daniel[2] que encontramos todos os elementos constitutivo do gênero literário apocalítico. Não no livro como um todo, isso porque o livro de Daniel pode ser dividido em duas partes; a primeira parte são as narrativas da corte e a segunda parte o Apocalipse de Daniel.

As narrativas da corte fornecem o ponto de partida para o Apocalipse, elas circulavam de forma oral entre as comunidades que retornaram do exilio. Essas narrativas tentam mostrar para uma comunidade da diáspora, ou pelo menos que estavam fora da sua terra, como manter a fé longe de casa.

Vejam que temos seis histórias do capítulo 1 ao capítulo 6 de Daniel;
Capítulo 1 - Os amigos resistem na corte da Babilônia;
Capítulo 2 – Nabucodonosor sonha com uma estátua;
Capítulo 3 – Os amigos na fornalha de fogo;
Capítulo 4 – Nabucodonosor é castigado;
Capítulo 5 – O castigo de Belsazar
Capítulo 6 – Na cova dos leões.

Cada uma dessas histórias de Daniel tem como pano de fundo o mesmo tema. Ou seja, como eu posso manter a minha fidelidade a YHVH longe da minha terra? Sendo Daniel personagem ou as vezes os seus amigos, mas independente dos personagens as histórias têm o mesmo tema, normalmente são judeus piedosos que tentam subsistir em termos de identidade judaica, e manter a fé.  

Percebe-se que nas narrativas da corte que os monarcas estrangeiros (babilônico, persa e helenistas) se tomam aliados, isso porque nas narrativas da corte esses judeus estão fora de casa e tem que sobreviver, e como eles sobrevivem, sendo súditos fiéis e evitando contraria-los. Nabucodonosor se torna amigo de Daniel, faz o bem a ele, assim como os demais monarcas. Collins afirma, que os contos de Daniel pululam de problemas históricos. Nestes contos Daniel é em primeiro lugar um interprete de sonhos. Posteriormente, em Daniel 7-12, ele é o próprio sonhador.

A segunda parte do livro ocorre dos capítulos 7 a 12, nestes capítulos os monarcas já não são aliados. O tema agora já não é mais como sobreviver na diáspora, o tema agora é o fim do mundo está próximo, poderíamos dar como tema: A última perseguição já começou – o fim está próximo. Então os capítulos 7, 8, 9, 10, 11 e 12 do livro de Daniel, manifestam uma ansiedade escatológica que você não encontra nos anteriores. Os aspectos literários também são diferentes, por isso, os autores costumam chamar a porção de Daniel de 7 a 12 de Apocalipse de Daniel.  Ou melhor do capitulo 7 ao 12 temos 4 apocalipses, sendo:
Capítulo 7 – Os quatro animais;
Capítulo 8 – O carneiro e o bode;
Capítulo 9 – As Setentas semanas
Capítulos 10 -12 – A revelação histórica do anjo.

O capítulo 7 é um apocalipse isolado, Daniel 8 é um apocalipse que retomou Daniel 7, então as histórias dos quatro animais monstruosos que você encontra é o apocalipse primordial de Daniel, essa história tem como pano de fundo os capítulos de 1 a 6, mas é outro contexto histórico. Nós estamos olhando aqui para o segundo século a.C., durante o reinado do monarca helenista Antíoco Epífanes que instaura um conflito com a perseguição de judeus piedosos e a abominação do Templo culminando com a revolta dos Macabeus (encontramos essas histórias nos livros de 1 e 2 Macabeus).

O que esse apocalipse faz, ele descreve o que falta para o final do mundo chegar, na figura dos quatro animais. Uma chave para compreender quando o final dos tempos se manifesta. Segundo Daniel 7 os quatro animais formam uma narrativa histórica, simbólica que toma elementos do presente e também projeta para o futuro.

O capítulo 8 foi escrito um bom tempo depois do capítulo 7, a história do carneiro e do bode, desenvolve o contexto de Daniel 7 a imagem do final dos tempos agora na figura do carneiro e do bode. São figuras que serão familiares a nossa leitura por causa do Novo Testamento no Apocalipse de João. As figuras são animalescas que representam pessoas que se opõe a Deus e que estão para ser destruídas no final dos tempos, final esse que está próximo.

Daniel 9 a história das setenta semanas, também bem conhecida entre nós, vai tratar do mesmo assunto, ou seja, o final dos tempos está para chegar. Trata-se de uma reflexão sobre a história na forma das setentas semanas de Jeremias. Alguns autores chamam Daniel 9 de um midraxe de Jeremias.

E por fim, Daniel 10-12, chamamos de revelação histórica porque o anjo chega para Daniel e diz vou revelar para você aquilo que está para acontecer em breve. Trata-se de uma revelação escatológica que tenta narrar os eventos históricos para o personagem da história que é Daniel.

Há necessidade de um breve comentário sobre os capítulos 13 e 14 do livro de Daniel. Esses capítulos somente são encontrados na versão católica romana e não nas Bíblias protestantes. O capítulo 13, conta a história da bela Suzana e como ela se livrou do falso testemunho de dois anciãos, claro que o livramento se dá devido a sabedoria e inteligência do jovem Daniel. O capítulo 14 temos duas histórias; na primeira o jovem Daniel desmascara os sacerdotes de Bel, mata seus sacerdotes e destrói esse falso deus; na segunda o jovem Daniel sem usar de nenhuma arma explode o dragão que é adorado pelos babilônios. Esses dois capítulos lembram a primeira parte do livro de Daniel que fala sobre as narrativas da corte.

Temos dois elementos para guardar nestes apocalipses, elementos esses que serão usados várias vezes nos apocalipses posteriores: um personagem que é o adversário escatológico, o Antíoco Epífanes que é o que chamamos de Anticristo, é um personagem que se opõe e persegue o povo de Deus e que será destruído no final por um enviado de Deus, um messias ou pelo próprio Deus. É o adversário dos finais dos tempos, e esse elemento está em torno da narrativa do Templo por ter profanado o Templo[3]. Quando encontramos no Novo Testamento a imagem do anticristo geralmente essa imagem gira em torno do Templo acusando a profanação que foi aquilo que Antíoco Epífanes fez.

E a outra figura que precisamos tomar de Daniel, figura essa será apropriada nos textos posteriores do filho do Homem e do final propriamente dito. Então são dois aspectos que precisamos observar um é o anticristo o adversário escatológico e a adoração a esse personagem no Templo e o outro é o filho do Homem e o final dos tempos. Estes são os elementos que você tem em Daniel e pode rastreá-los nos apocalipses posteriores.

Bibliografia:
COLLINS, JOHN.J – A Imaginação Apocalíptica, uma introdução a apocalíptica judaica. São Paulo: Paulus. 2010.
Anotações da aula do Prof. Dr. Valtair Afonso Miranda sobre Mito, Metáfora e História na Linguagem Apocalíptica.



[1] F.L¨Luche, Versuch einer vollständigen Einleitung in die Offnbarung Johannis  und in die gesamte apokalyptsche Literatur (Bonn: Weber, 1832)
[2] Veja o post de “Daniel, autor, texto e contexto”, em meu blog: http://prwneves.blogspot.com.br/2017/05/daniel-autor-texto-e-contexto.html

[3] Leia no blog “O Sermão Profético de Jesus”: http://prwneves.blogspot.com.br/2017/09/

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

O Sermão Profético de Jesus

Um dos textos apocalípticos no Novo Testamento é o Sermão Profético de Jesus que aparece nos Evangelhos sinóticos de Marcos 13, Mateus 24 e Lucas 21.  A história em todos os Evangelhos vai ser a mesma, Jesus passa pelo Templo e comenta algo com os discípulos.

“E, saindo ele do templo, disse-lhe um dos seus discípulos: Mestre, olha que pedras, e que edifícios! E, respondendo Jesus, disse-lhe: Vês estes grandes edifícios? Não ficará pedra sobre pedra que não seja derrubada. E, assentando-se ele no Monte das Oliveiras, defronte do templo, Pedro, e Tiago, e João e André lhe perguntaram em  particular: Dize-nos, quando serão essas coisas, e que sinal haverá quando todas elas estiverem para se cumprir”. Marcos 13:1-4

Após a admiração dos discípulos a respeito da grandeza do Templo eles dizem “Mestre, olha que pedras e que edifícios”, Jesus imediatamente faz uma declaração surpreendente “Vês estes grandes edifícios? Não ficará pedra sobre pedra que não seja derrubada.”  Na sequência, o grupo caminha para o Monte das Oliveiras, quando alguns discípulos o chamam em particular e lhe perguntam, Mateus 24.3;

 “E, estando assentado no Monte das Oliveiras, chegaram-se a ele os seus discípulos em particular, dizendo: Dize-nos, quando serão essas coisas, e que sinal haverá da tua vinda e do fim do mundo ?” 

Observamos que são duas perguntas que os discípulos querem saber: A primeira é o que são “essas coisas”. “Essas coisas” faz referência a destruição do Templo, não ficará pedra sobre pedra, tudo será destruído. E a segunda pergunta é “que sinal haverá da tua vinda e do fim do mundo? ”. Todo o restante do sermão profético de Jesus é o desdobramento dessas duas questões.
Na versão dos evangelistas Marcos, Mateus e Lucas, Jesus responde quando “essas coisas” acontecerão, e também responde sobre “que sinal haverá” associando a vinda do filho do Homem e a sua parusia. Duas questões, duas respostas.

Ao responder, a primeira pergunta, sobre a destruição do Templo, Jesus relaciona o evento com as palavras do livro de Daniel a respeito do filho da iniquidade, do anticristo, citando Antíoco Epífanes e chamando-o de abominação da abominação, que é o anticristo o adversário escatológico que não aparecem nos textos do Evangelho, mas está no livro de Daniel em diversas formas; o bode que fala blasfêmia, o chifre de blasfêmia, essas figuras estão vinculadas com a abominação do Templo daquela época, entre os anos 167 e 164 a.C, durante o período de conflito com os Macabeus. E aqui no sermão profético de Jesus há um vínculo entre a queda do Templo e a abominação do Templo citada no livro de Daniel.

Para uma melhor compreensão, cabe lembrar que para entendermos o texto em si, precisamos fazer duas leituras; a primeira uma leitura sicrônica, que é o momento em que o evento (fato) está acontecendo; e a segunda uma leitura diacrônica, o tempo que o autor escreveu o Evangelho que pode ser 30, 40, 50 anos depois ou até mais. A comunidade marcana escreve o seu Evangelho durante o período de guerra judaica-romana e as comunidades mateana e lucana após o evento da guerra e a destruição do Tempo, ocorrida entre 66 e 70 da nossa era pelo general Tito. Essa guerra judaica-romana fica muito clara nesses textos que citam a destruição do Templo. Guerra essa que culminou com a destruição do Templo e de Jerusalém e fornece o contexto desses textos neotestamentária.

A outra pergunta dos discípulos, referente a volta de Jesus a sua parusia, ela também é respondida com as palavras de Daniel a respeito do filho do Homem. O filho do Homem e o filho do mundo (do livro de Daniel) estão relacionados, tanto aqui no sermão profético, quanto lá em Daniel. Então vejam, Daniel é retomado no discurso profético de Jesus, alguns autores chegam a argumentar que o sermão profético de Jesus é um sermão sobre Daniel. Assim como alguns comentam que Daniel é um midraxe de Jeremias, outros compreendem que o sermão profético é um midraxe de Daniel.
De qualquer maneira o sermão profético é um texto que surge no contexto da guerra, primeiro no Evangelho de Marcos, por se tratar do mais antigo, e depois, Mateus e Lucas que se apropriam do texto de Marcos com formas diferentes. Alguns autores chamaram essa narrativa como narrativas de guerra, por que? Porque ela surge no contexto da guerra. Então no momento em que a guerra está acontecendo o Evangelho surge, você pode ler o texto e imaginar o conflito que está acontecendo, neste caso o texto é a resposta para o confronto. E confronto aqui é contra o imperialismo romano, contra os exércitos imperiais de Roma. O general Tito, responsável pelo ataque à Jerusalém e pela destruição do Templo, num futuro próximo se tornará imperador de Roma e depois dele seu irmão Vespasiano.

Percebam que essas narrativas têm esse fundo que é o fundo do conflito, e no fundo do conflito os evangelistas retomam o Apocalipse de Daniel. Um para relacionar com o Templo outro para relacionar com a parusia.
Não estou dizendo nesse argumento que historicamente o Jesus histórico enquanto andava com seus discípulos não tenha pregado o sermão de Daniel ou não tenha dito essas palavras, o nosso argumento na interpretação desse texto é em outro sentido. Nosso interesse é mostrar os dois níveis de leitura dos Evangelhos; o primeiro o nível sincrônico o momento que Jesus está caminhando de lá para cá, a guerra ainda vai acontecer, Ele está pregando as suas mensagens aos discípulos. O segundo é que os Evangelhos foram escritos muito tempo depois, seus autores ou estão vivendo o impacto da guerra ou já passaram por esse impacto, essa leitura é o que chamamos de leitura diacrônica. Ou seja, precisamos olhar para o texto no tempo do autor do Evangelho. E no tempo do autor do Evangelho ele faz um sentido interessantíssimo para a comunidade, porque por meio dele a comunidade interpreta o próprio tempo.

Desta maneira chamo a atenção de vocês para os níveis de leitura, especialmente nessa narrativa que tenta explicar um conflito entre comunidades judaicas e o império Romano, com as suas consequências irreversíveis como por exemplo o número de mortes dos judeus. Esta guerra pode nos ajudar a entender os apocalipses do primeiro século posteriores a guerra, pois eles são o resultado da guerra, eles têm a guerra na memória. Entre eles podemos citar 4 Esdras, Apocalipse de Baruque e especialmente o Apocalipse de João. São textos escritos por judeus, são pseudônimos, porque olham para personagens do Antigo Testamento, assumem essa personalidade e escrevem como se estivesse lá.  E quais são os eventos históricos que encontraremos no 4 Esdras e em Baruque, é exatamente a guerra judaico-romana, a enorme mortandade de judeus no conflito e a demonização do Império Romano. E no futuro o Império Romano será o adversário a ser vencido.



domingo, 11 de junho de 2017

Fundamentalismo e seus Pressupostos no Protestantismo Brasileiro


O protestantismo tem na Bíblia a sua razão de ser. Ela é a “única regra de fé e prática”, e esse princípio tem uma série de desdobramentos. O texto sagrado tem a primazia na Igreja e a prédica é o ponto alto do culto cristão. Nisto todos concordam. Poderíamos também acrescentar que a Sagrada Escritura é sinônimo de relacionamento com Deus, daí o pregador pode ser medido pelo seu conhecimento bíblico. Lembremo-nos que somos herdeiros da Reforma, para nós [protestantes] a construção se dá a partir do texto bíblico, sem texto não há Protestantismo.
O reformador Martinho Lutero teve nas Sagradas Escrituras sua inspiração. Mas em nenhum momento a Bíblia ganhou um status de infalibilidade ou inerrância. Estes são conceitos posteriores do fundamentalismo. Segundo Dreher, Lutero via o Evangelho como anterior à Bíblia (cânon)[1]. Entende-se que a Bíblia não era o Evangelho, mas o que ela relata, sim, é Evangelho. Para Lutero, a mensagem do Evangelho vinha antes da Bíblia e não depois. Nesse sentido, portanto, a Bíblia continha a Palavra de Deus[2]. O mesmo não se aplica a João Calvino, que compreendia o texto bíblico como uma “lei da verdade”, concepção que irá ultrapassar suas ideias no desenvolver do Protestantismo fomentando uma relação com a Bíblia a partir da radicalidade do literalismo[3].
À procura de uma autoridade suprema e infalível, o Protestantismo buscou no texto bíblico a sua fonte. Em disputas com o liberalismo teológico europeu, o Protestantismo estadunidense formulou os fundamentos tendo como primeiro ponto “a inspiração e inerrância da Bíblia”. Estava aí a porta de entrada para o fundamentalismo, logo a Bíblia não contém erros em tudo que afirma[4].
A partir disso a Bíblia deixa de ser um registro da revelação para ser a própria revelação. Quanto àqueles que afirmam que a Bíblia contém a revelação, são qualificados como neo-ortodoxos ou pejorativamente de “hereges”.
Um exemplo disso é: a questão da revelação e sua relação com a Bíblia foi trabalhada por Karl Barth, que afirmava ser a Bíblia o testemunho da revelação de Deus[5]. Rudolf Bultmann foi mais além com sua demitologização – uma maneira de ver Deus no texto bíblico, mas não ficar espantando com o vocabulário mitológico e pré-científico[6]. Esses teólogos foram rejeitados e qualificados como hereges pela ortodoxia.
Mas, qual é a leitura bíblica evangelística que se prega hoje nos púlpitos brasileiros?
O protestantismo brasileiro é herdeiro dessa dicotomia Bíblia-revelação. A postura diante da Bíblia será marcada pelo radicalismo, pela cisão, pelas disputas ideológicas e de poder nas denominações do Protestantismo histórico, Pentecostais e Neo-pentecostais.
Rubem Alves[7]em sua critica diz que essa postura anula as mediações que a Bíblia tem em seu contexto: a leitura temporal da Bíblia, ou seja, uma leitura para o seu próprio tempo é reprimida; ocorre a destruição dos símbolos e mitos no texto; por fim, o livre-exame deixa de existir. Mendonça resume tudo na seguinte frase “a Bíblia ficou cativa no Protestantismo[8]”.
Para Paulo Nogueira, a leitura bíblica evangelística brasileira tem a sua origem no conservadorismo evangelístico americano do século XIX, nós sequer temos uma leitura evangélica. Uma constatação inicial: existe mais literatura fundamentalista traduzida do inglês do que literatura produzida no Brasil[9]. É a cultura da Rua Conde de Sarzedas (famosa em São Paulo por vender materiais evangélicos).
Durante uma aula de Ciências da Religião - Lato Sensu na UMESP, Nogueira expressou a seguinte ideia “basicamente as ideias que nos temos [se referindo ao protestantismo brasileiro] são ideias do evangelismo norte americano que é extremamente conservador e é do senso comum que combate as variações e os estudos bíblicos que procuram ver a Bíblia pela cultura, inclusive às questões emancipatórias literárias de grupos específicos que leem a Bíblia. Em seminários de teologia, tirando os que estão nas universidades e que são de instituições de tradição intelectual, onde há liberdade acadêmica efetiva, os seminários pequenos sofrem inquisição na medida em que você não está alinhado a essa linguagem teológica conservadora que importamos e que está arraigada no nosso universo evangélico. O não enquadramento a esse conservadorismo propicia inúmeros dissabores ministeriais como descredenciamento e coisas do gênero. É com base na aceitação ou não deste sistema de doutrinas (do qual acreditam que a Bíblia é fonte) que os fundamentalistas decidem se alguém é cristão ou não (portanto se a alma terá salvação ou perdição eterna). A função da Bíblia é dar informações (tiradas literalmente e segundo arranjos malabarísticos entre diferentes textos) para a construção deste edifício doutrinário”.
Para Nogueira, todo o edifício fundamentalista é sustentado não por uma sólida hermenêutica bíblica e sim por um sistema doutrinário. Este sistema doutrinário e a sua aceitação é que define se uma pessoa é fundamentalista ou não. Crer nas verdades fundamentais, a saber: a divindade de Cristo, seu nascimento virginal, a redenção pelo sangue de Cristo, sua ressurreição corpórea, a segunda vinda de Cristo, a pecaminosidade do homem e o juízo sobre o mundo, etc. fazem parte de um cristianismo saudável e não obrigatoriamente torna o crente em um fundamentalista.
Apresentando um quadro (caricatural) do fenômeno religioso e social chamado fundamentalismo. As características mais salientes [do fundamentalismo] são as seguintes:
(a) uma ênfase muito forte sobre a inerrância da Bíblia, [isto é,] ausência de toda sorte de erro;
(b) uma forte hostilidade contra a teologia moderna e contra os métodos, resultados e implicações do estudo moderno e crítico da Bíblia;
(c) uma convicção de que aqueles que não compartilham de seus pontos de vista não são realmente “verdadeiros cristãos” de maneira nenhuma.
Para Nogueira, o fato é que existe uma geração de pesquisadores que estão pensando as coisas de modo diferente, que estão voltando as suas comunidades e mudando o paradigma de quem estuda teologia perde a fé, muito pelo contrário, o estudo crítico da Bíblia ele não tira a fé, mas aumenta as experiências religiosas e o conhecimento baseado na verdade. Esses pesquisadores voltam as suas igrejas e trabalham para abrir o entendimento dos demais, não podemos no sec. XXI seguir com os paradigmas do sec. XIX.
Alguns teólogos vêm trabalhando para o encurtamento da distancia entre Deus e o ser humano em seus textos. Varias literaturas de autores sérios tem sido traduzidas no país, a proposta é buscar uma síntese entre transcendência e imanência onde a revelação vem de fora, mas encontra ressonância na pessoa. Partindo de eixos condutores, como a exegese contemporânea, a leitura histórico crítica, a arqueologia são estudos que contribui na solução de questões históricas bíblicas que até então eram inquestionáveis. A Bíblia narra a historia de um povo que viveu sua fé, que inclui naturalmente, vicissitudes, como tramas, conquistas, derrotas, alegrias, tristezas. Sua história foi ganhando corpo escrito depois do exílio babilônico. E se há revelação no texto, como há de fato, ela surgiu como consequência de um processo de fé que modelou seu pensamento e experiência[10]. O texto não surgiu como palavra feita e dada do nada e no vazio [como o livro dos Mormos], muito pelo contrário, o texto recolhe sagas, mitos, festas, lendas, folclore para dar claridade ao passado de Israel e sua experiência originária com o conhecido YHWH.
Dentro do imaginário religioso e cultural, a comunidade vivência a sua fé sem pretensão alguma de construir dogmas, ou fundamentalismo. O texto já é um produto revelacional e não, propriamente, revelação. A revelação não apareceu como palavra feita, como oráculo de uma divindade escutado por um vidente, mas como experiência viva.
O texto bíblico não esta pautado num fundamentalismo ou inerrância. Ele possi fragilidade, e está aí a graça de Deus. As contradições, as ambivalências, o caráter histórico vêm corroborar que o texto é humano, demasiadamente humano-divino.[11]









[1] Cf. DREHER, Martin N. Bíblia; suas leituras e interpretações na história do cristianismo. São Leopoldo: Sinodal, 2006. p. 44.  
[2] Cf. TILLICH, Paul. História do pensamento cristão. Trad. Jaci Maraschin. São Paulo: ASTE, 1988. p. 222.  
[3] Cf. ibid., p. 250. 
[4] Cf. HORDERN, William. Teologia protestante ao alcance de todos. 2. ed. Trad. Roque Monteiro de Andrade. Rio de Janeiro: JUERP, 1979. p. 70ss.  
[5]Cf. BARTH, Karl. Conceito dialético de revelação. In: FERREIRA, Júlio Andrade (org.). Antologia teológica. São Paulo: Fonte Editorial, 2005. p. 60ss.   
[6] Cf. BULTMANN, Rudolf. Demitologização; coletânea de ensaios. Trad. Walter Altmann e Luís Marcos Sander. São Leopoldo: Sinodal, 1999.  
[7] Cf. ALVES, Rubem. Religião e repressão. São Paulo: Teológica/Loyola, 2005. p. 115ss.  
[8] Cf. MENDONÇA, Antonio Gouvêa. A Bíblia cativa, Cristo no céu e a Igreja ausente. Estudos de Religião, São Bernardo do Campo: Umesp, ano IV, n. 6, p. 167-182, abr. 1989.  
[9] Paulo Roberto de Souza Nogueira é Prof.Dr. em Teologia e Professor titular de Apocaliptismo na UMESP
[10] Cf. TORRES QUEIRUGA, Andrés. A revelação de Deus na realização humana. Trad. Afonso Maria Ligorio Soares. São Paulo: Paulus, 1995.  
[11] Cf. PANASIEWICZ, Roberlei. A fragilidade de Deus – Uma compreensão da revelação de Deus em Andrés Torres Queiruga. In: SOTER (org.). Deus e vida; desafios, alternativas e o futuro da América Latina e do Caribe. São Paulo: Paulinas, 2008. p. 385-406.